O novo movimento indígena brasileiro



















Por Elaine Tavares

Talvez muita gente ainda não tenha percebido, mas há uma mudança gigantesca no processo de luta dos povos originários do Brasil. A primeira delas é a vertiginosa desvinculação da igreja, que, de certa forma, sempre foi a mais importante presença no processo. Num primeiro momento, como opressora número um,  ajudando os portugueses no massacre aos povos novos. Depois, com a ação dos jesuítas nas famosas missões, houve uma mudança no trato e o objetivo era evangelizar, respeitando alguns aspectos culturais e a vida. Mais tarde, já no século XX, atuando como parceira no trabalho de manutenção da cultura e divulgação das denúncias necessária através do Conselho Indigenista Missionário.

Também houve um momento na história do século XX em que uma série de Organizações Não Governamentais, brasileiras e estrangeiras, se uniram ao trabalho que já vinha sendo feito pelo CIMI e passaram a atuar no processo de organização das comunidades para que a cultura fosse preservada e as terras demarcadas. Coisas boas e coisas ruins assomaram nesse período e foi um lento aprendizado para os povos originários.

Mas, desde há algum tempo houve uma viragem. A caminhada em comunhão com as igrejas e as ONGs proporcionaram muitos saberes sobre como lidar e viver no mundo dos não-índios. E nesse caminhar, os indígenas foram descobrindo que já tinham todas as condições de atuarem por eles mesmos. Não precisavam de mediações. Parceiros na luta sim, mas não mais de mediações. E, assim, do seio dos povos ainda existentes, foi brotando outra vez a velha forma de organização da vida, que estivera sempre na memória. Era o tempo de criarem entidades organizadas e dirigidas por eles mesmos. E assim, nos anos 80 do século XX começou – devagar – essa mudança de rumo. Associações, Coordenações, Confederação. Coisa já conhecida desde antes da chegada de Cabral.

Assim, os povos indígenas passaram a atuar no campo da luta por direitos e território, em instituições constituídas à maneira não-índia, capaz de dialogar e compreender o intrincado mundo dos brancos, com suas leis e o falso estado de direito. Se era necessário o combate no campo da lei, para ele deveriam marchar com armas capazes de serem eficazes também nesse mundo. Hoje, são muitas as associações que organizam as lutas, formação e debates sobre a realidade indígena em todo o país.

Essas entidades organizativas dos povos indígenas caminham em articulação com a organização original, histórica e tradicional dos que ainda vivem nas aldeias. É um bem elaborado bailado de ligações entre o secreto que sobrevive na aldeia, e as batalhas que precisam ser travadas no mundo não-índio. Ou seja, as populações originárias estão avançando no seu processo organizativo de maneira autônoma e soberana, com uma forma de organizar que é bastante singular, única, totalmente articulada entre a tradição, a cosmologia e realidade de viver num mundo dominado pelo não-índio.

Toda essa mudança no modo de ser dos povos indígenas na relação com o Estado aparece em situações bastante específicas e cada vez mais. Uma delas se explicitou bem aqui, na grande Florianópolis, quando a comissão de notáveis brancos da CPI da Funai veio entrevistar as lideranças da Aldeia Itaty, do Morro dos Cavalos. Segundo os deputados que solicitaram a CPI, os indígenas que ali vivem, não estavam naquele lugar em outubro de 1998, logo, não teriam direito de ter aquelas terras demarcadas.

Na audiência, o cacique Guarani respondeu a todas as perguntas na sua língua original. Já basta de desrespeito com as gentes indígenas. Já basta do tempo em que se torturava um homem ou uma mulher originária para falar uma língua que não era conhecida. É tempo de os não-índios que quiserem realmente estabelecer um diálogo com os povos indígenas saberem que eles falam uma língua específica e que ela precisa ser conhecida e respeitada. Essas línguas estão vivas e são o sustentáculo da cultura de cada povo. O pessoal da CPI saiu incomodado, o que mostra que não há mesmo nenhuma boa vontade em ouvir e compreender a realidade indígena. As pessoas já vêm com ideias pré-concebidas. No caso do Morro dos Cavalos, os Guarani estavam ali sim, antes de outubro de 1988. Mas, se não estivessem , isso só teria acontecido por conta da expulsão promovida pela invasão de colonos. Isso é história comprovada. Logo, aquela terra é deles por direito.

