Língua Rapa Nui em risco de desaparecer


22.02.2018 - O povo Rapa Nui é um povo originário polinésio, que vive na Ilha de Páscoa, em meio ao Oceano Pacífico, um dos lugares mais isolados do mundo, que hoje pertence ao Chile. Está distantes cerca de quatro mil quilômetros tanto da América do Sul quanto do Tahiti. Atualmente conforma 60% da população da ilha.

Conforme os registros da história, baseada em datações de carbono, o povo Rapa Nui começou a ocupar a distante ilha entre os anos 300 e 1200 DC. Vieram das outras ilhas polinésias desbravando o oceano. Pareciam ser bons navegadores visto que há registros de contato com povos da América do Sul, com vestígios da presença de batata e do porongo, plantas não existentes originalmente na ilha.  O primeiro contato feito com os Rapa Nui se registrou em 1722, com a visita de um navegador europeu, Jacob Roggeveen, conhecido geógrafo e matemático holandês.  Depois, foi a vez do espanhol  Felipe Gonzales de Ahedo, em 1770 que a tomou em nome do império espanhol. Desde então o povo local perdeu a soberania, sempre colonizado.

A invasão mais organizada se deu em 1870, com a chegada de comerciantes que invadiram as terras e introduziram o gado ovino. Em 1888, o governo chileno anexou a ilha tornando-a uma espécie de grande fazenda de ovelhas, ainda que a administração de tudo ficasse a cargo de uma empresa estrangeira, escocesa. Os Rapa Nui nunca foram considerados e passaram a condição de verdadeiros escravos, porque trabalhavam, mas não recebiam salário, apenas víveres.

No ano de 1914 o povo local decidiu se revoltar contra a empresa escocesa, mas não conseguiu conquistar o direito de gerir sua própria terra. A chegada de um navio de guerra chileno, em auxílio à empresa, colocou por terra a rebelião.  Foi só na década de 90, do século XX, depois de muitas batalhas, em 1966, que os habitantes da ilha, os Rapa Nui foram reconhecidos como chilenos. Mas, vez em quando explodem novas rebeliões e protestos. A liberdade e a autonomia seguem sendo um sonho. Tão distantes do Chile os Rapa Nui não nhando com a liberdade.

E foi por conta da invasão espanhola e depois chilena que o espanhol passou a ser introduzido na comunidade e hoje, apesar da maioria das gentes ser Rapa Nui, poucos falam o idioma original. Entre os mais jovens, de idade entre oito e 12 anos, apenas 16% maneja a língua. A ilha tem pouco mais de quatro mil habitantes, a maioria vivendo na parte oeste, em Hanga Roa. São conhecidos pelas estatuas monumentais em pedra, os Moais, provavelmente esculpidas entre os anos de 12050 e 1500. Pouco se sabe o que representam, mas acredita-se que sejam aspectos da face dos ancestrais. Ao todo, na ilha, existem 887 monólitos que tem entre 1 a 10 metros de altura. São a principal atração turística e os responsáveis pela economia local. A terra é pouco fértil e Rapa Nui sobrevive basicamente do turismo.

O Povo Rapa Nui tem realizado muitas lutas exigindo do governo chileno mais autonomia para gerir sua existência. Mas, pouco tem sido o resultado. Agora, a Unesco vem advertindo para o risco de a população perder o domínio da própria língua, o que significa mais um golpe em direção à destruição da cultura local. É por isso que está desenvolvendo um projeto visando recuperar e fortalecer a língua originária.

Segundo os estudiosos, só assim será possível consolidar a riqueza da diversidade cultural em Rapa Nui (que é o nome original da Ilha de Páscoa). De qualquer forma, para além da intervenção de instituições internacionais como a Unesco, a organização do povo Rapa Nui em luta por soberania não esmorece. Sua principal demanda é justamente o território. Sem direito à terra e ao território original, toda a cultura se esboroa. Então, não basta realizar projetos de recuperação da língua, se as comunidades não podem viver sua cultura de forma totalizante. A língua de um povo está visceralmente ligada ás suas práticas culturais e estas, visceralmente ligadas ao território. Sem ele, a língua morre e projetos “humanitários” que não levam isso em conta tendem a fracassar.

