No Peru, Wampis declaram o primeiro governo autônomo indígena


Numa decisão inédita, o povo Wampis da Amazônia peruana se reúne e decide criar seu próprio governo, de maneira autônoma, ainda que não renuncie a cidadania peruana. Frequentemente desrespeitados pelo governo, que não cumpre o que determina a Constituição, essa deliberação obedece a uma longa luta dessas comunidades na defesa de seu território e cultura.

Segundo informações enviadas por líderes dos wampis, esta iniciativa “surge para defender o território ancestral de 1,3 milhões de hectares de bosques tropicais e para cumprir os compromissos climáticos assumidos pelo governo peruano”.

A decisão de confrontar o governo foi tomada num domingo quando se reuniram 300 representantes de 85 comunidades. “Ainda seremos cidadãos peruanos, mas essa unidade nos dará a força política que necessitamos para explicar nossa visão ao mundo e aos Estados e empresas que somente veem ouro e petróleo em nossos rios e bosques”.

Os wampis afirmam que seu novo estatuto de povo livre e autônomo se baseia nas obrigações do estado peruano que precisa respeitar os direitos e a autonomia dos povos e nações indígenas, entre elas a que requer que qualquer atividade que possa afetar seus territórios conte com o consentimento prévio, livre e informado de toda a nação. “Apesar do compromisso do governo para reduzir o desmatamento e garantir a segurança jurídica dos territórios indígenas, o Estado segue entregando os territórios a empresas petroleiras, florestais e de produção de azeite sem qualquer consulta”.

As lideranças afirmam que enquanto o governo do Peru e outros governantes estão em Paris (na conferência COP21) falando sobre como vão proteger os bosques tropicais e reduzir a contaminação, os wampis estão realizando ações concretas no seu território para contribuir com a meta global. Eles reconhecem e reafirmam que seu território é integral e estabelecem os mecanismos para seu uso e administração.  “O território não pode ser dividido por comunidades, nem a água, o bosque, o subsolo. É tudo uma coisa só. Ter um governo autônomo nos servirá como ferramenta de defesa para nosso território que ainda não está titulado”.

Os wampis indicam também que esse governo próprio servirá para que sejam enfrentadas as diversas ameaças que os rodeiam, como a invasão das comunidades por colonos bem como a demarcação de um lote petroleiro e uma grande represa na região de Manseriche.

Os wampis asseguram que a declaração formal de seu governo é resultado de um longo processo, de vários anos, os quais estiveram acompanhados de estudos antropológicos, jurídicos e biológicos. “Estamos muito felizes por termos alcançado nosso sonho, reunimos todas as nossas comunidades dos rios Kankaim e Kanus para unir e defender nosso território, agora seremos uma unidade."

Uma rádio para expressar a voz wampis

Entre as primeiras ações do governo autônomo foi acordado concretizar um dos sonhos da nação Wampis: instalar em seu território a primeira rádio indígena da Amazônia no país, visando assim difundir sua cultura, suas demandas e suas propostas. Para alcançar este sonho, várias ações foram realizadas durante meses. No início de junho, uma primeira viagem foi feita para instalar a base da antena para a estação de rádio na comunidade nativa de Soledad.

Com o apoio da própria comunidade e de suas autoridades, foi possível transportar o material de construção e tudo foi se concretizando. Depois, graças a uma parceria solidária, uma antena, o transmissor e outros equipamentos e implementos foram adquiridos para equipar a cabine de transmissão. Agora, para poder concluir com este projeto, é necessário fazer uma segunda viagem para trazer novos materiais e implementar um sistema alternativo de energia baseado em painéis solares para fornecer energia segura à estação de rádio.

Por esta razão, a nação Wampis organizou e criou uma conta bancária para receber contribuições de solidariedade, e assim poder realizar este desejo de exercer o seu direito de se comunicar.
Quem quiser ajudar o povo Wampis pode fazer doações nessa conta: Dólar Conta Interbank: Código 0463089043411 interbancário: 003-046- 013089043411-06

Quem são os Wampis

Os Wampis também são conhecidos com o nome "huambisa". Eles preferem ser chamados de wampis ou shuar. Contam que o nome wampis vem de uma espécie de peixe que, de acordo com o relato do povo, tem a qualidade de escapar facilmente de seus predadores. Sua história está intimamente ligada com o povo awajún, com quem compartilham uma tradição histórica e cultural. Além disso, seus idiomas pertencem à mesma família linguística (Jíbaro).

Como os awajún, os wampis são conhecidos por sua habilidade como guerreiros e pela forte resistência que têm frente às distintas populações que invadem seu território. Esses dois povos resistiram pacificamente contra as leis ditadas por Alan García para arrebatar seus territórios, e foram atacados militarmente pelo céu e pela terra no dia cinco de junho de 2009. A justiça do sistema processou as vítimas e não os atacantes dirigidos por Alan García, Yehude Simon e Mercedes Cabanillas.

O povo wampis vive principalmente na zona norte dos departamentos de Amazonas e Loreto, perto da fronteira com o Equador. A população das comunidades wampis está estimada em 10.177 pessoas.
A resistência dos wampis não é de hoje, historicamente sua força e luta influenciaram o fracasso das missões em 1704, quando os jesuítas foram expulsos do território pelas famílias Jíbaro. Anos depois, em 1769, os padres foram expulsos de todo o território da Amazônia peruana.

Em 1977, os wampis criaram,  junto com os awajún, o Conselho Aguaruna e Huambisa (CAH). Esta foi a primeira organização indígena amazônica com caráter regional e interétnico, o que significou muito para o fortalecimento institucional e identitário destes povos. A força desta e de outras organizações regionais possibilitou aos awajún e aos wampis aceder e controlar politicamente algumas alcadías (prefeituras) em Condorcanqui (MINCU 2015).

Fuente: Wampis “huambisa” Lucha Indígena N° 122 . Lima, Perú.

É de Roraima a primeira mulher indígena no Congresso Nacional



Até ontem, sete de outubro de 2018, o lendário Mário Juruna, nascido na aldeia Xavante Namakura, no estado do Mato Grosso, constava como o primeiro e único indígena brasileiro a ter um mandato federal.

