O Canadá e o genocídio Indígena


Escolas de "reeducação" existiram até 1990

Na última semana, na província de Columbia Britânica, foram encontrados os corpos de 215 crianças num terreno da tristemente lembrada Escola Residencial para Indígenas Kamloops. Esta foi uma escola aberta em 1890 pelo governo canadense e dirigida pela Igreja Católica, que “reeducava” crianças indígenas, visando torná-las “canadenses”. Esse processo de sequestro das crianças de suas famílias, educação forçada, perda de cultura original, tortura e morte durou quase um século já que a escola só foi fechada em 1970. Outras delas, dirigidas também por anglicanos, metodistas e presbiterianos,  ainda seguiram funcionando até 1990.

Segundo informações da Comissão da Verdade e da Reconciliação, desde a invasão do Canadá sabe-se que as igrejas realizavam uma sistemática ação de destruição da cultura, através da evangelização, mas a partir do ano de 1840, o estado oficialmente assume uma parceria ao criar as primeiras escolas para indígenas na cidade de Ontário. O governo então dava os recursos, e as igrejas providenciavam a “educação”.  Só que o que era para ser um processo de inclusão dos povos originários à vida do país, acabou sendo um circo de horrores.

Em 1898 já existiam 54 escolas no país dentro do modelo de “Escolas Residenciais”, o que no Brasil se assemelharia aos internatos.  E era para esse tipo de escola que eram mandadas as crianças indígenas, num atentado sem limites contra suas crenças e seus costumes.  Em 1946 foi registrado o número máximo de escolas: 74. E, segundo a lei, os pais que se recusassem a mandar os filhos eram punidos criminalmente. Não havia escapatória. Os indígenas eram obrigados a enviar os filhos para o inferno. 

Não bastasse isso, muitas dessas crianças eram submetidas a violências de toda a ordem, inclusive sexuais. A comissão que hoje trabalha para trazer à luz todos esses crimes, cometidos com o apoio do estado canadense, já documentou 3.200 mortes de crianças nessas escolas, decorrentes de maus tratos, abandono e suicídio. “O governo canadense manteve essa política de genocídio cultural porque queria se desvincular de suas obrigações legais e financeiras com os povos indígenas e assim poder controlar suas terras e seus recursos”, denunciam.

Segundo a Sociedade para Atenção a Infância e Famílias das Primeiras Nações, mais de 150 mil crianças indígenas passaram por essas escolas residenciais numa política deliberada de genocídio cultural. As famílias eram obrigadas, sob ameaças de prisão, a cederem os filhos para que aprendessem a língua do colonizador e fossem roubadas de sua cultura ancestral. 

Agora, com essa descoberta de mais de 250 corpos, cresce a demanda por parte da sociedade para que o governo declare um Dia Nacional de Dor em honra de todas as crianças indígenas que foram obrigadas a viver esse terror. Existem informações de que pode haver bem mais corpos não apenas nessa escola, mas também em outras, o que leva a pensar que além do etnicídio e memoricídio, o governo e igreja também permitiram que as crianças fossem mortas sem que sequer as famílias ficassem sabendo. Um verdadeiro horror. 

Há que sempre lembrar, nunca esquecer e jamais perdoar. O estado canadense precisa prestar contas de seus crimes com os povos originários.


Sobre os povos originários e a embaixada estadunidense



Belo Monte - produção de energia para os EUA - Foto: amazoniareal.com.br

Tenho pautado minha vida, desde há décadas, a trazer para o debate a questão indígena. Minha proposta sempre foi buscar uma ponte entre o mundo indígena - tão desconhecido pela maioria - e os trabalhadores, visto que, tanto quanto os outros estão submetidos ao tacão da capital. Tenho claro que o que aconteceu aqui nesse espaço geográfico em 1500 não foi um encontro de mundos, foi uma invasão que provocou genocídio, etnocídio e memoricídio, e que permitiu a ascensão do capitalismo nos países dito centrais. Milhões de almas foram dizimadas para que poderia assomar o que hoje conhecemos como nação brasileira, e ainda assim, apesar disso, muitas etnias conseguiram sobreviver e seguem resistindo ao genocídio sistemático que nunca parou. Sempre vale lembrar que no final dos anos de 1970 os indígenas contavam pouco mais de 190 mil almas, e dizia-se que estavam fadados ao desaparecimento.

Os povos originários, donos dessa terra, foram perdendo seus territórios, empurrados para outros espaços, fugindo do ódio e dos assassinos. Os que conseguiram permanecer vivos hoje se reorganizam, buscam retomar seus territórios originais, e insistem para que haja reparação para tudo o que sofreram e perderam. Já são quase um milhão de almas, ocupam apenas 12% das terras brasileiras e ainda assim continuam alvos de preconceito e ódio racial. "Muita terra para pouco índio", como menos de 200 famílias de latifundiários que quase ocupam quase 80% das terras agricultáveis, e que não satisfeitos ainda querem abocanhar o território indígena, que é preservado e que contém riquezas minerais e biológicas de infinita para o equilíbrio da vida no planeta.

