O fogo e os indígenas

 


22.09.2020

Então o presidente do Brasil foi à ONU dizer que as queimadas que assolam o Pantanal, o Cerrado e Amazônia  - que até ontem ele negava  - estão sendo provocadas pelos indígenas e pelos caboclos. Até aí nada de novo a considerar uma criatura que se move unicamente no pântano da mentira. Mas, cabe a nós trazer um pouco de informação veraz à população. 

Um estudo da Ambiental Media, entidade que trabalha com jornalismo de dados, cruzou informações de instituições públicas como o INPE e o Cadastro Ambiental Rural, e mostrou que são as propriedades rurais de médio e grande porte as que apresentaram 72% dos focos de incêndio no ano passado. São também essas propriedades que apresentaram o maior índice de desmatamento, “coincidentemente”. Ou seja, o fogo é usado para queimar o que foi derrubado. Esse mesmo cenário é o se vê hoje, tanto no Pantanal quanto no Cerrado. As terras são queimadas para expandir a fronteira agrícola.  

Ainda conforme os dados, as terras indígenas aparecem com apenas 11% de queimadas, sendo que boa parte delas são comprovadamente provocadas por grileiros e jagunços. Repassando: não são, portanto os indígenas nem os caboclos assentados os que colocam fogo na vegetação.  

Um mínimo de conhecimento sobre a realidade indígena já seria suficiente para saber que as comunidades originárias, bem como as tradicionais – quilombolas e ribeirinhas  - têm uma relação com a natureza que não está vinculada ao lucro ou a produção capitalista. Essas comunidades utilizam o território como espaço de vida e fazem uso da terra de maneira sustentável. Suas técnicas de manejo remontam há séculos e o elemento chave é a proteção.  

O chamado bem-viver reivindicado pelos povos originários está firmemente ancorado na pachamama (a terra como expressão totalizadora da vida toda), na reciprocidade, no uso coletivo da terra, na propriedade comunal, na solidariedade. É fato que cada etnia tem sua concepção singular do que seria esse bem-viver, mas a organização unificada dos povos em nível continental atualmente aponta elementos que são comuns a todos. E o mais importante deles é o de que a terra não é algo que está fora da vida, ela é parte da existência de cada um. É, portanto, impensável machucá-la.  

Por isso é importante perceber que a acusação de Bolsonaro na ONU não é por acaso. Os ruralistas, aliados prioritários, têm como projeto, ainda nesse governo, eliminar as comunidades indígenas dos míseros 12% do território nacional que ainda estão protegidos sob seus cuidados. A sanha de expansão do capital é imparável e todas as terras precisam ser amealhadas. Daí que imputar aos indígenas esse crime de lesa-humanidade que vivemos hoje no país é uma grande cartada. Com base nessa ideia de que os indígenas são inúteis e ainda destroem as terras, essa gente pretende dar continuidade ao processo de reversão das demarcações já feitas, e impedir novas demarcações, extinguindo assim com essa prática, que é subversiva para o capital, de uso racional e comunitário da terra. 

Quando deputado, cargo que exerceu por 28 anos, sempre foi muito conhecido o preconceito e o completo desrespeito que Bolsonaro sistematicamente manifestou no trato do tema indígena. Por isso, ao ser eleito e empossado presidente, sua decisão de passar o tema das demarcações e homologações ao Ministério da Agricultura, dirigido por uma representante do agronegócio, é claramente um ataque concreto à luta originária e um aceno servil aos interesses de fazendeiros e mineradores que já possuem mais de 60% do território nacional, sonhando abocanhar as terras indígenas, cheias de vida e de riqueza.   

Ao contrário da proposta de exploração e esgotamento do ambiente implementada pelo latifúndio, os povos originários têm uma forma própria de viver e de se organizar nas terras, bem como uma forma própria de sustentabilidade. Eles não trabalham com a ideia de desenvolvimento capitalista e não pactuam com o modelo econômico que impacta negativamente seus territórios. De novo, basta entrar nas bases de dados de órgãos governamentais, como o INPE ou o IBGE e já se pode ver claramente que as terras indígenas são espaços vigorosos, com comprovação técnica e cientifica de proteção ambiental, sendo muito bem manejadas pelos povos indígenas, e tanto que por conta desse manejo e preservação garantem constantes chuvas com as quais até as plantações e agronegócios da região do sul e sudeste são beneficiadas. 