Ele foi eleito em 1982, pelo PDT, partido que tinha como principal liderança Leonel Brizola. Juruna ficou famoso nos anos 70 quando percorria os gabinetes da Fundação Nacional do Índio, em Brasília, lutando pela demarcação de terra para seus parentes. Ele andava sempre com um gravador pendurado, porque necessitava gravar tudo os “os brancos” diziam, porque, como afirmava, era muito comum não cumprirem a palavra. Sua figura ganhou força nacional e em 1982 saiu candidato pelo estado do Rio de Janeiro, conquistando 31 mil votos. É dele o projeto que criou a Comissão Permanente do Índio no Congresso Nacional, fato que acabou levando as questões indígenas a terem um reconhecimento formal.

Mas, desde ontem outro nome indígena figurará nos registros do Congresso Nacional. Desta vez, uma mulher, da etnia Wapichana: a advogada Joênia Wapichana, eleita pelo estado de Roraima como deputada federal, na sigla REDE. Ela recebeu perto de nove mil votos. Joênia tem 43 anos e também foi a primeira indígena do Brasil a exercer a profissão de advogada. Formou-se em Direito na Universidade Federal de Roraima, em 1997, e na University of Arizona, nos Estados Unidos.

Joênia saiu de sua aldeia quando tinha oito anos, indo viver com a mãe em Boa Vista. Lá fez o ensino médio e trabalhou num escritório de contabilidade enquanto cursava a faculdade de Direito. Teve participação ativa na demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol e na defesa dos direitos indígenas da região norte do país. Sua ação lhe rendeu prêmios e condecorações.

Agora, na Câmara Federal, enfrentando uma das formações mais conservadoras e reacionárias dos últimos tempos, terá uma tarefa gigantesca. Ser a representante de mais de um milhão de pessoas, de variadas etnias, que conformam os povos originários do Brasil.

A luta dos povos indígenas no Brasil tem sofrido fortes revezes com a violência estrutural sendo cada dia mais reforçada, além da tentativa de reverter demarcações já realizadas e impedir novas demarcações. As bancadas da bala e do boi têm sido poderosas no lobby contra os indígenas e insistem em trazer para dentro do Congresso a decisão sobre o tema. Joânia terá sob seus ombros a tarefa de, institucionalmente, comandar a luta contra o retrocesso no que diz respeito às questões indígenas. Enfrentará não apenas a força do latifúndio, mas também a voracidade do capital, ainda mais fortalecido pela constituição de uma maioria significativa no Congresso Nacional. 


O norte também é Abya Yala

Batalha de Little Bighorn, onde morreu Custer

O grande chefe Sioux Touro Sentado

Quando Colombo chegou às Antilhas, viviam mais de 25 milhões de pessoas na parte norte de Abya Yala, onde hoje são os Estados Unidos e Canadá, e, ainda que na parte baixa das terras os espanhóis dizimassem milhões, os povos do norte continuaram vivendo em paz por quase cem anos além. Havia centenas de etnias, centenas de línguas e as gentes cultivavam o milho, verduras e frutas. Conheciam e produziam o chocolate e o tabaco. Na região onde hoje é a Pensilvânia vivia a mais poderosa etnia do noroeste: a dos Iroqueses. Eles tinham por costume trabalhar coletivamente a terra, caçar em equipe e dividir as presas entre as famílias. As mulheres cuidavam dos cultivos assim como das questões do povoado. As crianças recebiam uma educação na qual eram ensinados os valores iroqueses e a solidariedade para com os membros do grupo. Também ensinavam a ser independentes e a não submeterem-se aos abusos de qualquer autoridade. Era um povo livre. Assim descreve a cultura iroquesa o escritor Gary Nash, no livro de Howard Zinn,  “A outra história dos Estados Unidos”:

“Antes da chegada dos europeus não havia leis, nem polícia, nem juízes, nem julgados, nem prisioneiros. Nada da parafernália autoritária das sociedades europeias. Mas, mesmo assim, estavam firmemente estabelecidos os limites do comportamento aceitável. Apesar de se orgulharem do indivíduo autônomo, os iroqueses mantinham um sentido estrito de bem e mal... Se desonrava e tratava com ostracismo ao que roubava alimentos alheios ou se comportava de forma covarde na guerra, até que houvesse expiado suas más ações e demonstrado sua purificação moral aos demais”.

Conforme conta Howard Zinn, os iroqueses tinham linguagem escrita, suas próprias leis, sua história guardada na memória e transmitida de geração a geração. Tinham um vocabulário oral muito mais complexo do que o dos povos europeus, acompanhado de cantos, bailes e cerimônias dramáticas. Cuidavam do desenvolvimento da personalidade de seus filhos, incentivavam a independência, a paixão, a potência e exigiam uma relação de respeito com a natureza. Uma forma de viver que contrastava tremendamente com a dos povos invasores, cheios de cobiça, individualismo e violência. Eles tinham vagas notícias das hordas que andavam pela parte baixa de Abya Yala, e só cem anos mais tarde se encontrariam cara-a-cara com essa gente.

Quando em 1607 chegaram os primeiros ingleses na região onde hoje estão Estados Unidos, aquele era um espaço de muitas nacionalidades. Jamestown, a primeira colônia de migrantes ingleses, foi fincada bem no território de uma confederação indígena liderada por um líder chamado Powhatan. Os índios observaram as levas de gente branca chegando, mas mantiveram-se em estado de espera. Em alguns momentos chegaram até a acolher os famintos, como em 1610, quando uma onda de fome assolou a colônia. Mas, em vez de agradecimentos, os ingleses reagiram com violência, iniciando um ataque a um povoado indígena alegando que era para recuperar aqueles que haviam se abrigado entre os originários para escapar da fome. Mataram as gentes, sequestraram a rainha e seus filhos, queimaram o trigo e as casas e, mais tarde, ainda jogaram os filhos da rainha no rio, matando-a a navalhadas. Uma atitude de violência desmedida.

Por conta disso, e vendo crescer as colônias inglesas, prenunciando novas atrocidades, os indígenas decidiram enfrentar a invasão. Foi quando também atacaram um povoado branco, matando mais de 300 pessoas. Desde aí, as batalhas se seguiram e a destruição nunca mais parou. Howard Zinn recuperou um documento que havia sido escrito pelo chefe Powhatan, um pouco antes do começo desta luta sem fim:

“Já vi morrer duas gerações da minha gente. Conheço a diferença entre a paz e a guerra. Por que tomam vocês, pela força, o que poderiam ter por via pacífica? Por que querem destruir aqueles que lhes abastecem com alimentos? Que podem ganhar com a guerra? Por que nos têm inveja? Estamos desarmados e dispostos a dar-lhes o que pedem se vêm em tom de amizade. Não somos tão inocentes para ignorar que é muito melhor comer boa carne, dormir tranquilamente, viver em paz com nossas esposas e nossos filhos, rirmos e sermos amáveis com os ingleses e comerciar para obter seu cobre e sua lenha, que fugir deles e viver mal nos bosques frios, comer raízes e outras porcarias, e não poder comer nem dormir por conta da perseguição que sofremos.”