Ao longo dos anos nesse trabalho de divulgação do modo de vida indígena junto aos não-índios temos feito a crítica aos companheiros e companheiros da esquerda eurocêntrica que não conseguem em profundidade o tema indígena e que apenas se juntam às causas dos originários em momentos pontuais, não existem dentro dos partidos políticos, por exemplo, um trabalho sistemático de acompanhamento das lutas indígenas e de parceiro real. No geral, os povos originários tem travados suas batalhas de forma solitária. Recebem apoio, é claro, mais ainda é um apoio ritualístico. É fato que teve no Brasil figuras como Darcy Ribeiro, um não-índio totalmente dedicado a compreender o mundo indígena, ou os irmãos Villas-Boas, também não-índios, absolutamente voltados ao universo indígena, bem como o Conselho Indígena Missionário ligado à Igreja Católica, mas nas instituições, o tema não encontra morada.

É justamente por isso que, ao longo dos anos, compreenderam que buscam apoio para as fronteiras brasileiras ajudava em muito para que as suas causas fossem visibilizadas aqui dentro do país. Assim, como caminhadas das lideranças pela Europa, por exemplo, sempre renderam bons frutos por aqui. Uma política de risco, buscar ajuda no centro do capital, mas era o que parecia surtir efeito. E assim tem sido por muito tempo com inegáveis ganhos em algumas lutas particulares.

Entretanto, desde os anos de 1990, o movimento indígena em todas as Américas tem assomado com novas táticas de luta. E uma delas é fortalecimento de suas próprias instituições e lutas renhidas dentro de seus espaços geográficos. Organizações indígenas formadas por indígenas, desvinculadas das ONGs tradicionalis ou esporádicas, apontando novos rumos para suas lutas em todo o continente. E assim os povos indígenas vão travando, por anos e anos, um grande combate pela recuperação de suas terras e pelo direito de manter seu modo de vida, que é totalmente oposto ao que prega o sistema capitalista de produção. Como comunidades indígenas não se guiam pela produção em escala e muito menos pelo lucro. Sua cosmovivência se traduz no respeito à natureza e no equilíbrio entre o humano e o entorno. E é justamente que reside a possibilidade de uma aliança concreta com os trabalhadores explorados pela capital. Unificar as lutas, batalhar em conjunto até o fim do capitalismo e pela construção de outra forma de organizar a vida deveria ser objetivo de todos nós.

Não se trata mais de dividir o mundo entre indígenas e brancos, mas entre os que querem uma vida nova – em equilíbrio – e os que insistem em acumular riquezas a partir do roubo do trabalho e da destruição de tudo. Ou seja, a luta é contra o capital. Porque é ele que massacra os trabalhadores – a maioria das gentes – e também os povos originários.

Pedindo ajuda ao monstro 

Por isso causou profundo pesar a carta enviada por mais de 200 entidades do movimento indígena, ambiental e social brasileiro, ao presidente Joe Biden, pedindo para conversar com ele sobre os destinos da Amazônia. O argumento é de que o presidente do Brasil está disposto a destruir tudo em nome dos seus aliados - latifúndio e empresários da fé. Assim, os movimentos pedem que Biden não discuta sobre a Amazônia com Bolsonaro, mas com eles.  

Biden, que não é bobo nem nada, aproveitou a bola levantada pelos movimentos brasileiros e já ordenou uma reunião deles com a Embaixada no Brasil. Óbvio que o presidente estadunidense não iria deixar passar a possibilidade de uma aliança tão insólita: povos indígenas e o gerente maior da capital.

Ora, qualquer pessoa que se dedicou a observar minimamente os movimentos do capitalista império sabe que os Estados Unidos não têm amigos, tem interesses, e que desde sempre esteve interessado em botar como garras sobre a nossa Amazônia. Assim que se reveste de profunda ingenuidade achar esse governo dos EUA, inexplica visto como progressista (?), vai defender a Amazônia para garantir os interesses dos povos originários. Não vai. O único interesse que os EUA podem ter na Amazônia é o de explorá-la para seus interesses.

Vale lembrar que os Estados Unidos sempre se aproveitam dos grupos que lutam por mudanças no interior de seus países para invadir e destruir os espaços que se ás apetecem. Foi assim no Panamá quando os grupos "rebeldes" pediam a intervenção do "tio Sam" para salvar-los do narcotraficante Manuel Noriega. O resultado foi uma invasão que arrasou o país e matou milhares. O mesmo se passou no Afeganistão e no Iraque. Milhões de pessoas mortas por conta da "intervenção humanitária" dos Estados Unidos.

A questão que se coloca aos movimentos sociais que assinam a carta é: estão cientes de que esse é o tipo de ajuda que os EUA oferecem? É o que quer para o Brasil?

Não seria o caso de todos esses movimentos se unirem para lutar aqui dentro contra os inimigos que nos roubam a vida? Por que esperar por uma intervenção de um país que, desde o seu nascimento, só procura invadir e roubar as riquezas dos outros?  