Portanto, apenas com esses poucos fatos já é possível perceber que os povos indígenas jamais seriam capazes de colocar fogo no seu território, terra-mãe. Essa é uma ação dos capitalistas, interessados em “limpar” os terrenos para introduzir pastagens, cultivos alienígenas ou para fazer mineração, terra-mercadoria.  

A máquina de mentiras instalada no palácio do governo em Brasília vai continuar inflamando seus aliados/alienados contra os povos indígenas. E já possível visualizar isso nos grupos de uatizapi que reproduzem essa mentira – de que os incêndios são obra indígena  - à exaustão. Mas, em matéria de resistência os indígenas tem mais de 500 anos de experiência e seguirão atuando no sentido de estabelecer a verdade.  

Cabe a cada um de nós ajudar nessa cruzada.  

Os indígenas e a Covid-19


09.08.2020

São mais de 300 povos indígenas no Brasil, talvez o maior número em todo o mundo. São também mais de 200 línguas diferentes faladas pelos cantões desse nosso imenso espaço geográfico. Em cada comunidade, cada aldeia, são sempre os mais velhos os que guardam a memória coletiva dos seus. Eles sabem as canções sagradas, os rituais, eles conhecem os caminhos, as plantas, eles guardam as histórias de luta travadas desde sempre, eles são os guardiões. Quando um desses anciões se vai, é como se uma imensa biblioteca se extinguisse. E daí, o legado esperado e necessário é que ele tenha conseguido passar para as novas gerações toda essa sabedoria, todo esse conhecer. Ainda assim, a perda é grande, e é pranteada como tem que ser. Os indígenas reverenciam seus velhos. 

Agora, com a pandemia, muitos desses sábios, de tantas etnias, estão indo embora. E não precisariam. Sem a doença talvez ainda vivessem muitos anos mais. Mas, os que vivem nas comunidades tem sempre mais dificuldade de enfrentar as doenças dos não-índios, seus corpos não estão preparados, ainda que já tenham se passado mais de 500 anos de contato. E a Covid-19 tampouco é um flagelo dos deuses. Ela é coisa dos homens. Desde que o novo coronavírus chegou ao Brasil as comunidades tentam se proteger. Mas, não é fácil. O governo lhes nega proteção, e tanto que o presidente chegou a vetar uma proposta de garantia de medicamentos, leitos e respiradores. Para os governantes é bom que morram, assim os amigos latifundiários, mineradores, podem se adonar das terras. Por isso lhes deixam à própria sorte. Eles se protegem como podem, e ainda precisam enfrentar jagunços, pistoleiros, grileiros, invasores e toda a sorte de criminosos cercando suas aldeias e ajudando a infectar ainda mais as gentes. 

Os indígenas do Brasil tiveram de entrar com uma ação no Supremo Tribunal Federal para exigir que o governo cumpra a Constituição, que lhes garante proteção. E ainda assim, o governo não cumpre. É como se estivéssemos de novo em 1500, com as hordas de homens doentes de gripe, sífilis e tuberculose, infectando e matando milhares, sem que ninguém se importasse. Não há lei. Não há garantia. Não para os povos originários. 

E, por conta desse descaso, desse crime contra as gentes indígenas, as etnias vão perdendo seus velhos, seus xamãs, seus guerreiros, seus guias. Já são mais de 900 mortes. Pode parecer pouco, mas não é. Quem perde uma vida, perde um mundo. E nas comunidades isso é ainda mais real. Seriam então os indígenas especiais? Mais do que qualquer outro morto, desses 100 mil que já semeiam nosso chão? Não, eles não são especiais. São distintos. Por sua condição de aldeados deveriam ser protegidos pelo governo. É o que diz a Constituição. Eles vivem de outro modo, em comunidade, muitas vezes juntos, em grandes espaços. Um único caso de Covid-19 pode por a perder uma aldeia inteira. Haveria que impedir a entrada de não-índios nas  terras, haveria que realizar testagens, haveria que garantir atendimento médico, criar barreiras sanitárias, proteger os isolados. 