Mas, nem esta bela demonstração de inteligência política foi capaz de deter a cobiça e a destruição. E, tal qual os primeiros colonos da Virgínia, os demais que foram chegando não encontraram terras vazias. Todas elas eram habitadas por comunidades originárias que ali viviam, mas que estavam dispostas a dividir, viver em paz. Já os ingleses não queriam dividir nada. Queriam as terras e iniciavam a guerra, usando as velhas e eficazes técnicas de Cortéz: ataques deliberados a povos pacíficos, não combatentes, que aterrorizavam os inimigos e ainda dividiam as comunidades. Tanto que 70 anos depois da construção da primeira cidade, em 1676, conta-se de uma famosa rebelião liderada por Nathaniel Bacon, que tinha por objetivo ampliar os limites de Jamestown, tomando mais terras dos índios. Ele chegou a criar um batalhão, fora da oficialidade, e por isso foi considerado “rebelde”.

Com o passar do tempo, as colônias criadas na Costa Leste foram se consolidando e ocupando os espaços. Muitos extermínios se deram e os indígenas já sabiam que ali estava o início de um novo tempo, com a horda de ladrões de terra avançando cada vez mais sobre seus territórios. E, mais tarde, pouco antes da independência, as colônias se debatiam entre o que acreditavam ser três grandes perigos: os índios, os escravos e os brancos pobres. Passados mais de 100 anos da chegada dos primeiros colonos, a lógica capitalista de divisão de classe, a escravidão, a concentração de riqueza nas mãos de alguns e a violência generalizada dos ricos criavam um barril de pólvora para a elite dominante. Havia muito medo de que negros e índios pudessem se unir e derrotar os brancos. Na década de 1750 a 1760 havia na zona mais populosa da colônia perto de 40 mil escravos e 60 mil índios, das etnias Creek, Cherokee, Choctaw e Chickasaw. Não foi à toa que chegaram a ser aprovadas leis impedindo os escravos de circularem pelos territórios ocupados por comunidades indígenas. Politicamente, a elite ainda buscava criar animosidades entre as duas etnias, para evitar a perigosa junção. Também atiçavam os preconceitos junto aos brancos pobres, outra classe bastante temida. O racismo nascia, assim, para resolver um problema prático: impedir que os oprimidos – em maior número - pensassem em revoluções.

E foi para fugir deste “perigo” que as elites coloniais decidiram inventar uma forma segura de unir todo o povo branco, incluindo pobres, ricos e classe média: iniciar uma revolução contra a Inglaterra para garantir a independência da colônia. Com essa luta, eles poderiam tomar conta de todas as terras, sem mais conceder qualquer riqueza à Inglaterra, e, de quebra, ainda desativavam possíveis rebeliões criando um grande consenso nacional. Foi, no entender de Howard Zinn, uma operação genial dos chamados “Pais da Pátria”, que estabeleceram a marca da cultura política estadunidense, baseada no paternalismo e no autoritarismo.

Neste processo de luta pela independência, os povos originários não foram incluídos. E, eles sabiam muito bem que, caso houvesse a ruptura com a Inglaterra, haveria muito mais desgraça para eles. É que durante o período colonial a Inglaterra fez um acordo com os indígenas, tornando zona proibida as terras para além dos Montes Apalaches. Não foi sem razão que muitas etnias lutaram contra os confederados durante a guerra de independência. Eles tinham consciência que, vencidos os ingleses, a última fronteira que os separava do saque do povo branco estaria devassada.  Não estavam errados.

A corrida para o Oeste

No Brasil sempre foi bastante comum se ver nos cinemas os filmes de faroeste (corruptela de Far West – que em inglês quer dizer “para o oeste”). Eram os chamados filmes “de mocinho”. E, é claro, os mocinhos sempre foram representados pelos pistoleiros americanos que protegiam suas famílias e propriedades dos ataques dos “selvagens” (os índios). Esta foi a imagem que o cinema estadunidense enviou para o mundo, a qual fez a cabeça de milhões de pessoas. Nos filmes, os pioneiros que avançavam pelo território inóspito e selvagem eram sempre os heróis. Mas, o fato é que estes territórios invadidos pelos brancos já eram milenarmente ocupados por nações indígenas, portanto, nada havia de heroico nesta corrida para o Oeste. Era, na verdade, uma ação de rapina. Os colonos seguiam com suas carroças em busca do ouro.  No caso da América do Norte essa invasão se consolidou depois da Guerra de Independência. Vencidos os ingleses estavam nulos os acordos feitos com as nações indígenas da parte oeste do país. A saga colonizadora se espraiaria pelo país adentro.

Em 1849 inicia-se um grande rebuliço na fronteira quando começam a espalhar que havia ouro na Califórnia, território violentamente recém-conquistado do México. É aí que o governo começa a incentivar a marcha para o Pacífico. Até então os brancos já tinham ocupado a metade leste do país, até Iowa, Missouri, Arkansas. Agora avançavam pelo país, levando bugigangas e cobertores, acreditando que com isso poderiam contar com a “boa vontade” dos índios e fazer com que eles saíssem do caminho. Para os colonizadores, os indígenas não passavam de selvagens e ninguém estava preocupado em respeitar a cultura ou o modo de vida das comunidades. Muito menos a terra.

Mas, além da busca do ouro ainda havia outros motivos para esta marcha ao Oeste. Os grandes proprietários de terra, que já enchiam as burras no sul, também queriam expandir seus negócios e sonhavam com grandes plantações tocadas pelos negros escravos. Assim, a região, até então espaço dos indígenas passou a ser também palco de disputa das próprias famílias brancas. Cada uma, a seu modo, buscando riquezas, riscava o país com os imensos carroções puxados por parelhas de cavalos, e abria caminho pelas terras antes desconhecidas no rumo da costa oeste. Nesta jornada, que para as famílias se configurava numa epopeia, quem acabou pagando caro foram as nacionalidades autóctones. Algumas delas, bastante amistosas, como a dos kickapoos, acabaram ajudando esse processo, ensinando a língua e os costumes daqueles que logo seriam os inimigos a serem enfrentados. Vem daí essa propaganda ideológica de retratar os índios sempre como os selvagens, os que impediam o progresso da raça branca e do grande país dos Estados Unidos. Não é sem razão que os homens que se perpetuaram na história daqueles dias tenham sido os “matadores de índios”, como é o caso de Búfalo Bill, tido como um herói nacional. Até hoje são cantadas em versos e prosas as aventuras deste homem que iniciou sua vida de “herói” aos 11 anos, quando matou seu primeiro índio.