Outro caso, bem pior, aconteceu no Mato Grosso do Sul, onde numa também sessão da CPI da Funai  - que é nacional – a liderança Terena, Paulinho Silva, também optou por fazer o depoimento na sua língua original, já que não tinha um bom domínio do português, e isso poderia fazer com que ele não conseguisse expressar o que precisava ser dito. Foi um alvoroço. Os deputados e outros integrantes da mesa se colocaram contrários a esse direito que é assegurado ao indígena.  E tanto que colocaram um vídeo no qual Paulinho fala em português e ainda abriram uma queixa crime contra ele. Ora, ainda que ele saiba falar português, essa não é sua língua mátria, e é nela que ele consegue tornar mais claro o que tem a dizer. Ele tem o direito de falar na sua língua. Mas, não. Agora, há um boletim de ocorrência contra o Terena, ele vai ter de prestar esclarecimentos à Justiça e pode ser condenado por crime. O mundo de ponta cabeça. A vítima passando a criminoso em um toque de mágica. E tudo isso num estado onde sistematicamente os fazendeiros matam índios, estupram mulheres, e usam jagunços para aterrorizar as aldeias, sem que nada lhes aconteça.

Mas, para os povos originários, essa é uma batalha antiga. Muitas fases já passaram, desde a tutela até a autonomia que vão construindo aos trancos e barrancos. Saíram de uma linha de quase extermínio, quando chegaram a pouco menos de 150 mil pessoas, para quase um milhão de almas que hoje se expressam, se organizam e crescem. O movimento indígena não é mais o mesmo. Ele se fortalece e se revigora. Isso não significa que as coisas vão mudar de uma hora para outra. Isso tudo é um processo. Significa que há mudanças substanciais, que há autonomia, que há organização soberana, que há orgulho da língua, que há conhecimento de direitos.

É chegada a hora de as escolas começarem a ensinar também o Guarani, Tupi, Terena, Apinajé, Xokleng, Kaigang e tantas outras línguas que conformam as mais de 300 comunidades indígenas que vivem no Brasil. Porque os povos estão orgulhosamente falando suas línguas e lutando pelo seu território, que, na cosmovisão originária, é o espaço pleno da cultura – não apenas terra, mas universo totalizante do seu modo de ser.

Os indígenas brasileiros estão em plena caminhada de transformação. E, como já anunciaram os parentes de Chiapas, no distante 1994: “Já basta! Nunca mais o mundo sem a gente”. Assim é. A luta pelo território continua e cresce.

As maiorias















Fotos: Kennedy Karay







Os estudantes indígenas e negros organizaram uma recepção aos novos estudantes que entram na UFSC esse ano. A ideia era recepcionar e conversar sobre como é a vida na instituição, os direitos que têm, as conquistas que ainda precisam ser garantidas, os problemas, o preconceito concreto que se explicita a todo momento.

Essa é a primeira vez que isso acontece, índios e negros, juntos, pensando sua realidade e as ações dentro da universidade que até bem pouco tempo não tinha espaço para eles. Com o advento das cotas, finalmente os centros de ensino superior puderam receber alunos de escola pública, negros e índios, até então minoria nas universidades.

Agora, com o passar dos anos, esses grupos, outrora excluídos - porque a concorrência com os cursinhos privados garantia cotas quase exclusivas para brancos – assomam e dizem sua palavra. Estão na universidade para ensinar também. Falar de suas tradições, sua língua, sua música, suas vestimentas, seus sonhos.

Esse é um caminho ainda longo, pois ainda hoje há quem questione as cotas e a discriminação está sempre aí, latente. Mas, com persistência e ação política conjunta, esses estudantes vão avançando. A unidade entre os negros e índios já é um indício de maturidade. Caminhar sozinho sempre é mais difícil.