O resultado deste desastrado movimento já deus frutos podres. A embaixada dos EUA no Brasil chamou os representantes da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) para uma conversa, mas, sem fazer caso do pedido dos movimentos, chamou também os representantes da Funai, ou seja, do governo. E lá estavam os indígenas cooptados pelo presidente, apoiando o agronegócio, os mineradores e os madeireiros, invocando o discurso do desenvolvimento capitalista como única saída para os povos originários, em contra aposição que quer autonomia e equilíbrio.

Ora, quem pode ganhar essa batalha dentro da embaixada dos EUA? O capital ou os indígenas raiz?  A resposta todos sabemos.  

Seja como pará, o pedido de "diálogo" já foi feito e agora Casa Branca vai saber usar o seu favor. Apesar de ser parte da estratégia indígena buscar apoio forâneo para suas causas, considerando que dentro do país o apoio é pequeno, esse de buscar o ladino e violento Tio Sam para parceiro, no mínimo, não foi uma boa ideia. Joe Biden iniciou seu mandato bombardeando a Síria. Ele fez parte - como vice-presidente - do governo de Barack Obama, que durante os seus seis anos de mandato ordenou sete guerras diferentes contra países muçulmanos, sendo responsável por milhões de mortes e pela destruição de espaços inteiros do planeta.

Nem nos piores pesadelos poderia pensar em pedir "ajuda" aos EUA. Porque ela vem em forma de bomba e arrasta com ela tudo o que há de bom e bonito no país.

Ainda é tempo de repensar e cair para a!


A luta Mapuche e de todas as etnias de Abya Yala


Falar da luta indígena na América Latina é sempre um desafio. Primeiro porque muito da história das comunidades vive apenas na memória, e os registros mais conhecidos são sempre de não-índios. Há, claro, muitos historiadores sérios e comprometidos com a recuperação da verdadeira história, mas também há os que embutem nos seus textos toda a carga de preconceito historicamente construída, bem como a completa incompreensão sobre a cosmovivivência destas comunidades. 

É usual observar e narrar a história e as lutas indígenas desde a mirada do presente e com as categorias epistemológicas colonizadas. Isso é bastante comum no caso de estudiosos da direita, mas também se nota o fenômeno em alguns pesquisadores alinhados mais à esquerda. Até um tempo atrás isso poderia ser compreendido pelo desconhecimento real da filosofia e da práxis dessas comunidades, mas hoje não é mais possível aceitar.

Um exemplo disso é o pensador peruano José Carlos Mariátegui, que no seu livro clássico "Sete ensaios sobre o Peru", abriu um caminho importante para se pensar os problemas relacionados ao mundo indígena na década de 1930. Ele apontou que no seu país – e isso pode se estender para todas as Américas – não tinha um "problema indígena", mas sim um "problema da terra". Ou seja, toda a algaravia sobre as comunidades nada tinha a ver com ser originárias ou não, mas sim com o fato de que pleiteavam sua terra ancestral, o que para o capitalismo que se fortalecia na região era – e ainda é – não é - não é. O tema então deixava de ser moral para se transformar num problema social, econômico e político.

Ainda assim, desvelando esse mistério a partir de uma mirada marxista, a proposta de Mariátegui para os indígenas era o socialismo e a distribuição da terra, a reforma agrária. Obviamente que Mariátegui não tinha ainda as condições históricas de apresentar uma proposta que partisse do mundo indígena. Todo modo de vida milenar que sobrevivia nos povos originários naquele então foi identificado por ele como um comunismo primitivo e não como uma forma original, única. Isso não invalida, de forma alguma, a proposta construída pelo teórico peruano de incorporação dos indígenas ao sonho socialista. Ocorre que, naqueles dias (1930), o movimento indígena latino-americano não teve espaço para apresentar suas demandas desde a própria perspectiva. Mesmo até sua história ainda estava escondida. Pouco se sabia da cosmovivência, dos conceitos fundadores de cada povo ou mesmo dos seus núcleos éticos-míticos. E por mais boa vontade ou vontade política que Mariátegui tinha, provavelmente não conseguiria formular desde a realidade originária. Esse é um caminho que só vai começar a se descortinar nos anos 1990, com as novas lutas indígenas que surgirão, e no qual o modo de vida indígena já aparece mais desvelado.

Então, se apenas nos anos de 1930 um teórico latino-americano, de esquerda, vai desviar a questão indígena da moral, colocando-a sob a materialidade econômica-política, fica bastante claro que, por séculos, a história indígena foi excluída e as comunidades que resistem por todo esse tempo tiveram de construir suas alternativas de sobrevivência e a partir de seus fundamentos políticos. E, mesmo depois de Mariátegui ter descortinado outra perspectiva de análise sobre o tema indígena poucos teóricos da esquerda espectro seguiram por trilha essa.

No geral, e a história confirma, a maioria sempre apresentou a mesma solução do peruano: socialismo, igualdade e incorporação das comunidades a uma identidade nacional. Observa-se isso na revolução boliviana de 1952, quando as terras indígenas foram distribuídas em lotes individuais ou na revolução sandinista em 1979, quando também as terras da etnia Miquisto foram tomadas pelo governo revolucionário para a reforma agrária, obrigando centenas de famílias a migrar pelo território.