Nesse caminho para o Oeste os colonizadores iam fincando fortes e exterminando as gentes. Assim foi com os Sioux, os Cheyennes, Kiowas, Comanches e os Arapahos. Naquele mundo de “guerra à morte” em busca do ouro, também abundavam os caçadores de animais selvagens, que matavam aos milhares, desequilibrando ainda mais o mundo originário. Um exemplo disso foi o da caça ao Búfalo, animal sagrado para os indígenas daquela parte dos Estados Unidos. Contam os historiadores que quando a caminhada dos brancos em direção ao Oeste começou, ainda havia certa convivência pacífica com os índios, mas, passados cinco anos, o nível de violência foi tão alto que mesmo as etnias mais impassíveis passaram a resistir. A caça sanguinária ao búfalo foi um grave detonador. Os documentos oficiais não deixam dúvidas de que foram os brancos a causa de toda a violência do oeste. Assim diz um relatório formulado por uma comissão presidencial em 1869:

“Toda a história da relação do homem com os índios na fronteira é um relato revoltante de assassínios, atrocidades, roubos e iniquidades praticadas quase sempre pelo primeiro, e de explosões selvagens ocasionais e barbaridades excepcionalmente cometidas pelos últimos, em represália”.

Com a vitória da colonização do oeste, a partir de 1867,  outra praga chegou para piorar a situação dos indígenas: a estrada de ferro. As tribos mais antigas, dos Kiowa, Cheyennes, Arapahos e Comanche aceitaram subscrever o Tratado de Medicide Lodge, o qual dava a eles o território que é hoje o Estado de Oklahoma, e prometia não incentivar aldeamentos de gente branca entre os rios Arkansas e Platte. Os chefes mais antigos decidiram acatar o acordo, mas os mais jovens desconfiavam que os bancos não o fossem respeitar. Isso causou divisão entre os índios. Já os bravos Sioux, liderados por Nuvem Vermelha, se recusaram a assinar o tratado e seguiam resistindo à invasão. Por conta destas resistências o governo central enviava mais tropas para a região, recrudescendo a violência. Era um tempo de muita dor para as comunidades indígenas. E foi por aqueles dias que se destacou também o sanguinário general da Sétima Cavalaria, George  Custer.

Também foi com a chegada da estrada de ferro e a formação das pequenas vilas que os búfalos começaram a sumir, seja pelo extermínio, seja porque fugiam do burburinho humano. Os brancos, que não tinham a mesma devoção pelos búfalos como os indígenas, caçavam sem parar. Para se ter uma ideia, em apenas uma década, pouco depois da guerra civil, foram dizimados milhões de búfalos, acabando assim com a base ecológica e material da vida indígena. Para os povos originários da região, o búfalo era sagrado. Dele vinha a carne, a pele, os arreios dos cavalos, a casa, as roupas, a cama. Havia o tempo de caçar e tudo era feito segundo um ritual sagrado. Mas, essa cultura não era respeitada, os brancos acabavam com o búfalo e forçavam as comunidades a sair do caminho. E os índios partiam para outras terras. Só que ao chegar, não havia o búfalo, então eles tinham de ir, cada dia mais, se rendendo à lógica das reservas organizadas pelo governo.

Os caçadores de búfalo eram tão importantes para a política de “limpeza” do capitalismo imperante que até foi instituída uma medalha para oferecer aos que mais matassem esse animal. Num dos lados da medalha havia um búfalo abatido, e no reverso, a figura de um índio desconsolado. Estes animais eram criaturas absolutamente dóceis e um homem com um revólver podia matá-los sem problemas. Corriam pouco e não ofereciam resistência. O filme “Dança com Lobos” é um belo retrato do que significava o búfalo para os índios e sua total docilidade, apesar do aspecto.

Os homens brancos não queriam saber dos índios por perto dos caminhos da estrada de ferro, por isso delimitaram reservas de onde eles não podiam sair. Assim diz um informe do General Sheridan, um dos chefes da campanha de extermínio índio: “Escolhemos e proporcionamos reservas para todos [os índios] fora das grandes vias de penetração. Os que permanecem nas suas antigas regiões de caça são inimigos e devem ser tratados como tais. O país é tão grande que não podemos fazer uma guerra só e vencê-la. Em vista disso, somos obrigados a arriscar-nos e a eliminar os índios à medida que os encontramos”. Ainda assim, naquele ano de 1867 havia mais de seis mil índios resistindo nos caminhos abertos pelos brancos.

No inverno de 1868 eram inúmeras as ações sangrentas do exército ianque (Sétima Cavalaria) contra os índios, principalmente contra os Cheyennes, que tinham como chefe o famoso cacique “Chaleira Preta”. No mês de novembro, o general Custer, aproveitando-se de uma momentânea fraqueza dos cheyennes, que enfrentavam doenças, caiu sobre o acampamento de “Chaleira Preta”, matou os 103 guerreiros que ali estavam, o cacique, e um número incontável de mulheres e crianças. Por conta disso foi aclamado como herói e até hoje é imortalizado como tal nos filmes de “mocinho”.

Oito anos depois o general Custer iria provar do veneno da derrota. Foi no dia 25 de julho de 1876, durante a batalha de Little Big Horn, no estado de Montana. Naquele dia, uma coalizão entre Cheyennes e Sioux, liderada pelos famosos chefes Touro Sentado e Cavalo Louco deram batalha à Sétima Cavalaria, do general Custer. As tropas tinham sido enviadas para Montana porque um relatório escrito por E.C. Watkins informava sobre as hostilidades dos índios. Mas, na verdade, o que estava em jogo ali eram os interesses mineiros. Hordas de mineradores estavam de olho nas montanhas Black Hill, território tradicional dos indígenas. Por aí já se nota o quanto essa técnica de elaborar relatórios falsos é antiga no país.  Foi o mais famoso dos confrontos entre brancos e índios. Custer estava bem acostumado a dizimar acampamentos indígenas e procedeu como sempre. Dividiu o exército em quatro flancos e atacou.  Dessa vez sua tática de colocar alguns grupos para correr não deu certo. Os indígenas estavam preparados para combater. Assim, depois de horas de combate, na histórica Batalha de Little Bighorn, a sétima cavalaria foi aniquilada, sendo a maior derrota do exército estadunidense durante as chamadas “guerras índias”. Da tropa de Custer sobraram apenas dois homens. Era o fim do general que se julgava invencível.