Por isso é importante que o mundo leve em conta também a luta dos Rapa Nui pelo direito de mandarem na sua própria casa. É tempo do Chile devolver à ilha a quem ela pertence por direito.

Povo Anacé luta pela proteção da água no Ceará



20.02.2018 - Comunidades da etnia Anacé, no Ceará, sofrem a violência do estado e correm o risco de perderem não apenas suas terras, mas também o acesso à água. Tudo isso porque o governo decidiu retirar a água do Lagamar do Cauípe, que é um manancial protegido ambientalmente, para uso de empresas que ficam no complexo industrial: 900 mil litros por segundo, denunciam os indígenas.

A violência contra os povos indígenas não é de hoje. Ela começa com a conquista e desde então segue, sistemática. Dizimar, massacrar, extinguir, essa é a ordem. Por algum tempo, a ideia de aldear as comunidades foi bem aceita, desde que os indígenas se mantivessem lá, quietos, sem reivindicar direitos. Mas, se começam a exigir coisas, como o seu território ancestral, por exemplo, aí a coisa pega. Na queda de braço com os interesses do capital, o Estado nunca está ao lado dos povos originários. Pelo contrário, ainda que a Constituição determine a necessidade de consulta aos indígenas sobre qualquer ação nos seus espaços de vida, se o Estado determina que é de interesse nacional, o desejo dos indígenas nada vale. É assim que as terras originárias vêm sendo tomadas, sistematicamente, ao longo dos anos.

É por isso que em vários pontos do país a violência segue acontecendo, com o desalojo de comunidades inteiras em nome do “progresso”. Mas, na verdade, o progresso alardeado não é aquele que beneficia toda a nação. Ele no geral diz respeito a um grupo ou a uma empresa. É o caso do conflito existente hoje na região de Caucaia, Ceará, área metropolitana de Fortaleza, envolvendo o povo Anacé e a construção do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) que vem interferindo de maneira significativa na vida e tradição dessa etnia, bem como de toda a população daquela região.

Segundo relatos de lideranças locais, na região de Caucaia, desde o início do século XVI há registros documentados sobre a existência dos Anacé, comunidade indígena que ainda resiste até hoje no mesmo lugar que estava quando aqui chegaram os portugueses e as missões jesuíticas. Eles sobrevivem, com sua cultural, mesmo quando o estado do Ceará, desde um decreto de 1863, declarou que ali não existiam mais vestígios de povos originários, visto que, segundo o então governador, as comunidades teriam assumido a religião cristã e não falavam mais a sua língua original. Uma mentira! O povo Anacé nunca se rendeu ao catolicismo, vive até hoje em Caucaia, tem sua própria crença e sua própria língua. E, desde 2006 está integrada a grande Assembleia dos Povos Indígenas do Ceará.

Pois em 1995 o governo do estado iniciou os trabalhos para a instalação, na região, do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, que surgia como um elemento capaz de fundamentar e atender as demandas empresariais, visando beneficiar indústrias de base voltadas para as atividades de siderurgia, refino de petróleo, petroquímica e de geração de energia elétrica. O lugar escolhido para a construção do complexo estava ocupado por famílias Anacé. Desde essa época vem sendo travada uma intensa luta pelo território. Até agora, noventa famílias já foram expulsas de suas terras por conta da apropriação feita pelas obras do complexo, com o beneplácito do governo do Ceará. Mas, restam mais de 300 famílias espalhadas pela região de Caucaia e São Gonçalo do Amarante.

Com o início da operação do terminal portuário em 2002 e a instalação de empresas nacionais e estrangeiras no complexo industrial, os problemas se agudizaram. Conforme contam Paulo e Climério Anacé a região do Lagamar do Cauípe soma hoje 27 comunidades, sendo a maioria delas formada por descendentes do povo Anacé. A residência de muitas famílias está localizada nas margens da Lagoa e do Rio Cauípe, de onde tiram o sustento e onde podem vivenciar sua cultura original. O Lagamar é um manancial que fica numa Área de Proteção Ambiental e Proteção Permanente, espaço turístico do Ceará conhecido no mundo inteiro, tendo como característica um esplêndido espelho d'água. E o rio Cauípe tem sido esse cenário de disputa e luta dos Anacés troncos velhos e dos seus atuais descendentes. Para se ter uma ideia as comunidades que vivem na beira do Lagamar nunca puderam tirar água da lagoa, pois é considerado crime ambiental. Mas, agora, o governo realiza uma obra que vai sugar a água e transportá-la para as empresas que ficam no complexo industrial. Um contrassenso. Os argumentos do governo dão conta de que em época de cheia o lagamar sangra e por isso a água pode ser retirada. Mas, a questão é: se sangra e não importa tirar a água, por que para as comunidades é proibido? E o que acontece quando não sangra, em época de estio?