É fato de que os cuidados com a vida indígena são escassos nos tempos ditos “normais”. Desde sempre as demandas precisam ser garantidas na luta. Mas, agora, no contexto da pandemia, piorou, porque não leva em conta a especificidade das etnias, suas fragilidades. Não há Ministério da Saúde, não há Funai, é um salve-se quem puder. E, como podem, as populações vão se defendendo, mas até quando fazem isso por conta própria, com grupos de proteção, são criticados.  Na floresta, nos cantões do Brasil, nas profundezas da nação, onde ainda vivem e lutam os originários, parece que o 1500 ainda não acabou. E é real. 

Agora, com a decisão do STF, obrigando o governo a ter um plano para os indígenas, novas comissões serão formadas e toda a burocracia que isso traz. Não garante em nada a proteção. Vai ser preciso muita batalha. 

Enquanto isso, seguem as mortes. Porque não há proteção nem para os indígenas nem para os trabalhadores. 

No triste adeus ao grande cacique Aritana, o adeus a todas as almas que foram para o grande espírito. Cedo demais, cedo demais...

O drama das populações indígenas na Guatemala


19 de julho de 2020

Há poucos dias um caso brutal de tortura e assassinato de um sacerdote maya na Guatemala levantou o debate sobre a “selvageria” da população daquele pequeno país da América Central. Moradores de uma comunidade sequestraram o sacerdote, torturaram e depois o queimaram vivo, acusando-o de ter causado uma doença em um familiar. A antropóloga e professora Irma Velasquez Nimatuj, que é da etnia maya k´ichee´, mostra todo o contexto histórico de violência, opressão e genocídio contra as populações indígenas, desde a invasão até os dias atuais. Ela observa que as políticas de extermínio, a presença das igrejas católica e neopentecostais e o completo abandono do Estado são as raízes quase nunca expostas de casos como esse. Antes então de chamar de bárbaros aos moradores da comunidade, cumpre entender a realidade da Guatemala e a situação de violência sistemática a que estão submetidas populações indígenas e empobrecidas. Uma conversa larga, mas necessária.

Entrevista: Elaine Tavares

Guatemala: un asesinato espantoso en una sociedad enferma


16 de julho de 2020

Texto de Rafael Cuevas Molina

Guatemala es un país desgarrado, una sociedad castigada sin clemencia, un cuerpo que ha sido vapuleado casi hasta el exterminio a través de toda su historia. Un lugar en el que se han experimentado los métodos más crueles para reprimir los reclamos justos de la población.

En Guatemala ha sucedido algo espantoso: don Domingo Choc Che, guía espiritual maya, ha sido asesinado por una turba enardecida. Le prendieron fuego ante una multitud que celebró con gritos su transformación en pira humana. Le vieron correr, ardiendo, unos con las manos en los bolsillos, como si de observar un espectáculo deportivo se tratara, otros alertando que el linchado no alcanzara un grifo que le permitiera apagarse.

¿Cómo ha llegado este país a ese nivel de salvajismo, un país heredero de una de las más ricas y refinadas culturas precolombinas; lleno de hermosas expresiones de cultura popular; con un legado literario que se remonta hasta antes de la llegada de las huestes europeas? 

Guatemala es un país desgarrado, una sociedad castigada sin clemencia, un cuerpo que ha sido vapuleado casi hasta el exterminio a través de toda su historia. Un lugar en el que se han experimentado los métodos más crueles para reprimir los reclamos justos de la población. Y todo esto, sobre una estructura fracturada por una herencia colonial terriblemente racista en el que una minoría desprecia, e incluso niega su humanidad, al resto. Una minoría que no vacila en utilizar la violencia indiscriminadamente.

En Guatemala pudimos enrumbarnos en otra dirección, pero la posibilidad nos fue cercenada de cuajo. Entre 1944 y 1954 se experimentó una apertura democrática que no fue tolerada por la oligarquía local, obtusa y atrasada, y los Estados Unidos de América. Dieron un cruento golpe de Estado que instauró una larga historia de gobiernos militares represivos que tuvieron como norte fundamental reprimir la protesta.

El culmen de este autoritarismo militar fue el genocidio perpetrado a inicios de la década de 1980. Esa fue la expresión más acabada de más de 30 años de salvaje represión. Salvaje porque quien conozca en detalle los crímenes ahí cometidos podría no dar crédito a tantos horrores. 

La población guatemalteca es muy religiosa. El cristianismo utilizado como arma de dominación ideológica por los conquistadores caló profundamente. En los años 70 y 80, la Teología de a Liberación dio un giro a la secular interpretación de tal religión, que hasta entonces orientaba a la sumisión, y se constituyó en poderosa herramienta contestación y permitió la organización popular.