E que não venham falar de racismo às avessas, porque isso não existe. Desde a invasão deste espaço geográfico que hoje chamamos Brasil os indígenas vivem processos violentos, com tentativa de dizimação e sistemática destruição de sua cultura. Igualmente os negros, trazidos à força de seu lugar original e escravizados. Uma gente que mesmo após a dita “libertação” ainda precisa lutar para viver com dignidade nesse país. Logo, a união desses grupos nada mais é do que uma resposta organizada a quem ainda não entendeu que precisa dividir o espaço com eles, na igualdade de direitos e no respeito a diferença.

Que essa união perdure e avance! 

Então, Brasil



Em 1500, num 22 de abril, conta a história, chegaram os homens de Portugal nas costas de Pindorama. Vinham em busca de ouro, encontraram gentes. Pessoas de paz, dispostas a ver o outro, sem medo ou estranhamento. Deles, diz Pero Vaz de Caminha, o escrivão: “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram. ...A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos...Os cabelos são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não o era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar”.

Ali estavam os Pataxó, espiando a praia, vendo chegarem aquelas naves gigantes sobre o mar, e nelas, homens como eles. Não tinham lendas de deuses que viriam, por isso receberam a todos como se recebe a um desconhecido qualquer que nos acena na entrada de casa. Convidaram para entrar, visitaram as naus e trocaram presentes. Não sabiam que os que ali chegavam só queriam roubar as riquezas, o ouro, a prata. Brincavam com os estranhos, como crianças. “Estavam na praia, quando chegamos, obra de sessenta ou setenta sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. Depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos; e misturaram-se todos tanto conosco que alguns nos ajudavam a acarretar lenha e a meter nos batéis. E lutavam com os nossos e tomavam muito prazer,” diz Caminha.

A essa confiança, os portugueses revidaram com álcool e pregação. “Agora já andam mais mansos”, repete Caminha, como se lidasse com animais. E sentencia, ao rei: “Porém o melhor fruto, que nela (a terra recém-encontrada) se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar”. Por salvação, que fique claro, queria dizer a submissão dos indígenas ao deus cristão e ao rei de Portugal. Assim foi sendo criado o que hoje chamamos Brasil.

Hoje, passados 515 anos ainda podemos encontrar pessoas como Caminha, que acreditam que a “salvação” do indígena está na sua inclusão à “civilização” branca. Para isso, roubam-lhes a terra, matam e desaparecem seus filhos, enquanto seguem oferecendo bugigangas. A inclusão é, de fato, uma ilusão.

A diferença é que os povos indígenas contemporâneos estão calejados. Sobreviveram à duras penas ao extermínio e já não olham para os não-índios com “mansidão”. Isso pode ser visto na semana de mobilização em Brasília. Pintados para a luta, eles exigiram o que lhes é direito: território e autonomia. E não aceitarão menos do que isso.

Num 22 de abril, os portugueses encontraram um povo desconhecido para eles. Não souberam respeitar a vida que aqui já existia. Mas, sempre é tempo. E a gente celebra, não o massacre, não a invasão, mas a possibilidade de, quem sabe, um dia, realizarmos, por fim, o encontro necessário. Alguns já conseguiram. Outros ainda precisam de muito chão.


Viva o dia da terra, viva o mundo indígena, e que vivam todos aqueles que já conseguem viver em comunhão, reconhecendo os direitos indígenas e caminhando com eles na luta.


A mobilização nacional indígena





Fotos: Sítio da APIB














Semana de atividades em Brasília é mais um passo na luta

Passados 515 anos da chegada em nossas praias das caravelas portuguesas, os povos originários dessa imensa Pindorama ainda continuam sendo tratados como uma gente de segunda classe. Naqueles dias, sem entender a língua ou o modo de vida dos indígenas, os invasores decidiram que eles eram ignorantes e que não tinham alma. Logo, eram passíveis de escravização e extermínio. Durante séculos essa foi a política dos colonizadores. Ignorando olimpicamente os donos dessa terra, os portugueses, e depois os brasileiros - gente já nascida aqui - foram se apropriando das terras, tomando-as,  entregando-as aos imigrantes e tornando os índios inimigos nacionais. 