A área dos Anacé passou a ser tema de processos de demarcação desde 2010 quando a luta se fortaleceu e as demandas por território foram apresentadas. Mas, o governo do Ceará faz vistas grossas ao assunto e não mobiliza qualquer força para dar andamento e conclusão do processo. Tudo isso possivelmente porque a região contestada está justamente às margens do complexo, espaço de cobiça de muitas empresas.  "Nossa luta por direitos sempre foram duras e muitas vezes tivemos que lutar com os meios possíveis para não perder tudo. Seja os parentes do Bolso e do Mato que já perderam suas terras para o CIPP (Complexo Industrial e Portuário), seja os parentes da Japuara que lutam pela retomada da Lagoa do Barro. Agora, nós, do Cauípe, fomos para cima do governo do estado desde que ele quis utilizar a necessidade de água do povo como moeda de troca pelas águas do Cauípe, para uso das indústrias do CIPP", conta uma das lideranças, Paulo França Anacé, morador do Planalto Cauípe. Segundo ele, as mais de 20 mil pessoas que vivem próximas ao complexo acabarão prejudicadas com a obra de retirada das águas. Além disso, a região é de proteção permanente, não tem cabimento uma obra dessa natureza.

Obras de tubulação seguem a todo vapor - água será desviada para complexo industrial
Obras de tubulação seguem a todo vapor - água será desviada para complexo industrial
Agora, com as obras de perfuração e de colocação dos canos que levarão a água do lago até o complexo, muitas famílias estão tendo que sair do seu lugar de moradia, espaço que ocupam uma vida inteira. E, de acordo com a população, bem como os coletivos jurídicos independentes que atuam junto aos Anacé, todo o processo para retirada das comunidades é ilegal. Além disso, os poços que o governo alega ter instalado para o fornecimento e abastecimento de água para as comunidades de Cauípe são fraudulentos e mentirosos, uma vez que a maior parte da água do rio será mesmo destinada para as empresas do complexo. O governo diz que vai puxar 200 mil metros de água por segundo, que é a vazão de sangramento, mas as lideranças comunitárias denunciam que serão cerca de 900 mil litros d'água por segundo, sendo que as empresas ainda terão isenção de 50% pelo uso. Ou seja, o governo tira a água das gentes, ameaça uma região de ecossistema frágil e praticamente doa a água para as empresas.  Assim, o que vivem os Anacé do Ceará não é somente a luta pelo seu território, mas também uma espécie de guerra pela água.

E justamente por conta dessa batalha pelo direito à água as comunidades realizaram, no final do ano passado, atos e fechamentos da estrada CE 085, trancando o tráfego desde Caucaia até as empresas, impedindo o escoamento dos produtos das empresas que ficam no complexo industrial portuário. A reação do governo de Camilo Santana (PT) foi a mesma de sempre, de todos os governos que se aliam ao capital: repressão. Assim, a resposta foi rápida e violenta com o uso das tropas estaduais, bem como a sistemática ameaça e tortura psicológica. Várias famílias tiveram suas casas derrubadas, indígenas foram algemados e levados à delegacia de crimes penais comuns. Tudo por resistir a esse projeto que retira deles as águas do Cauípe e os deixa, indígenas e natureza, em situação de fragilidade.

Mesmo depois dos atos de fechamentos das vias e da violência policial, que expôs de maneira clara a toda gente o drama dos Anacé, o governo se recusa a realizar audiências públicas para discutir a situação. Aos Anacé resta a tentativa de publicização da luta através de veículos de comunicação não-comerciais, visto que a mídia local, como sempre, é aliada do governo e do empresariado.