Mas, apesar dessa vitória avassaladora e emblemática, a sina dos povos originários era mesmo a da destruição. Com o avançar das cidades e o fortalecimento do capitalismo, o que restou aos indígenas foram as reservas. Perdida a batalha pelo território original, as nacionalidades que conseguiram sobreviver aceitaram os espaços confinados. Muitos se misturaram ao mundo branco. Mas, como no Brasil, a integração nunca foi real. Um índio sempre é um índio, no mais das vezes tratado como marginal, ser de segunda classe. O fato é que no norte, tal como no sul, as nacionalidades originárias estão despertas, lutando por sua cultura, seus direitos e pela retomada de territórios. Tudo vibra na Terra do Tio Sam. E os tambores chamam para novas batalhas.

Darcy Ribeiro e os povos indígenas: acertos e equívocos


Darcy Ribeiro sempre foi um apaixonado pela causa indígena. E mais, era também apaixonado por Marechal Rondon, aquele que no início do século XX decidiu dedicar sua vida para contatar os indígenas e trazê-los para a o mundo “civilizado” sem, contudo, disparar um tiro. Rondon fugia do perfil dos que, antes dele, trataram de “conquistar” os povos originários pela força das armas, provocando a morte e a destruição de comunidades inteiras. Ele era explícito: “morrer talvez, matar, nunca”. Compartilhava de uma fé positivista de que era possível a vida harmoniosa entre os brancos e os indígenas, desde que esses últimos aceitassem as regras da chamada civilização. E, apesar de sua postura paternalista e conservadora, Rondon conseguiu adentrar no Brasil profundo, fazendo contato com os indígenas, estancando o processo de assassinato e dizimação das gentes originárias.

No início do século XX os povos originários da região da Amazônia, por exemplo, estavam praticamente nas mesmas condições que no momento do descobrimento e o avanço dos brancos era feito com muita violência, visando a exploração dos seringais. Naqueles dias eles sequestravam as mulheres e crianças, obrigando os homens a trabalhar na extração da borracha. Não havia preocupação com a posse da terra, apenas com os seringais. As hordas dos brancos se moviam pela floresta destruindo as comunidades, eliminando o modo de vida indígena, prostituindo mulheres e dispersado os homens pelos vários campos de colheita. O processo de dizimação e violência estava acabando com os indígenas quando finalmente o ciclo da borracha colapsou. Segundo Darcy, foi a salvação dos indígenas da região.

Já na região do sertão o foco era mesmo a posse da terra. A intenção dos invasores era a expulsão dos indígenas para que pudesse vingar a criação de gado. Poucas comunidades lograram sobreviver aos massacres e tentativas de “abrasileiramento”. Resistiam alguns núcleos de Potiguara, Kuruxi, Fulniô, mas já bastante mestiçados e sem terra. Aonde chegavam os brasileiros, os indígenas eram escorraçados. Os Timbiras, no Maranhão resistiram por anos, em longas guerras, mas acabaram se entregando no início do século XX para não perecerem totalmente. Em todos esses lugares, aonde os indígenas iam depondo as armas, o processo de aldeamento se dava a partir do engano, da violência e da destruição. Aonde havia missionários, as crianças eram tiradas das famílias e criadas como se fossem brancas, para deixar de serem índias e se integrarem à sociedade.

Depois de dominar todo o espaço da floresta atlântica a colonização foi entrando para o interior, expandindo o cultivo do algodão e do café. A tática era igualmente cruel: envenenavam a água e deixavam coisas contaminadas com varíola. Milhares de indígenas morreram nessas investidas desumanas. E quando chegaram os imigrantes, começou a caçada aos chamados “bugres”, que era como eles nominavam aqueles que eram os verdadeiros donos das terras. Assassinar índios era quase um esporte.

Pois foi nesse cenário de horror que surgiu a figura do Marechal Rondon que, com sua coluna, adentrava nos territórios para garantir a construção das linhas do telégrafo. Ele via como os brancos escravizavam e brutalizavam os indígenas e não se conformava. Era um adepto do positivismo e acreditava piamente no progresso. Isso deu a ele a razão para criar uma comissão capaz de entrar na floresta, fazer contato e trazer os indígenas para o mundo branco. Confiava que todos poderiam viver juntos e em paz. Foi assim que ele passou oito anos contatando índios. Sua proposta era garantir espaços de terra demarcada e abrir escolas para que as crianças indígenas pudessem ser alfabetizadas. Foi o trabalho dele, sempre feito na paz, sem que qualquer índio fosse ferido ou machucado, que deu origem ao Serviço de Proteção ao Índio, órgão do governo criado em 1910.

Naqueles dias concorriam duas correntes de pensamento sobre o trato com os indígenas: a catequese e a proteção. O campo da catequese era dominado pela igreja. Os padres recebiam verbas para trabalhar com os índios, mas, segundo Darcy, não ajudavam em nada. As missões queriam mesmo era mudar os costumes, levando-os a assumir uma fé que lhes era incognoscível. E, se não assumissem, também era trucidados.

A nova política, de proteção, coube aos positivistas da turma de Rondon que acreditavam que com os meios certos proporcionados os indígenas evoluiriam e se integrariam a nação. O exército então cumpria a função de, pacificamente, atrair os povos originários e ao mesmo tempo ir abrindo as fronteiras para a entrada da “civilização”. O SPI buscava juntar o índio com o branco, mas garantindo a eles o direito de viverem a sua cultura, diferenciando-se assim dos padres que impunham sua fé a ferro e fogo, como já fora no começo da invasão.

Assim, com a chegada de Rondon e sua forma pacífica de trazer os indígenas para os aldeamentos, as terras foram sendo “limpas” e as fronteiras agrícolas foram se expandindo. O que num primeiro momento parecia ser uma coisa boa, acabou mostrando-se igualmente nocivo, pois, ainda que aldeados sem violência, as comunidades, subtraídas de seu território e de sua forma original de viver iam perdendo a alegria e definhavam, pela fome, doença e desengano. (RIBEIRO, 1970, p.187).