Apenas no início do século XX, com a figura do Marechal Rondon, a política indigenista mudou. Rondon não aceitava a matança dos índios que já durava 400 anos e queria integrá-los à vida nacional. Iniciou o que pensava ser uma cruzada civilizatória. Bem intencionada, mas igualmente nefasta, pois isso continuava sendo a negação do direito dos indígenas em viver dentro do seu próprio modelo de produção e desenvolvimento. A mudança proposta por Rondon cessou o massacre armado por parte do estado, mas não transformou a realidade dos indígenas. Na parte norte ainda foi possível - ainda que confinados em reservas - manter boa parte dos costumes. Mas, as etnias que estavam em regiões mais povoadas foram sistematicamente perdendo o direito ao seu modo de vida. No choque com a expansão das cidades e com o alargamento das fronteiras agrícolas, o massacre continuou e segue até hoje. Se não são mais os bandeirantes, financiados pelo estado, são os jagunços, pagos por ricos fazendeiros ou multinacionais. O objetivo é um só: expulsar os índios das terras boas, tirá-los dos lugares onde estão as riquezas naturais. Se quiserem viver, que seja integrados ao modo não-índio, nas favelas ou como empregado nas fazendas. 

Os povos que sobreviveram a todos esses anos de massacre nunca desistiram de suas terras e de sua cultura. Apesar das mudanças assimiladas por todo esse tempo de convívio com o não-índio, eles conseguiram manter elementos importantes do seu modo de organizar a vida. Também, ao longo dos tempos, nunca deixaram de lutar por manter-se em seu território original, porque para o índio a terra não é um bem de troca ou algo que seja usado para especulação. A terra faz parte do órbita do seu viver, está integrada na comunidade. Não pode existir uma etnia originária sem o seu território original. Cada árvore, cada animal, cada pequena parcela do espaço tem ligação íntima com a vida das famílias. Por isso a luta interminável pela demarcação de seus territórios nos lugares que eram tradicionalmente ocupados pelos seus ancestrais. Não tem lógica alguma oferecer ao índio um lugar distante do seu território original. A casa, para as etnias autóctones, não é a cabana, a oca ou o prédio de madeira /tijolo. A casa é todo o espaço do entorno.

Só que a luta indígena por território é uma batalha sem fim. Eles dependem de que o governo institua um estudo - feito por antropólogos - para determinar se o lugar que reivindicam é mesmo o seu território original. Se esse lugar está em disputa por conta da ocupação ilegal por parte de imigrantes, famílias não índias, fazendeiros ou ladrões, a coisa fica ainda mais difícil.

Aqui em Santa Catarina, bem perto da capital, temos um caso típico. A terra indígena do Morro dos Cavalos, onde vivem os Guarani, desde há muito já foi comprovada como território original, mas até agora não teve a demarcação finalizada. Fruto de disputas com famílias de colonos que ocuparam, a luta tem sido árdua, até porque muitas dessas famílias adquiriram as terras em boa fé. É um processo complicado e lento, porque o governo federal não indeniza a terra, apenas as benfeitorias  e os que compraram em boa fé acabam também prejudicados. 

Outros, como os Guarani Kaiowá, na região do Mato Grosso, ainda seguem vivendo à margem das estradas, fora de seu território, hoje ocupado, na sua maioria, por ricos latifundiários, que usam da ação dos jagunços para espalhar o terror, a tal ponto de que uma comunidade inteira chegou a anunciar que estaria disposta a morrer na luta pela terra que é sua. Não são poucos os casos de suicídio de jovens indígenas, justamente porque não suportam viver sem o espaço que é seu por direito. Fazem como faziam os seus ancestrais, que preferiam matar-se a virar escravos. 

Todo esse horror não passa nos noticiários da TV e o que sai no jornal é pontual, casos isolados, desconectados do contexto. Uma morte de índio é vista como um crime qualquer, muitas vezes sem solução. Um suicídio aparece apenas como mais uma "coisa triste", sem ligação com a problemática geral. E as lutas dos povos originários aparecem como "perturbações da ordem", como tem sido o caso das batalhas travadas na Amazônia contra as hidrelétricas, Belo Monte em particular.