Conforme narra Verônica Oliveira, militante da causa no Cauípe, também o judiciário cearense mantém seus olhos fechados ao drama das comunidades, pois, apesar de a comunidade conseguir, por um curto período de tempo, barrar a obra de escavação e colocação dos canos para a retirada da água, o Governo do Estado do Ceará derrubou a liminar e tudo continuou. Vale ressaltar que a liminar que embargou a obra pedia o posicionamento da Funai sobre o tema, já que a região tem a presença indígena, mas a Funai nunca se manifestou, abandonando os Anacé a própria sorte, informa Verônica.  Por conta disso, as obras continuam e as comunidades seguem sendo perturbadas dia e noite pelas forças do capital, ameaçadas com tropas militares e até com helicópteros. A pressão para que abandonem o território é diária. Segundo os Anacé, a FUNAI e outros órgãos federais que poderiam ajudar no diálogo com o governo cearense, têm-se mostrado completamente distantes, sem considerar o sofrimento do povo indígena.

Ainda assim o povo Anacé resiste. Para as famílias que ali vivem, o Lagamar do Cauípe não é uma paisagem que pode ser especulada. É um espaço que precisa ser protegido da sanha do capital. Ali, naquelas águas vivem seus deuses, passeiam os espíritos. Mas, para o governo e para as empresas isso não tem qualquer valor, e a água do Cauípe segue sangrando em direção ao complexo, embutida nos tubos pretos, anunciando a destruição de uma das regiões mais belas do Ceará. 


Chora o mundo indígena por Marcondes Nambla


11.01.2018 - Quando se vai uma vida, vai-se um mundo inteiro. Porque cada pessoa carrega em si o universo. É por isso que a morte, nossa única certeza, é tão dolorosa.  Mais do que perdermos alguém que amamos é um mundo inteiro que se desmancha. Agora imaginem quando esse mundo é destruído por uma mão violenta. Um assassinato: que corta a existência na brutalidade, no preconceito, na intolerância.

Foi assim que a vida de Marcondes Nambla se interrompeu. Um homem, um pedaço de madeira e a gana insana de exterminar o que é diferente. Um homem contaminado por uma pedagogia que o mundo não-índio vem fortalecendo desde que as caravelas aportaram no Porto Seguro. Aquele que é diferente, o que não fala minha língua, o que não caminha por onde ando, o que se veste estranho, o que tem pele escura, o “outro”, esse tem de ser eliminado.

Foi assim que os portugueses foram exterminando todos aqueles que não faziam parte do seu mundo. E depois, mais tarde, seguiram fazendo a mesma coisa os nascidos nessa terra e os imigrantes. Matavam os índios para sua “segurança”. Afinal, roubavam suas terras, e eles revidavam. E eles eram os “maus”. O tempo passou, as terras foram tomadas e os poucos povos que sobraram andam por aí a mendigar seu próprio território. E continuam sendo expulsos, roubados e assassinados.

“Ah, o cara é louco. Não matou porque era índio. Mataria qualquer um”, diz um leitor em mensagem fechada, tentando me fazer crer que foi uma fatalidade. Mas a questão é: Marcondes era um índio. E estava na rua àquela hora porque teve de sair de sua aldeia para trabalhar. Porque a vida de sua gente e de sua cultura não pode se fazer no espaço parco que lhe foi dado. Tivesse terra, tivesse condição de viver como um Xokleng, não precisaria migrar para o litoral buscando conseguir uns trocados.

O mesmo se pode dizer dos jovens negros que tombam todos os dias nas favelas, nas periferias. Não estão ali por maus. Estão porque há uma sociedade que lhes tirou tudo. Que trouxe seus antepassados à força, que os escravizou,  que lhes deu “liberdade” mas não garantiu terra, lhes jogou no limbo. Agora, seguem matando porque são “frutas podres” do sistema. Os matam por medo, porque sabem que eles estão lutando para garantir sua vida bonita, como todo ser humano quer.