La respuesta fue la promoción de un cristianismo de nuevo cuño, el de las iglesias protestantes pentecostales y neopentecostales, que fue erigido como contraofensiva ideológica. El principal gestor de esta estrategia contrainsurgente de largo aliento fue, nuevamente, los Estados Unidos de América. El primer documento que da cuenta de ello es el Informe Rockefeller, en fecha tan temprana como 1966.

Guatemala ha sido un país en el que se han experimentado estrategias de dominación que luego, con sus variantes, han sido aplicadas en el resto del continente. El golpe de Estado de 1954 lo fue. Lo fue también la guerra contrainsurgente que abarcó toda la segunda mitad del siglo XX. Y lo fue el experimento de inoculación social de iglesias del tipo antes descrito. Susanne Jonas habla de Guatemala como “plan piloto” para el continente.

El resultado: una sociedad fracturada, con sus lazos sociales destramados, fanatizada por núcleos de irracionalidad religiosa, que ve “brujería” y “cosas del diablo” en las expresiones de sabiduría ancestral como las que practicaba don Domingo Choc Che.

El cóctel es explosivo: pobreza extrema, racismo, fanatismo religioso, violencia institucionalizada, familias divididas por la masiva migración hacia el norte, cruenta explotación laboral. Don Domingo Choc es una víctima de un sistema inoperante, corrupto y cínico que se expresó a través de una comunidad que también es, a su vez, víctima.

Solo un cambio radical que barra con tanta podredumbre, y que no se avizora en el horizonte, puede poner fin al horror que prevalece.

Aldevan Baniwa, a vítima da Covid-19 que ensinava pesquisadores a ver


5 de maio de 2020

Texto de Maria Fernanda Ribeiro

Agente de saúde morreu no dia 18, em Manaus, em luta contra a doença e contra a desigualdade; um dos autores do livro “Brilhos na Floresta”, ele ensinou cientistas estrangeiros a observar cogumelos e fungos na escuridão da mata

O indígena Aldevan Baniwa caminhava pela mata na companhia de um professor japonês que nada entendia da língua portuguesa ou tampouco nutria conhecimento sobre aquele espaço de floresta, nos arredores de Manaus. O cientista do outro lado do mundo estava na companhia do guia certo e sabia que com ele a jornada não seria em vão: o aprendizado viria. A pesquisadora Noemia Kazue Ishikawa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), era o laço que unia os dois. E a tradutora necessária para que os diálogos fluíssem. Ou ao menos achava que era. Ela, que não estava num bom dia, precisou descansar após a caminhada e dormiu na rede por algumas horas.

Ao despertar, perguntou a si mesma como é que os dois amigos se viravam sem a sua presença e foi quando percebeu que ambos encontraram na língua inglesa uma maneira para se comunicarem e, juntos, preparavam um almoço que unia a alta tecnologia de arroz pré-cozido e esterilizado, uma contribuição do professor Keisuke Tokimoto, e peixe jaraqui na brasa, preparado pelo Aldevan. Uma verdadeira junção de saberes tradicionais e científicos em um almoço só.

Aldevan tinha esse dom, de unir a ciência aos saberes tradicionais onde quer que estivesse, fosse em português, inglês ou nheengatu. Era sempre um encontro de saberes, uma parceria mágica. Mas, no dia 18 de abril, o indígena de 46 anos nascido na comunidade Tapuruquara, em Santa Isabel do Rio Negro, foi mais uma vítima da Covid-19 no país e morreu, mas não sem antes denunciar em suas redes sociais o descaso com os profissionais que atuavam na linha de frente no combate à pandemia em meio ao caos no Amazonas.

ELE PASSOU MAL DUAS SEMANAS SEM SER TESTADO

Ele também era um deles. Funcionário da Fundação Vigilância em Saúde (FVS), o Baniwa — uma etnia com cerca de 15 mil indivíduos na fronteira com Colômbia e Venezuela — divulgou um texto sobre a falta de testes. Ele passava mal havia duas semanas e não conseguiu acesso ao recurso.