Essas políticas desastrosas por parte de governos de esquerda acabaram por colocar comunidades indígenas na mão da direita, porque, para elas, esses são conceitos – direita e esquerda – que não encontram significado. Tanto que no caso da Nicarágua, os Misquito desterrados acabaram se juntando ao "contra", atuando contra a revolução. O que as comunidades originárias demandam é o seu território e a autonomia para existir conforme sua cosmovivência. Coisa ainda difícil de ser aceita por muito teórico bom.

Toda essa conversa é para discutir sobre um texto que recentemente escreveu sobre o Mapuche e que teve repercussão em Portugal, com a indignação de alguns pelo fato de eu ter escrito que a batalha da comunidade "teve um hiato durante a ditadura de Pinochet". Como não expliquei direito, vou explicar.

Quem conhece a história dos Mapuche sabe que essa foi uma etnia que – o exemplo do Misquito na Nicarágua – nunca foi colonizada pelos espanhóis, chegando a manter com a Espanha relações diplomáticas reino a reino. Sua só queda se deu, paradoxalmente, com as guerras de libertação iniciadas em 1810. Os generais criollos libertavam a América e subjugavam os Mapuche. Ainda assim a resistência foi grande. Mas muito das terras ancestrais foram roubadas e entregues a colonos brancos.

Bem mais tarde, durante o governo de Salvador Allende houve uma tentativa de retomar o tema da questão das terras Mapuche desde uma perspectiva de esquerda e a Lei Agrária editada por ele acabou por reintegrar à comunidade Mapuche algumas propriedades que foram perdidas durante a chamada "conquista da Araucania". Houve a entrega de 152 prédios a diferentes comunidades através das Cooperativas de Reforma Agrária. Também aconteceram expropriações organizadas pelo movimento social Mapuche, conhecidos como "el Cautinazo", entre os anos de 1965 e 1973 e as comunidades conseguiram recuperar mais de 165 mil hectares entre as províncias Arauco e Cautín. Mas, conforme historiadores Mapuche, como Fernando Pairican, essa reforma não chegou a ser uma ampliação do território original nem tampouco se deu no sentido de respeitar o "ser" mapuche. A lógica foi a mesma de Mariategui e da revolução boliviana. E não houve tempo para mais.

Com o golpe militar esse processo de reaproximação mais respeitoso do Estado chileno com o Mapuche foi cortado. Pinochet era a cabeça de uma ditadura sanguinária que tomou o Chile depois de derrubar armas pelo presidente socialista Salvador Allende. Ele promoveu um banho de sangue, buscando destruir fisicamente qualquer sinal da esquerda no país, matando, desaparecendo e torturando milhares de chilenos. A ditadura também agiu duramente junto ao Mapuche e entre eles foram – segundo o informe "Trabalho de Investigação de executados e desaparecidos 1973-1990 da nação Mapuche" feito pelo historiador Hernan Curinir Lincoqueo, o sociólogo Pablo Silva Carrasco e o trabalhador social Conrado Zumelzu Zumelzu, 171 casos comprovados. Pode ser mais.

Os Mapuche que foram mais vinculados ao governo de Allende foram perseguidos, desaparecidos e mortos como todos os chilenos de esquerda e as terras que foram reintegrados durante o governo da Unidade Popular de novo foram tomadas pelo exército. Relatos dão conta que os militares tiravam o Mapuche de dentro de casa e disparavam ali mesmo, na frente das famílias, obrigando-como o enter os corpos na própria terra. Ou passar aindam de helicóptero pela comunidade.com as pessoas penduradas de cabeça para baixo, indo sabe-se lá para onde.

Mas, tão logo essa primeira onda de violência avassaladora se abateu sobre a comunidade o governo de Pinochet passou a ofensiva no sentido de cooptar algumas lideranças Mapuche para seu projeto de desenvolvimento nacional e foram criados comitês comunitários – com aliados internos – garantir a entrada dos Mapuche no mundo do capital que aparecia como um espaço de desenvolvimento. Esses comitês garantem ajuda médica, assessoria agrícola e abriam possibilidades de melhoria de vida dentro dos moldes do capital. Muita gente participou dessa subdivisão das comunidades porque ao fim isso permitiu que seus filhos fossem à escola e que pudessem sair da pobreza no qual viviam. O projeto obedecia a mesma velha ideia de "integração" do indígena a uma identidade nacional.

Claro que a proposta do ditador não era de dar autonomia aos Mapuche, nem desenvolver suas comunidades, nem respeitar sua cultura, nem considera-los aliados. Apenas tratava de dividir para dominar, visando garantir a "paz" na região da Araucania. Tanto que entre os anos de 1978 e 1990 o governo entregou 69.984 títulos de propriedade às famílias Mapuche. Logicamente que eram títulos individuais, de pequenas parcelas de terra, também completamente para o do modo de vida Mapuche, que sempre primou pela propriedade coletiva da terra. Assim, com a ação de seus aliados dentro da comunidade, o ditador conseguiu minimizar os conflitos, inclusive usando a cultura Mapuche como expressão do folclore.