Quando Darcy Ribeiro encontra Rondon ele já está no fim da vida, inclusive repensando sua política desbravadora e pacificadora. Nos anos 50 e 60, quando praticamente todos os indígenas já tinham sido contatados e aldeados, o que se via era a continuidade da morte e da desintegração. A chamada “civilização” nunca conseguiu, ou não quis, integrar, de fato, os indígenas. Confinados nas reservas, eles seguiam morrendo por doenças ou pela fome, e os que conseguiam ingressar no mundo dos não-índios jamais lograram ser vistos como brasileiros. Índios. Sempre índios, com toda a carga de preconceito e discriminação que a palavra carrega.

É nesse período que Darcy Ribeiro escreve sua obra mais importante sobre o tema indígena: “Os índios e a Civilização”, que veio a lume no ano de 1970, fruto de uma profunda pesquisa nos arquivos do então Serviço de Proteção ao Índio, criado por Rondon. Nele, Darcy defende algumas teses que destoam de tudo o que já se havia dito até então. A primeira delas, e a mais importante, é a de que diante de todo o processo de tentativa de integração do indígena ao mundo branco jamais houve aculturação ou assimilação. O que houve foi a transfiguração étnica.

Darcy aponta que naquele então havia duas atitudes consagradas no trato com os indígenas: a romântica, que pretendia deixar o índio intocado, e a integradora, que acreditava ser possível ainda assimilar o índio na sociedade brasileira. Para ele, ficava evidente que nem uma nem outra forma era possível na conjuntura da segunda metade do século 20. Reconhece que o território é o elemento mais importante para a sobrevivência do indígena e também pontua que em 50 anos de ação do SPI, os seus integrantes jamais chegaram a compreender os elementos culturais que permeiam a vida dos povos originários. Essas duas conclusões de Darcy são as que abrem o caminho para o trabalho que empreendemos que é justamente dar a conhecer à sociedade brasileira o significado profundo do território e sua relação com a cosmovisão originária. Sem essa compreensão é impossível um trabalho realmente sério junto aos indígenas, porque sempre partirá de uma postura colonialista, tida como superior.

O que Darcy Ribeiro vai trazer de novidade no seu trabalho é justamente a descrição sobre como os povos originários foram se colocando na vida nacional e para isso usa como conceito principal nos seus estudos, o da transfiguração étnica. Ou seja: os indígenas nem foram assimilados, nem foram destruídos, eles se transfiguraram para resistir a uma cultura invasora, violenta e desagregadora.

No livro, o antropólogo mostra que, no Brasil, as diversas etnias que se espalhavam pelo território foram alcançadas por uma poderosa etnia em expansão (a branca) e nesse conflito, cada uma das comunidades reagiu de forma diferente. Algumas lutaram, resistindo, outras fugiram, outras se deixaram “civilizar”. Cada uma delas buscou sobreviver definindo uma estratégia de acordo com os conselhos de seus anciões. A isso ele dá o nome de transfiguração.

Essa transfiguração étnica se dá em dois níveis. Um deles é o do enfrentamento entre duas populações diferentes que se mesclam e se contagiam, realizando verdadeiramente um encontro. E o outro, que marca a acontecida no Brasil, é quando há o enfrentamento entre sociedades evolutivamente defasadas, mas com coesão interna, em que a mais avançada acaba dominando. Nesse caso, não há encontro cultural, mas controle.

O processo de ocupação do território promovido pelos portugueses invasores foi violento. E eles, ao se reproduzirem como sociedade dominante, foram se consolidando como uma sociedade nacional agindo sobre as comunidades étnicas e mudando todo o seu modo de vida. Havia muitas diferenças entre as próprias comunidades indígenas. Algumas estavam no estágio pré-agrícola, outras já praticavam a agricultura. Umas vivam de maneira nômade, outras mais sedentárias. E não houve uma preocupação em entender o modo de vida de cada etnia. O que houve foi a dominação e a tentativa de aculturamento. Fragmentados e sem tradição de unidade, as comunidades foram encontrando elas mesmas o seu jeito de resistir. De qualquer forma, a vida já não se organizava como antes. Com os aldeamentos, o território é retirado, a lógica do parentesco se desfaz e os povos originários precisam encontrar maneiras de se adaptar a nova realidade.

Mesmo as populações que já praticavam a agricultura não conseguiram formar uma estrutura urbana nos lugares para onde foram removidos e acabaram se dispersando, muitas vezes criando novas micro etnias. Os indígenas vão se transformando, no dizer de Darcy, em “índios genéricos”, cada vez mais parecidos uns com os outros, sem respostas para o processo de dizimação cultural. Ele lembra que a Confederação dos Tamoios foi um momento importante de união de várias etnias que, inclusive, eram inimigas, mas ainda assim não foi forte o suficiente para impor um sistema organizativo comum.

A maneira como as comunidades conseguiram sobreviver foi a partir da transfiguração, já que isso permitia que atuassem como brancos sem perder as singularidades étnicas ou a identidade.

No início do século XX, das 230 etnias encontradas, apenas 105 conseguiam ainda manter seu patrimônio cultural, 57 delas com contatos intermitentes e 29 integradas ao mundo branco. As demais tinham sucumbido ao processo de violência da colonização. Em 1957, quando Darcy realiza sua pesquisa, o quadro já é bem outro. Com a ação humanitária promovida pelo SPI – ainda sob as normas de Rondon – as mudanças aconteciam de forma mais lenta e a proteção das comunidades nas chamadas reservas permitia algumas vivências comunitárias. Ainda assim 88 etnias já tinham sido extintas.

Infelizmente para Rondon, muitas dessas extinções só foram possíveis por conta da abertura das fronteiras realizadas por seu exército. Para se ter uma ideia, 10 anos depois de terem aberto os caminhos para a área telegráfica, 18 povos simplesmente se extinguiram (RIBEIRO, 1970, p.245). Já os que sobreviveram, confinados em áreas longe de seus espaços tradicionais, foram mudando, perdendo a língua, misturando com o português, misturando-se aos brancos e gerando filhos mestiços. Houve, no entender de Darcy, um processo de enfraquecimento bem grande.

O grupo Xokleng, em Santa Catarina, por exemplo, passou de 1800 pessoas para apenas 200, logo depois da chamada pacificação.