Nessa semana os indígenas de Santa Catarina se juntaram em Penha para celebrar a vida de Marcondes, para cantar suas rezas, para incensar sua alma imortal. Guarani, Kaingang e Xokleng enfrentaram a chuva e foram fincar uma lança bem no lugar onde Marcondes caiu, atingido por Gilmar, possivelmente outro pária desse mundo erguido sobre a violência do capital.

Nada trará Marcondes de volta. Mas era preciso marcar o chão. Para que ninguém esqueça que ali foi assassinado mais um filho dessa terra. Morto por nada. Caído por ser quem é. Um índio, desgarrado de sua gente, na dura missão de sobreviver.

Mas, se para o homem que matou o Xokleng,  Marcondes era nada, para sua comunidade ele sempre foi exemplo. Um professor dedicado, um pesquisador disciplinado, um cuidador de sua gente. Por isso os anciãos fizeram o sacrifício de sair de suas casas, e as gentes de todas as aldeias vieram para o litoral cantar seus cantos e honrar a memória.

Nos anos 60 do século passado até mesmos os estudiosos mais engajados na luta indígena vaticinavam que esse mundo estava acabado. Premidos pela sociedade não-índia, racista e violenta, as populações diminuíam, e iam desaparecendo. A “integração” era o que lhes restava, ou seja, sumirem nas periferias das cidades, engrossando o exército de miseráveis e famintos. Mas, nada disso se cumpriu. Os povos originários resistiram e cresceram. De 168 mil que eram em 1968, passaram a quase um milhão nesse 2018.

Estão aí, estão vivos e seguem em luta. Retomam terras, insistem na preservação de sua cultura. Não estão cristalizados no tempo. Tiveram mais de 500 anos de contato. Suas vidas estão marcadas pela ação dos não-índios, mas muita coisa ainda permanece intocada. É uma batalha cotidiana pelo direito de ser. Marcondes era um desses lutadores, na luta pela preservação da língua Xogleng.

Aos não-índios se apresentam dois caminhos: ou seguem o massacre, aceitando como normal que alguém morra porque é índio e que os originários vivam sem terra por aí, perdidos de todos os seus direitos, ou começam a compreender o que foi que aconteceu nesse espaço, a invasão, o roubo, o genocídio, a destruição e passa a defender o direito daqueles que sobreviveram ao massacre de ter o seu território e a sua cultura.   

Os originários ocuparão pouco menos de 15% do território nacional caso suas terras sejam reconhecidas. Isso é praticamente nada no universo dos mais de oito milhões de quilômetros quadrados. Eles têm esse direito. Por isso a luta segue.

Marcondes não está mais. Mas, no seu caminho segue uma fileira de outros Xoklengs. E enquanto houver uma única alma Xokleng, ela resistirá. E assim se dará, com todos os demais povos originários que seguem lutando. Há vida, há luta.

Professor indígena é assassinado em Penha/SC


03.01.2018 - Penha é uma cidade no litoral de Santa Catarina, que tem apenas 21 mil habitantes. É um lugar tranquilo para umas boas férias e é por isso que no verão ganha novas cores, com a presença de turistas. Pois esse lugar bucólico acabou sendo túmulo para mais um jovem indígena desse estado que abriga hoje apenas três etnias: a Guarani, a La Klanô Xogleng e Kaingang.

Para lá tinha ido o professor Marcondes Nambla aproveitar o verão para um trabalho temporário, vendendo picolé na praia. Vivendo na aldeia e atuando como educador, foi buscar uma renda a mais, visto que esse é o destino de grande parte dos indígenas. Não têm terra para viver sua vida e vivenciar a cultura e precisar sair para o mundo, em busca da sobrevivência. É uma triste realidade para os indígenas, sempre divididos entre o que são e o que o mundo que dominou a vida originária quer que sejam: integrados.

Mas, um índio nunca será integrado. Assim como o negro, ele carrega uma marca. A marca da exclusão, a não aceitação de sua pele, sua cor, de seu modo de vida, de sua existência, como se esse mundão de terras que conforma nosso país não fosse deles também. Os índios, por originários e os negros por terem sido trazidos à força e terem garantido a riqueza da nação.