Por conta de tudo isso a luta dos indígenas precisa se fazer presente em nível nacional em momentos como os vividos na semana que antecedeu o chamado "Dia do Índio", de 14 a 17 de abril. Durante cinco dias, mais de 1.500 pessoas, representando todas as etnias que sobrevivem nesse imenso continente, realizaram uma série de atos políticos na capital federal. O principal objetivo era conversar com os deputados e senadores sobre a PEC 215, que é uma emenda à Constituição que visa tirar do executivo o poder de demarcar as terras, passando essa tarefa para o Congresso Nacional. Um golpe muito bem urdido pela bancada rural, formada por latifundiários ou seus representantes. Colocando a decisão para o Congresso fica bem mais fácil para o agronegócio garantir seus interesses. 

Agora, imaginem, que poder tem o agronegócio? Praticamente metade do Congresso Nacional é composto pelos representantes do latifúndio. Isso significa que as demarcações nunca virão, e se vierem não será a que interessa aos indígenas. É fato que o governo federal também tem fortes ligações com o setor do agronegócio, mas os indígenas consideram que é melhor negociar com um ministro do que com mais de 500 deputados. Há uma outra correlação de forças. 

E foi isso que os indígenas foram discutir no Congresso. Apelar para o arquivamento do projeto de lei que muda a Constituição. Além disso, também aproveitaram para denunciar as violações de direitos que acontecem em diferentes regiões do país, assassinatos, desaparições, violências de toda a ordem, invasões de suas terras. Nas mobilizações em frente ao Palácio do Planalto, as reivindicações eram por mais agilidade nas demarcações. O governo Dilma praticamente parou o processo e mais nenhuma terra foi legalizada. Existem 21 processos finalizados, esperando apenas a assinatura da presidente. Tudo isso porque os ruralistas insistem em questionar os laudos da Funai. E o governo segue paralisado, dando asas aos fazendeiros, muitos deles fincados nas terras indígenas roubando madeiras e explorando minérios.

A movimentação indígena em Brasília foi bonita e representativa. Durante cinco dias, a capital federal se coloriu com o urucum e as cores da floresta. Mas, as belas imagens geradas pelas caminhadas e ocupações do Congresso não são elementos para folclorização do tema. De nada vale curtir no facebook. A comunidade dos não-índios que têm consciência da necessidade das demarcações das terras indígenas precisa atuar em consequência. É mais do que óbvio que o Congresso Nacional é hegemonizado por parlamentares que sequer respeitam os indígenas, quanto mais a causa. Basta ver como trataram os representantes dos povos originários na Sessão Solene que foi formada para ouvi-los. Mais falaram que ouviram, como bem denunciou o xamã yanomami, Davi Kopenawa: “O branco não deixa falar muito. Ele não quer resolver, por isso que ele não quer deixar liderança falar a verdade”. Davi, disse isso num plenário já bastante esvaziado, quando as fotos todas já tinham sido batidas, no ritual da falsa democracia. Mas o xamã não se intimidou com o vazio e fez ecoar sua fala: “Essa casa é a casa da cobra grande (a PEC 215). A cobra grande está aqui. Nós queremos matar essa cobra grande; matar, queimar e enterrar para não nascer mais aqui. Fizeram essa lei, sem consultar com ninguém, para matar o nosso povo”. 

Os indígenas que ocuparam o plenário e a cidade de Brasília sabem muito bem que sem a luta mesma, forte e unificada, nada acontece. Foi assim durante 515 anos. Por isso,  voltam para suas aldeias seguros de que não podem esmorecer. Precisam da parceria da sociedade brasileira - se não como um todo, pelo menos da parcela que respeita seus direitos.

Assim, a solidariedade concreta tem de vir das organizações populares, dos sindicatos, dos militantes das causas singulares. Cada uma dessas entidades que travam a luta de classe tem de informar a sociedade sobre a realidade e as necessidades dos indígenas. Um povo bem informado pode decidir melhor sobre as coisas. Se cada jornal sindical, ou cada página dos movimentos populares, trabalhar a questão indígena no contexto histórico, político e social, já estará fazendo um trabalho bom. E, nas demandas singulares, como é o caso da demarcação, precisa também informar e se posicionar favoravelmente. 