Com esse enfraquecimento e o crescente poder dos brancos, os indígenas foram perdendo também o seu orgulho. Nem mesmo as festas conseguiam realizar, pois, com o contato, qualquer reunião na qual juntasse muita gente, acabava gestando gripes e outras doenças mortíferas. A subordinação foi a forma que encontraram para sobreviver, ainda assim em números quase próximos da extinção. Darcy observou que, isoladas, as comunidades tinham um equilíbrio entre o sistema tecnológico, as condições ecológicas e as práticas de contenção demográfica. Conhecendo a natureza e comungando com ela a vida, os indígenas só se multiplicavam de maneira sustentável. Mas, nas aldeias, esse contato simbiótico com a natureza acabou se perdendo. Já não tinham mais controle do território e não sabiam mais como se comportar. A vida nas aldeias constituídas pelos brancos mudou completamente toda a estrutura social das etnias.

Nas estruturas brancas as comunidades indígenas também passaram a ter contato com outros instrumentos de trabalho como facas, machados, facões, elementos que igualmente alteraram o modo de vida. A introdução da cachaça, sibilinamente imiscuída pelos brancos, serviu como isca e agradou aos indígenas, causando estragos gigantescos, que perduram até hoje. O sal, a gordura e o açúcar igualmente serviram como potencializadores de doenças. Muitos dos costumes que tinham foram sendo abandonados porque os brancos consideravam coisas de “bárbaros”. A prática de comer gafanhotos, por exemplo, se perdeu. As próprias casas foram sendo modificadas, porque os padres e os agentes do governo consideravam-nas muito promíscuas. O massacre cultural não foi menor do que o provocado pela força e pelas armas.

Os problemas se agigantaram porque todas as novas tecnologias foram colocadas de maneira autoritária, sem que as comunidades tivessem tempo para conhecer e incorporar naturalmente, atualizando-se historicamente. Na verdade, os indígenas acabaram dependentes das novas técnicas, sem incorporá-las de verdade, gerando um trauma e mudando completamente o modo de vida.

Aldeados e submetidos ao controle do governo, os indígenas também se viram enredados numa outra economia, nacional, completamente diferente da tribal, a qual estavam acostumados. Passaram a usar o dinheiro, o que os levou a novas relações subordinadas à economia mercantil. Foi um engajamento compulsório, no dizer de Darcy. E aí, o problema não foi o de passar de um tipo de economia, mais simples, à outra, mais complexa, mas sim a forma como aconteceu a passagem. Foi um salto, da vida cooperativa nas aldeias para a economia do barracão e do trabalho capitalista. Assim, para os indígenas, ser “civilizado” passou a ser sinônimo de fome e sofrimento.

Não bastasse isso, o indígena que decidiu ir para o mundo branco tampouco conseguiu ser aceito. Levava a “marca” e sempre era apontado como índio. Todo o processo de colonização o levou ao desenraizamento sem oferecer alternativa real de participação na sociedade brasileira. A única possibilidade era a integração, mas ela não acontecia e ainda não acontece. Toda a política de expansão, inclusive a levada por Rondon, tinha como meta final a “limpeza” das terras, tirando os humanos para colocar rebanhos ou grãos. Foi a acumulação primitiva, tal como mostrou Marx na Inglaterra, se fazendo em terras de Pindorama. Só que havia uma diferença abissal: boa parte dos indígenas não tinha a experiência do agricultor e tampouco foi recrutada para fábricas. Ou seja, sua situação ficou ainda pior do que a dos brancos pobres no início do capitalismo. Aldeados em reservas eles tiveram de aprender a plantar, sob um regime de força, sem assimilar os novos instrumentos de trabalho de maneira natural.

Darcy Ribeiro pontifica: “[...] é o caráter capitalista do sistema econômico vigente e a ordenação sócio-política a ele correspondente que lança a sociedade nacional contra as etnias tribais” (RIBEIRO, 1970, p.371). O capitalismo arrasa tudo, mas fundamentalmente imprime um profundo processo de destruição e desenraizamento junto aos povos originários.

Por conta desse avanço do capitalismo na realidade mesma dos indígenas, Darcy aponta como vai operando aí a transfiguração étnica, que é esse mudar, sem perder a raiz. Ele mostra que quando o indígena passa de índio tribal para a condição de índio genérico, ou seja, integrado na cultura capitalista, a sua antiga consciência começa a ruir porque mudam todas as condições sociais e culturais. Ainda assim, os elementos fundamentais da cultura permanecem, embora numa outra condição. A ruptura do “ethos” tribal desagrega e desmobiliza, pois “as mitologias são corpos de representação cuja função consiste menos em explicar racionalmente o mundo do que motivar os homens para viver e amar a vida” (RIBEIRO, 1970, p.379). Assim que os mitos, na condição de desgarrados da aldeia, não morrem, eles são apenas redefinidos.

Esse ponto da discussão de Darcy Ribeiro se reveste de grande importância hoje justamente porque é isso que vimos assomar nos anos 80, quando o movimento indígena latino-americano começou a avançar outra vez, saindo do torpor a que estava submetido, e que levou o próprio Darcy a acreditar que os indígenas como cultura autóctone e originária iriam desaparecer. Ele concluiu no seu trabalho que os indígenas, mesmo os submergidos na cultura branca, jamais se aculturaram, mas sim que se transfiguraram. Ainda assim, como o capitalismo avançava e iniciava uma escala de modernização no Brasil, o antropólogo pensou que não haveria saída a não ser integrar-se totalmente a cultura dominante, a brasileira.

No seu livro seminal ele reconhece alguns elementos que são imprescindíveis para que uma etnia sobreviva, ainda que no mundo dos brancos:

1 - Ter componentes capazes de por em ação práticas adaptativas

2 - Capacidade de defesa

3 - Território

4 - Preservação de crenças e valores

Darcy não sabia, mas estava aí a chave para o reavivamento da resistência indígena. Enquanto seu trabalho começava a ser conhecido, nas entranhas das florestas os povos originários principiaram a recuperar sua força. A luta pelo território passou a ser a grande bandeira das comunidades indígenas e isso começou a mover etnias de toda a América Latina. Isso porque o território é, como Darcy percebeu, a base para toda e qualquer possibilidade de sobrevivência de uma etnia. Porque território não é apenas um pedaço de terra, ele carrega em si toda a cosmovisão e todo o modo de ser comunidade.

É a luta por território que vai explodir no México nos anos 80, depois no Equador nos anos 90 e assim em todos os cantos da grande Abya Yala, as comunidades assomando, ressurgindo das cinzas. No Brasil, com o fim da ditadura militar no começo dos anos 80 também se reorganizam os indígenas, lutando por direitos e demarcação das terras tradicionais. Ainda bastante misturados a instituições religiosas e Organizações Não-Governamentais, mas já conseguindo articular suas bandeiras de maneira unificada. O resultado foram os avanços garantidos na Constituição de 1988, que se não foram perfeitos, conseguiram abranger inúmeras demandas.