Assim que, nesse movimento por viver, a virada do ano em Penha acabou sendo o fim da linha para o professor Xokleng. Ele foi encontrado no centro da cidade, caído na rua, com visíveis sinais de espancamento. Sua cabeça foi fortemente atingida, o crânio afundado, e os parentes - da Comissão Nhamonguetá - dizem que havia sinais de que um carro tivesse passado por cima do seu corpo. Era um jovem simples, nada tinha para ser roubado. Pode ter sido um atropelamento, não se sabe se intencional ou não. Os bombeiros que fizeram a ocorrência disseram que pode ter sido espancamento. Foi levado para o hospital, mas não resistiu.

Marcondes até pouco tempo circulava pelo Campus da UFSC onde se formou no Curso de Licenciatura Indígena. Tinha uma vida inteira pela frente, na batalha pela educação do seu povo e pela preservação da língua Xokleng.

Não pisará mais na aldeia, nem ensinará os pequenos Xoklengs. Lutou pela vida no hospital, para onde foi levado. Mas, não venceu essa batalha. Morreu no final do segundo dia de 2018.

Ainda não se sabe quem matou Marcondes Nambla numa noite que seria para celebrar a vida. Nem o que aconteceu de fato. Na delegacia de Piçarras, que é responsável pela comarca, o policial Elisandro informou que esse é um tempo complicado para a polícia, pois o sistema todo está em recesso. Segundo ele, os investigadores da cidade de Penha certamente estarão acompanhando o caso, mas uma informação oficial sobre o assassinato só poderá ser dada depois do recesso, que encerra dia 8 de janeiro. Em Penha a delegacia está fechada, ainda que agentes estejam de plantão. Elisandro diz que a investigação está andando, mas ainda assim há que esperar.

Enquanto isso, a comunidade Xokleng chora seu filho. Um a mais que é arrancado da vida, esse dura vida de povo originário, perdido de direitos.

O eclipse


14.11.2017 - Um magnífico conto do escritor hondurenho, Augusto Monterroso Bonilla, nascido em Tegucigalpa, naturalizado guatemalteco, conhecido pelas suas coleções de relatos breves e hiperbreves. Militante popular participou da luta que derrubou o ditador Jorge Ubico em 1944. Nesse pequeno texto, Augusto reafirma o profundo conhecimento do povo maya sobre a natureza. Um riqueza!

El eclipse

Cuando fray Bartolomé Arrazola se sintió perdido aceptó que ya nada podría salvarlo. La selva poderosa de Guatemala lo había apresado, implacable y definitiva. Ante su ignorancia topográfica se sentó con tranquilidad a esperar la muerte. Quiso morir allí, sin ninguna esperanza, aislado, con el pensamiento fijo en la España distante, particularmente en el convento de los Abrojos, donde Carlos Quinto condescendiera una vez a bajar de su eminencia para decirle que confiaba en el celo religioso de su labor redentora.

Al despertar se encontró rodeado por un grupo de indígenas de rostro impasible que se disponían a sacrificarlo ante un altar, un altar que a Bartolomé le pareció como el lecho en que descansaría, al fin, de sus temores, de su destino, de sí mismo.

Tres años en el país le habían conferido un mediano dominio de las lenguas nativas. Intentó algo. Dijo algunas palabras que fueron comprendidas.

Entonces floreció en él una idea que tuvo por digna de su talento y de su cultura universal y de su arduo conocimiento de Aristóteles. Recordó que para ese día se esperaba un eclipse total de sol. Y dispuso, en lo más íntimo, valerse de aquel conocimiento para engañar a sus opresores y salvar la vida.

-Si me matáis -les dijo- puedo hacer que el sol se oscurezca en su altura.

Los indígenas lo miraron fijamente y Bartolomé sorprendió la incredulidad en sus ojos. Vio que se produjo un pequeño consejo, y esperó confiado, no sin cierto desdén.

Dos horas después el corazón de fray Bartolomé Arrazola chorreaba su sangre vehemente sobre la piedra de los sacrificios (brillante bajo la opaca luz de un sol eclipsado), mientras uno de los indígenas recitaba sin ninguna inflexión de voz, sin prisa, una por una, las infinitas fechas en que se producirían eclipses solares y lunares, que los astrónomos de la comunidad maya habían previsto y anotado en sus códices sin la valiosa ayuda de Aristóteles.