Ao longo da nossa história a esquerda brasileira nunca tratou com o devido cuidado as demandas do mundo indígena. Mas, sempre é hora de começar.    
  
Nessa segunda-feira, 20, um dia depois do "dia do índio",  a presidente Dilma Roussef assinou decreto homologando três terras indígenas na região norte do país, num total de 232.544 hectares, atendendo à luta de quatro etnias. 

Uma é a terra indígena Arara da Volta Grande do Xingu, habitada pelos povos Arara e Juruna, que tem 25,5 mil hectares e está inserida nos procedimentos de licenciamento da Usina de Belo Monte. Outra é a terra indígena Mapari, no Amazonas, nos municípios de Fonte Boa, Japurá e Tonantins. É a maior das áreas, com 157.246 hectares, habitada pelos Kaixana. A terceira ocupa territórios dos municípios de Borba e Novo Aripuanã (AM), é a terra indígena Setemã, morada dos Mura, com 49.773 hectares.

É inegável que essa homologação vem nessa hora por conta da mobilização feita em Brasília. Por que é assim. Só a luta faz a lei. E o que veio ainda é muito pouco para tanto esforço que foi retirar representantes das etnias e enfrentar tantas atividades na capital. Só que esse povo valente, que já resistiu a 515 anos de massacre, não é de desistir. Eles voltam para casa e seguem a batalha. Ainda há muito para conquistar. 

Que eles não sigam sozinhos.  


Indígenas digitais
























Projeto nascido no Serviço Social da UFSC é pioneiro no país

por elaine tavares

fotos: rubens lopes

A Universidade Federal de Santa Catarina, através do IELA, iniciou em 2011 um importante projeto de inclusão digital das comunidades indígenas do estado. O trabalho, coordenado pela professora Beatriz Paiva (Serviço Social/UFSC), começou no Morro dos Cavalos, com uma comunidade Guarani que vive próximo à Florianópolis. Desse processo foi produzido um importante vídeo sobre a cultura local, difundido pela rede mundial de computadores. Depois, em 2013, por conta do sucesso da proposta, o grupo de trabalho decidiu ampliar o projeto para todo o estado de Santa Catarina, abrangendo mais outras quatro aldeias da etnia Guarani. A partir daí essas cinco aldeias Guarani foram visitadas e, em cada uma delas, criado um núcleo de discussão e capacitação para o uso das novas tecnologias. Foram realizadas oficinas, nas quais os equipamentos de vídeo e fotografia eram apresentados e os jovens indígenas capacitados para o manuseio. O objetivo final desse processo foi a filmagem e a construção de um vídeo em cada aldeia, tudo feito pelos próprios Guarani. Cada comunidade decidiu-se por um tema específico: a situação da aldeia, o milho, folguedos tradicionais, coral indígena e demarcação de terra. Todos esses projetos estão em processo de finalização e logo serão divulgados.

A rica experiência de inclusão digital em Santa Catarina, que se estendeu por quatro anos, levou o grupo coordenado por Beatriz Paiva a propor um passo mais ousado, que culminou com a construção de um novo projeto – semelhante ao vivido no estado – para todo o Brasil. Assim, nasceu o projeto de Inclusão Digital Indígena Nacional que pretende formar jovens e adultos indígenas no uso das Tecnologias de Informação e Comunicação, principalmente aquelas voltadas para produção, edição e veiculação de audiovisual.

Essa terceira fase do trabalho começou em fevereiro de 2015 e está sendo feita em parceria com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB, suas representações locais (Arpinsul, ArpinPan, ArpinSudeste, CGY, COIAB, APOINME, Aty Guassu), Universidades Federais ou Institutos Federais de cada região e a Fundação Nacional do Índio.

Ao todo são cinco regiões do país e cinco etnias (Tembé, Kaigang, Guarani, Tupiniquim, Apib), respectivamente nos estados do Pará, São paulo, Paraná, Pernambuco e Distrito Federal. Todas essas comunidades receberão capacitação em audiovisual, fotografia, produção e edição de vídeos, com a veiculação virtual e material dos conteúdos produzidos, nos mesmos moldes do trabalho que foi realizado em Santa Catarina.