Com o avanço da democratização, com muitos territórios demarcados, as comunidades iniciaram um processo de “retomadas”, que é a volta organizada para o território original.

Novas organizações surgiram, muitas delas já descoladas da igreja e das ONGs. Eram os indígenas definindo eles mesmos suas bandeiras e suas formas de luta. Nesse processo, muitas das práticas culturais, língua e tradições ressurgiram com força, mostrando que nunca tinham sido esquecidas, apenas dormiam no coração e nas mentes que se preparavam para o retorno. E os povos originários, que conformavam pouco mais de 180 mil almas quando Darcy escreveu seu livro, hoje já se contabilizam em quase um milhão de pessoas. Ao contrário do previsto, eles não desapareceram. Re-nasceram, com mais força e com novas demandas.

Desde a última década do século XX não passou um dia no qual alguma comunidade, em algum canto de Abya Yala, não estivesse em luta. Quando os equatorianos ocuparam as igrejas em 1990, exigindo serem escutados, e quando os zapatistas gritaram, armados: Ya Basta!, em 1994, nunca mais o mundo pode seguir sem que suas palavras fossem ouvidas. Desde aí, o movimento cresceu e segue sendo a vanguarda da luta contra o capital. Não nos moldes tradicionais da esquerda, mas com a filosofia e a proposta de vida original e autóctone. Tampouco é possível pensar que os indígenas estejam enquadrados na condição de “genéricos”, iguais entre eles. Não. Cada etnia assoma na sua diferença. Unificada com as demais, mas concretamente retomando seu núcleo-ético mítico, nas suas especificidades. O que não impede que lutem juntos em demandas que significam a proteção dos bens mais caros aos seres humanos, como é atualmente (2017) o caso da luta pela água no território Sioux, no estado de Dakota dos Sul, Estados Unidos. Uma batalha que está sendo capaz de juntar praticamente todos os povos de Abya Yala num acampamento de protesto e de luta. Cada povo, cada etnia, sabendo muito bem que o que os unifica é maneira de viver no equilíbrio respeitoso com a natureza.

O movimento indígena está vivo e cresce.

Língua Rapa Nui em risco de desaparecer


22.02.2018 - O povo Rapa Nui é um povo originário polinésio, que vive na Ilha de Páscoa, em meio ao Oceano Pacífico, um dos lugares mais isolados do mundo, que hoje pertence ao Chile. Está distantes cerca de quatro mil quilômetros tanto da América do Sul quanto do Tahiti. Atualmente conforma 60% da população da ilha.

Conforme os registros da história, baseada em datações de carbono, o povo Rapa Nui começou a ocupar a distante ilha entre os anos 300 e 1200 DC. Vieram das outras ilhas polinésias desbravando o oceano. Pareciam ser bons navegadores visto que há registros de contato com povos da América do Sul, com vestígios da presença de batata e do porongo, plantas não existentes originalmente na ilha.  O primeiro contato feito com os Rapa Nui se registrou em 1722, com a visita de um navegador europeu, Jacob Roggeveen, conhecido geógrafo e matemático holandês.  Depois, foi a vez do espanhol  Felipe Gonzales de Ahedo, em 1770 que a tomou em nome do império espanhol. Desde então o povo local perdeu a soberania, sempre colonizado.

A invasão mais organizada se deu em 1870, com a chegada de comerciantes que invadiram as terras e introduziram o gado ovino. Em 1888, o governo chileno anexou a ilha tornando-a uma espécie de grande fazenda de ovelhas, ainda que a administração de tudo ficasse a cargo de uma empresa estrangeira, escocesa. Os Rapa Nui nunca foram considerados e passaram a condição de verdadeiros escravos, porque trabalhavam, mas não recebiam salário, apenas víveres.

No ano de 1914 o povo local decidiu se revoltar contra a empresa escocesa, mas não conseguiu conquistar o direito de gerir sua própria terra. A chegada de um navio de guerra chileno, em auxílio à empresa, colocou por terra a rebelião.  Foi só na década de 90, do século XX, depois de muitas batalhas, em 1966, que os habitantes da ilha, os Rapa Nui foram reconhecidos como chilenos. Mas, vez em quando explodem novas rebeliões e protestos. A liberdade e a autonomia seguem sendo um sonho. Tão distantes do Chile os Rapa Nui não nhando com a liberdade.

E foi por conta da invasão espanhola e depois chilena que o espanhol passou a ser introduzido na comunidade e hoje, apesar da maioria das gentes ser Rapa Nui, poucos falam o idioma original. Entre os mais jovens, de idade entre oito e 12 anos, apenas 16% maneja a língua. A ilha tem pouco mais de quatro mil habitantes, a maioria vivendo na parte oeste, em Hanga Roa. São conhecidos pelas estatuas monumentais em pedra, os Moais, provavelmente esculpidas entre os anos de 12050 e 1500. Pouco se sabe o que representam, mas acredita-se que sejam aspectos da face dos ancestrais. Ao todo, na ilha, existem 887 monólitos que tem entre 1 a 10 metros de altura. São a principal atração turística e os responsáveis pela economia local. A terra é pouco fértil e Rapa Nui sobrevive basicamente do turismo.

O Povo Rapa Nui tem realizado muitas lutas exigindo do governo chileno mais autonomia para gerir sua existência. Mas, pouco tem sido o resultado. Agora, a Unesco vem advertindo para o risco de a população perder o domínio da própria língua, o que significa mais um golpe em direção à destruição da cultura local. É por isso que está desenvolvendo um projeto visando recuperar e fortalecer a língua originária.

Segundo os estudiosos, só assim será possível consolidar a riqueza da diversidade cultural em Rapa Nui (que é o nome original da Ilha de Páscoa). De qualquer forma, para além da intervenção de instituições internacionais como a Unesco, a organização do povo Rapa Nui em luta por soberania não esmorece. Sua principal demanda é justamente o território. Sem direito à terra e ao território original, toda a cultura se esboroa. Então, não basta realizar projetos de recuperação da língua, se as comunidades não podem viver sua cultura de forma totalizante. A língua de um povo está visceralmente ligada ás suas práticas culturais e estas, visceralmente ligadas ao território. Sem ele, a língua morre e projetos “humanitários” que não levam isso em conta tendem a fracassar.

Por isso é importante que o mundo leve em conta também a luta dos Rapa Nui pelo direito de mandarem na sua própria casa. É tempo do Chile devolver à ilha a quem ela pertence por direito.