Outra tática do regime militar foi separar como famílias. Para isso é editado o Decreto Lei 701 que abre caminho para a exploração florestal, proposta fundamental para a desarticulação e fragmentação das comunidades Mapuche. Grandes empresários iam avançando sobre as terras e os Mapuche foram obrigados a migrar os territórios seus originais, seja pela força da coação, da invasão dos posseiros ou por conta da destruição do solo provocada pelos eucaliptos. A paz daqueles dias era a do cemitério.

O hiato de lutas mais acirradas e organizadas existente no governo Pinochet se deveu a isso e, é claro, a própria força da violência do regime, que fez com que os grupos mais à esquerda trabalhassem clandestinamente, fossem eles Mapuche ou não. E, nesse sentido, foram fundamentais na resistência, período, o Conselho Regional Mapuche, fundado em 1977, os Centros Culturais ligados à Igreja Católica, nascidos em 1978, e a Associação Gremial de Pequenos Agricultores e Artesão Ad Mapu, que aparece em 1981 e vai se contrapondo de mais claramente contra o regime.

A partir dos anos 1990, em todo o território de Abya Yala começa a se expressar mais publicamente a reação indígena, que se forjava nos espaços profundos de toda a América Latina. Foi assim no México, na Bolívia, no Peru e no Chile não é diferente. Assim a luta Mapuche volta a crescer no sentido de fazer com que os governos devolum como terras roubadas e reconhecessem sua autonomia. Nesse ínterim, a ditadura chilena cai, a democracia volta à cena, mas os governos que se sucedem não são capazes de atender as reivindicações da comunidade. Daí que novas e potentes lutas são travadas desde então.

A história Mapuche não se diferencia muito das demais etnias no que diz respeito aos governos dos estados nacionais. Quando está à direita, os governos usam políticas paternalistas para cooptar os mais ingênuos enquanto vão provocando o roubo sistemático do território e quando está a esquerda, como as lideranças não conseguem avançar muito além de suas ideias pré-concebidas sobre reforma agrária de corte burguês e a ideia de que haver deve uma identidade nacional unificando tudo. Os povos originários têm respostas para isso: é a proposta do estado plurinacional, que já caminhou um pouco na Bolívia e no Equador, embora ainda não tenha chegado a um estado ideal.

É fato que há movimentos mais radicais e separatistas, mas a proposta hegemônica continua sendo a de conviver dentro do já demarcado estado-nação, garantindo o território e a autonomia. O movimento indígena sabe que não pode apagar com uma borracha a mais de 500 anos de dominação, genocídio e memoricídio, mas tem claro que os estados que se conformaram na balcanização da independência tem com os originários uma dívida histórica. E é aí que os partidos de esquerda e movimentos sociais ligados aos trabalhadores deveriam atuar. Construindo com os indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais – que tem suas particularidades bem definidas – uma proposta que aproxima os trabalhadores não-índios para a invenção de outro modo de produção da vida. Já que, no modo capitalista, todos estão sob a opressão. No Chile, durante as grandes manifestações coletivas dos últimos anos isso vem se costurando, tanto que a bandeira Mapuche esteve lado a lado com estudantes e trabalhadores.

Esse é um longo caminho ainda por se fazer. Mas, em alguma medida já está se fazendo.

Chile: comunidade Mapuche em tempo de retomadas


 A população de etnia mapuche, que vive no sul do Chile, carrega uma marca que se configura imperdoável: nunca foi colonizada. Nem na época da invasão espanhola, nem depois das guerras de libertação. E até hoje, passados sucessivos governos, insiste em sua autonomia. E, aqui, nesse ponto, há que se esclarecer. Autonomia não quer dizer separatismo, como muitos insistem em dizer – tanto à direita como à esquerda. Autonomia significa poder gerir seu território e os recursos que nele existem de acordo com sua cultura, sua cosmovivência. Para tanto, precisa que o estado chileno compreenda isso e pare de tratá-los como se fossem de outro planeta. Em países como a Bolívia e o Equador, por exemplo, esse debate já avançou e o conceito de estado plurinacional é entendido e de alguma maneira vivenciado. Ao aceitar esse conceito os estados-nação, nos mais das vezes criados à revelia dos povos autóctones, pode lidar melhor com as demandas indígenas, respeitando seu modo de vida, sem jogar-los contra a sociedade não-indígena. No México, os zapatistas também atuam de forma a garantir sua autonomia, dialogando com o estado, mas em sistindo em gerir a região onde está de acordo com as regras de sua cultura. É um processo permanente de diálogo e acordos.

A história de autonomia da comunidade Mapuche vem desde os tempos da invasão. Sem nunca ter sido vencidos, eles negociavam diretamente com o rei da Espanha e sempre se mantiveram como um povo em um próprio território, ainda que em relação tensa com a realeza espanhola. Mas, com independência e a formação do estado chileno as terras Mapuche começaram a ser entregues aos fazendeiros que chegavam na região como colonizadores, e desde a luta tem sido grande. Houve um pequeno hiato na época de Pinochet, quando o ditador negociou com os Mapuche e lhes garantiu o direito à posse da terra.