A intenção é fortalecer essa articulação de entidades para que, mais na frente, se possa pensar em um programa de universalização da Inclusão Digital para os indígenas de todo o Brasil. “Apostamos que com a socialização dos conhecimentos com os Povos Indígenas, favorecendo o respeito ao modo tradicional de viver de cada povo e o seu fortalecimento, poderemos estabelecer um novo marco das relações de comunicação indígena. Este projeto de extensão, além de contribuir para o fortalecimento das práticas de extensão na Universidade Federal de Santa Catarina e particularmente no curso de Serviço Social desta instituição, é uma iniciativa inédita em nível nacional”, diz Beatriz Paiva.

Toda essa proposta, que começou em Santa Catarina, está baseada no profundo compromisso que tanto o Departamento de Serviço Social, como o IELA, onde o projeto está sediado, têm com a defesa dos direitos dos povos indígenas. Ancorado nessa ideia, o grupo liderado pela professora Beatriz, realizou um amplo trabalho de consulta prévia junto aos povos indígenas para que fossem eles os que decidissem qual seria o caminho a tomar. Articulados pela APIB foram os próprios indígenas que decidiram onde e quais seriam as comunidades atendidas.

A equipe já está trabalhando no sentido de priorizar as condições materiais da localidade escolhida, com disponibilidade de conexão de internet e uma estrutura compatível com o abrigo da chuva ou outras intempéries. Essas condições são prioritárias para que o projeto possa começar.

O censo 2010 do IBGE informa que em todas as regiões do Brasil existem comunidades indígenas, com uma população que já chega a 900 mil pessoas. Destas, 62% vivem em nas chamadas Terras Indígenas, já demarcadas ou em vias de demarcação. O número é bastante significativo e coloca para o estado brasileiro um desafio, que é o de realmente garantir às comunidades o acesso à informação e aos mecanismos de produção dessa informação para que possam vivenciar sua autonomia em igualdade de condições com os não-índios. Algumas políticas sociais no campo da informatização já foram criadas, como é o caso do Programa Sociedade de Informação, iniciado em 1999, o modelo brasileiro de inclusão digital, criado em 2004, bem como os Programas Casa Brasil, Cultura Viva e o GESAC. Todos eles articulam e/ou articularam diferentes órgãos do governo, mas não ofereceram ou oferecem programas para os indígenas, por isso a importância desse trabalho em particular, que prioriza a inclusão dos povos originários no universo digital.

É fato que ao logo da história entre o estado e os povos indígenas a proposta sempre foi de “integração” ao mundo não-índio, mas as condições para isso nunca conseguiram ser satisfatórias, causando, inclusive, muitos danos e reafirmando preconceitos. Depois, com a Constituição de 1988, o respeito à diversidade cultural e à autonomia da organização indígena colocou um novo marco na relação com os povos autóctones. Ainda assim, há muito para conquistar no que diz respeito a direitos e território. O trabalho realizado hoje avança no sentido de garantir aos povos indígenas as condições de conhecimento tecnológico para que eles mesmos possam criar o conhecimento que consideram necessário para compartilhar com a nação brasileira. É um trabalho de mediação entre o estado e as comunidades, através de políticas sociais, mas que garante total autonomia dos povos indígenas quanto aos temas discutidos e propostas de audiovisual.

Assim, tal como aconteceu nas comunidades Guarani de Santa Catarina, serão realizadas oficinas de formação nas aldeias, durante o período que vai de março de 2015 a janeiro de 2016, tendo como conteúdo a produção audiovisual, a fotografia, a edição de vídeos e veiculação virtual e material dos conteúdos produzidos. Serão realizadas captações de imagens, montagem e edição de vídeos e fotografia, mixagem de som e veiculação e distribuição de material. Não bastasse isso, as aldeias também receberão equipamentos e uma ilha de edição. Todo o trabalho será feito pelos próprios indígenas. Com isso, espera-se que o mundo digital possa ser mais um espaço de difusão da cultura originária e de debate sobre os desafios dessa relação entre os indígenas e a sociedade não-índia que ainda está longe de ser ideal.