A partir do fim da ditadura e a volta da chamada democracia, a região da Araucania, onde se concentram os Mapuche, voltam ao ser palco de cobiça. Começaram como disputas político-partidas, com a consequente busca por votos e as promessas politiqueiras que foram minando o território e buscando cooptar as famílias para o modo de vida do mundo capitalista. Tanto foi assim que algumas delas chegaram à venda de suas terras, buscando viver na cidade, por conta das promessas de vida melhor. Mas, a maioria permaneceu na terra e em luta.

Não basta a pressão dos partidos na disputa por votos também apareceram na região dos narcotraficantes, e algumas famílias, por conta da pobreza crônica e da falta de perspectiva, sucumbiram, o que leva hoje o estado e a direita chilena apontar cada Mapuche como um terrorista ou um traficante. Nada mais falso e ideológico. São exceções e não representam a realidade Mapuche como um todo.

Hoje – e mesmo nos governos da Concertação, que se diziam progressistas – a relação do estado com os Mapuche não tem avançado para um acordo, pelo contrário, pela comunidade vive, sistematicamente, o ataque violento das forças da repressão. Em consequência, como comunidades reagem, seja resistindo de forma ativa, enfrentando a polícia, ou usando a estratégia da greve de fome. Isso acontece principalmente nas prisões, onde estão confinadas por conta das manifestações ou ações diretas que protagonizam. Atualmente 88 pessoas da etnia Mapuche estão em greve de fome. É por isso que a cada um tanto acontece uma onda de protestos ou de ações de resistência. Alguns deles já sucumbiram nessas greves, é uma estratégia desesperada, e ainda uma das poucas que garantem alguma abertura de negociação.

Como ao longo dos anos os Mapuche foram roubados de suas terras, como lutas se sucedem, ora mais duras, ora menos. Nas últimas semanas uma nova onda de retomadas - recuperação do território - está acontecendo, com os Mapuche visando tomar de volta para si os quase 32 mil quilômetros quadrados que conformam seu território original. E por conta dessa decisão os Mapuche tem ocupado propriedades, carros queimados, maquinários e também os caminhões dos madeireiros que infestam a região, muitos deles tirando madeira ilegalmente. E, como sempre acontece, quando o copo enche demais e os Mapuche passam o ataque em vez de apenas resistir, o governo e meios de comunicação os acusam de bandidos, violentos e baderneiros.

Agora, diante dessa nova onda o presidente Sebastián Piñera sai à opinião pública dizendo que há muitas demandas Mapuche que pode ser resolvida no diálogo, sem a necessidade de ações violentas (as retomadas), como se não fosse diálogo o que os Mapuche vêm tentando desde que o estado começou a roubar suas terras na final do século 19, distribuindo-como para colonos brancos. É falso, portanto, acusar a comunidade de terrorista. Ele reage ao esbulho. Ainda assim, por conta das campanhas sistemáticas contra a etnia, tanto por parte do estado como pela mídia comercial, a opinião pública tende a ver os Mapuches como bandidos. Uma pesquisa divulgada nos jornais chilenos neste domingo, dia 28 de fevereiro, dá conta de que 60% dos entrevistados acreditam que os fazendeiros têm direitos sobre as terras, 55% apontam que os Mapuche são terroristas e 77% pensam que os juízes e fiscais são muito brandos e deveriam agir com mão dura sobre os Mapuche. Isso é resultado de décadas de manipulação da informação.

O parlamento chileno tem pressionado o governo exigindo ocupação militar da área onde as retomadas bem como a instalação do estado de sitio na zona da Araucania, desconhecendo a força de luta dessa etnia que nunca dobrou os joelhos a ninguém. Piñera ainda não mandou exército, mas inveja para a região dos ministros do Interior, da Defesa, o chefe dos Carabineiros e o comandante do Exército, além de liberar os fazendeiros para usar armas "em defesa", o que deve desencadear muita morte na região. O argumento para isso é "o desmonte de "células terroristas e de narcotraficantes", um eufemismo para povo Mapuche. Ou seja, apesar de dizer que as demandas podem ser trabalhadas com diálogo, não é diálogo o que o governo propõe.

Na última semana a comunidade Mapuche lançou um documento, dirigido ao presidente Piñera, dialogando diretamente com o chefe da nação, no qual explica a situação na Araucania e coloca como propostas para a paz. A exemplo das comunidades originárias de outros países latino-americanos, os Mapuche parecem ter bem claro a diferença entre soberania e autonomia. Eles não apresentam proposta de separação do estado chileno, apenas querem viver com autonomia dentro do território onde tradicionalmente existe desde tempos. O mesmo acontece com o Mapuche que vive na Argentina. Se por vezes, nos seus documentos, aparece a questão da separação do estado, ela está sempre vinculada ao fato de que o estado, tanto chileno como argentino, não oferecem canais de negociação e não se dispõem a compreender o modo de vida do "wallmapu", palavra que projeta tanto território como maneira de existir segundo sua cultura. Essa é uma questão chave, principalmente para aqueles que insistem em atacar as comunidades acusando-as de separatismo, tanto a direita, quanto a esquerda, que não compreender conseguem em profundidade a complexidade que há na luta das comunidades originárias. Comunidades estas que não estão dispostas a assumir o modo de produção capitalista, que tem sua própria maneira de organizar a vida e que, segundo o próprio Marx, conforme suas anotações antropológicas feitos mais à final da vida, estão muito mais próximas do estado comunista que qualquer outro, assim como estavam em comunas camponesas russas no seu tempo.

Os Mapuche reconhecem o governo chileno e querem negociar. No documento entregue ao presidente Sebastián Piñera eles informam que as ações efetuadas nas últimas semanas tem a ver com a decisão da comunidade em recuperar definitivamente as terras que foram roubadas pelo Estado chileno durante o que se configurou chamar de "pacificação da Araucania". Lembra que a legislação nacional tem sido muito limitada na que diz respeito aos seus direitos, mas que o direito internacional oferece diretrizes para resolver as questões de direito à terra, território e seus recursos. Esse é um canal importante que precisa ser reconhecido pelo governo chileno.

Também apontam que os prédios pertencentes hoje às empresas privadas e às empresas florestais que estão sendo retomados - e alguns incendiados - se constituíram de forma ilegal e ilegítima sobre o território que é deles. Logo, quem cometeu crime foram eles e não os Mapuche. Recordam que o Estado chileno jamais teve a vontade política de fazer uma negociação de verdade e sublinham que o Relator Especial de Direitos Humanos da ONU, que esteve com eles em 2013, o pedido do próprio Piñera para o que parecia ser abertura de negociação, recomendou 32 medidas, como que nunca foram levadas em conta. Então como vem o presidente agora falando em diálogo?

Os Mapuche sim querem dialogar e encontrar saídas para cada uma das recuperações de terra que estão sendo feitas. E espera que diante do cenário gravíssimo da pandemia e da necessidade da luta dos Mapuche o governo delibere por recursos que garantam o direito à terra que está sendo reivindicada. Se o Estado deu a terra que não era dele a alguém, que agora estamos indenize. Mas, não vem atiçar a opinião pública dizendo que os Mapuche são bandidos.

Essa estratégia de criminalizar tem sido usada desde sempre pelo estado chileno. Primeiro, demonizando o Mapuche diante dos demais chilenos, tratando-os como se fossem os intolerantes que não querem assumir a cidadania chilena. Ora, quem conhece o mínimo da história Mapuche sabe o quanto essa etnia tem para garantir sua forma de viver dentro do chamado estado nacional, sempre lembrando que o Chile, assim como praticamente todos os estados-nação da América Latina, constituídos pelas armas são plurinacionais, tendo dentro deles várias etnias em comunidades organizadas buscando viver em relação ao seu cosmovisão. Essa deveria ser a régua a medir como relações. O estado, que foi o usurpador das terras, deveria assumir sua responsabilidade na tentativa de genocídio e acertar as coisas, atuando no sentido de harmonizar as relações e não a de incentivar mais confronto.

Para os Mapuche a ideia de diálogo está sempre na mesa, mas cientes de que esse diálogo não acontece e que não há qualquer vontade em resolver as questões territoriais, a única saída que encontrar é a retomada. E tanto isso é uma estratégia acertada que agora o presidente finalmente olhou para a comunidade. Só que em vez do diálogo prometido, o que ele invejável é a violência do estado, como sempre aconteceu. Isso não é novidade para os Mapuche.

Nesta final de semana o presidente Piñera se reuniu com os representantes de todos os poderes da nação para discutir um possível estado de sítio na região da Araucania. De novo, Piñera está surdo para as reivindicações do povo Mapuche. Assim, enquanto o presidente trama uma invasão militar, a comunidade segue acenando com o diálogo.

Diante deste cenário, quem são os terroristas?  

Para quem acompanha a luta das comunidades originárias na América Latina não há novidades. Desde a invasão espanhola e portuguesa, que os europeus insistem em chamar de "encontro de mundos", o que se vê é a decisão permanente de destruição das etnias integrarem os povos indígenas ao modo de produção capitalista, no caso como mão-de-obra sem-terra, passível de exploração. A "ousadia" das comunidades em querer permanecer em seus territórios, vivendo de outra forma que não se configura no endeusamento da propriedade privada e da exploração, é vista como criminosa e os ataques são intermináveis.

Mas, por outro lado, como comunidades resistem, sobrevivem e sempre encontram novas formas de garantir seus direitos. Assim faz o Mapuche no Chile como como comunidades originárias no Brasil, cuja estratégia das retomadas também é utilizada sistematicamente. Como muito bem desvela o geógrafo e professor Carlos Walter Porto-Gonçalves, desde os anos de 1990 como populações indígenas da América Latina inauguraram outra via de luta, para além do eurocêntrico lema "Liberdade, Fraternidade e Igualdade", que liderou a revolução burguesa. Aqui, a palavra de ordem é "Vida, Dignidade e Território". Isso é o que configura uma utopia de Abya Yala. Essa é uma estrada.

Por isso, pode-se esperar mais um banho de sangue caso Piñera insiste em uma solução militar.

O fogo e os indígenas

 


22.09.2020

Então o presidente do Brasil foi à ONU dizer que as queimadas que assolam o Pantanal, o Cerrado e Amazônia  - que até ontem ele negava  - estão sendo provocadas pelos indígenas e pelos caboclos. Até aí nada de novo a considerar uma criatura que se move unicamente no pântano da mentira. Mas, cabe a nós trazer um pouco de informação veraz à população. 

Um estudo da Ambiental Media, entidade que trabalha com jornalismo de dados, cruzou informações de instituições públicas como o INPE e o Cadastro Ambiental Rural, e mostrou que são as propriedades rurais de médio e grande porte as que apresentaram 72% dos focos de incêndio no ano passado. São também essas propriedades que apresentaram o maior índice de desmatamento, “coincidentemente”. Ou seja, o fogo é usado para queimar o que foi derrubado. Esse mesmo cenário é o se vê hoje, tanto no Pantanal quanto no Cerrado. As terras são queimadas para expandir a fronteira agrícola.  

Ainda conforme os dados, as terras indígenas aparecem com apenas 11% de queimadas, sendo que boa parte delas são comprovadamente provocadas por grileiros e jagunços. Repassando: não são, portanto os indígenas nem os caboclos assentados os que colocam fogo na vegetação.  

Um mínimo de conhecimento sobre a realidade indígena já seria suficiente para saber que as comunidades originárias, bem como as tradicionais – quilombolas e ribeirinhas  - têm uma relação com a natureza que não está vinculada ao lucro ou a produção capitalista. Essas comunidades utilizam o território como espaço de vida e fazem uso da terra de maneira sustentável. Suas técnicas de manejo remontam há séculos e o elemento chave é a proteção.  

O chamado bem-viver reivindicado pelos povos originários está firmemente ancorado na pachamama (a terra como expressão totalizadora da vida toda), na reciprocidade, no uso coletivo da terra, na propriedade comunal, na solidariedade. É fato que cada etnia tem sua concepção singular do que seria esse bem-viver, mas a organização unificada dos povos em nível continental atualmente aponta elementos que são comuns a todos. E o mais importante deles é o de que a terra não é algo que está fora da vida, ela é parte da existência de cada um. É, portanto, impensável machucá-la.  

Por isso é importante perceber que a acusação de Bolsonaro na ONU não é por acaso. Os ruralistas, aliados prioritários, têm como projeto, ainda nesse governo, eliminar as comunidades indígenas dos míseros 12% do território nacional que ainda estão protegidos sob seus cuidados. A sanha de expansão do capital é imparável e todas as terras precisam ser amealhadas. Daí que imputar aos indígenas esse crime de lesa-humanidade que vivemos hoje no país é uma grande cartada. Com base nessa ideia de que os indígenas são inúteis e ainda destroem as terras, essa gente pretende dar continuidade ao processo de reversão das demarcações já feitas, e impedir novas demarcações, extinguindo assim com essa prática, que é subversiva para o capital, de uso racional e comunitário da terra. 

Quando deputado, cargo que exerceu por 28 anos, sempre foi muito conhecido o preconceito e o completo desrespeito que Bolsonaro sistematicamente manifestou no trato do tema indígena. Por isso, ao ser eleito e empossado presidente, sua decisão de passar o tema das demarcações e homologações ao Ministério da Agricultura, dirigido por uma representante do agronegócio, é claramente um ataque concreto à luta originária e um aceno servil aos interesses de fazendeiros e mineradores que já possuem mais de 60% do território nacional, sonhando abocanhar as terras indígenas, cheias de vida e de riqueza.   

Ao contrário da proposta de exploração e esgotamento do ambiente implementada pelo latifúndio, os povos originários têm uma forma própria de viver e de se organizar nas terras, bem como uma forma própria de sustentabilidade. Eles não trabalham com a ideia de desenvolvimento capitalista e não pactuam com o modelo econômico que impacta negativamente seus territórios. De novo, basta entrar nas bases de dados de órgãos governamentais, como o INPE ou o IBGE e já se pode ver claramente que as terras indígenas são espaços vigorosos, com comprovação técnica e cientifica de proteção ambiental, sendo muito bem manejadas pelos povos indígenas, e tanto que por conta desse manejo e preservação garantem constantes chuvas com as quais até as plantações e agronegócios da região do sul e sudeste são beneficiadas. 

Portanto, apenas com esses poucos fatos já é possível perceber que os povos indígenas jamais seriam capazes de colocar fogo no seu território, terra-mãe. Essa é uma ação dos capitalistas, interessados em “limpar” os terrenos para introduzir pastagens, cultivos alienígenas ou para fazer mineração, terra-mercadoria.  

A máquina de mentiras instalada no palácio do governo em Brasília vai continuar inflamando seus aliados/alienados contra os povos indígenas. E já possível visualizar isso nos grupos de uatizapi que reproduzem essa mentira – de que os incêndios são obra indígena  - à exaustão. Mas, em matéria de resistência os indígenas tem mais de 500 anos de experiência e seguirão atuando no sentido de estabelecer a verdade.  

Cabe a cada um de nós ajudar nessa cruzada.