Para quem o conhecia, era óbvio que ele não ficaria calado. Aldevan era, acima de tudo, um ser humano combativo, que lutava contra as injustiças e as desigualdades, em defesa do seu povo e da sociedade. “Ele era um crítico do sistema”, diz o irmão André Brazão. Segundo ele, Aldevan era aquele que brigava pelo descaso da categoria e sempre estava à frente das reivindicações. “E deixou um legado de que é possível a gente mudar o mundo”.

O resultado positivo para a Covid-19 saiu no sábado, dia 25 de abril, uma semana após a sua morte. Como morava na cidade, Aldevan não fará parte das estatísticas de óbitos entre indígenas computados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão do Ministério da Saúde responsável pelos dados, mas que considera em sua base apenas os que vivem nas comunidades. Até o momento, de acordo com levantamento do De Olho nos Ruralistas, já são 15 óbitos. Para a Sesai, são cinco.

Aldevan foi o terceiro indígena a morrer por coronavírus na cidade. No mesmo dia em que faleceu, outros três agentes de endemia tiveram o mesmo destino. Ele foi enterrado no cemitério Tarumã, em Manaus, quando foram feitos mais 130 sepultamentos, uma média três vezes maior que antes da pandemia.

‘VOCÊ NUNCA VIU ANTES PORQUE NÃO APAGAVA A LANTERNA’

Poucos meses antes de sua morte, nascia o Aldevan escritor, que revelou ao mundo a existência dos cogumelos bioluminescentes e que marcou a entrada dele na literatura, não somente na indígena, mas também na científica. “Brilhos na Floresta” é uma novela gráfica que mostra como se encontram os cogumelos e fungos luminosos na escuridão da mata.

Em uma das passagens mais emblemáticas, narrada pelo o antropólogo José Bessa, ele guia pela noite os pesquisadores ávidos para verem de perto aquilo que o indígena há muito já conhecia. Em determinado momento Aldevan pede que todos apaguem suas lanternas.

E se faz a mágica. Os cogumelos coloridos e luminosos surgem, num espetáculo jamais imaginado de cores e luzes. O biólogo Takehide Ikeda faz a pergunta que transformaria a resposta de Aldevan numa espécie de manual prático para a vida.

— Já andei muito por florestas. Por que será que nunca vi isso antes?

— Porque você nunca apagou a lanterna. Os cientistas deviam saber que nem tudo que a gente procura, pode ser encontrado iluminando. Às vezes, para ver, é preciso desiluminar.

Naquele momento se apresentava a sabedoria milenar de quem nasceu na floresta, filho de um pai Baniwa e mãe Tukano, povo com uma população de cerca de 11 mil pessoas, na mesma região dos Baniwa.

“Ele matou a charada com essa frase, de que é preciso apagar a luz para enxergar certas coisas”, avalia Bessa. “Aldevan apresenta a possibilidade de trazer esse conhecimento indígena em diálogo com a ciência. Ele tinha acabado de nascer como escritor e é como se tivesse morrido logo após o parto”.

“Às vezes, para ver, é preciso desiluminar”

O livro “Brilhos da Floresta” foi escrito em quatro línguas: nheengatu, português, japonês e inglês, e se trata de uma contribuição para o conhecimento da biodiversidade na Amazônia. Aldevan e a ex-mulher Ana Carla Bruno são dois dos autores, junto com os pesquisadores Noemia e Takehide, além da ilustradora Hadna Abreu. A obra foi lançada no fim do ano passado pela Editora Valer, em parceria com a editora Inpa.

A noite de autógrafos aconteceu na tradicional Banca do Largo, em Manaus, do icônico Joaquim Melo, que reúne em um pequeno espaço os livros mais interessantes — e raros — de toda a Amazônia. Aldevan estava feliz. E Joaquim não escondia o orgulho de lançar ali aquela obra. Ele sabe reconhecer grandes autores.

OBSERVADOR, PERSPICAZ, SILENCIOSO, SARCÁSTICO, ASTUTO

Para Noemia, parecia impossível que o homem que cuidava de todos pelas incursões pela floresta pudesse ser abatido. Ele, um agente de endemias experiente, era quem deixava as expedições com jeitão de que tudo daria certo. Antes mesmo de entrar na Fundação Vigilância em Saúde já tinha aprendido a ler lâminas com resultados para malária quando trabalhou de “faz-tudo” com os indígenas Waimiri-Atroari, isso lá pelos idos da década de 90.

Entrou na fundação após passar no concurso para agente de endemias. O trabalho era na rua, no trabalho de combate à dengue. Mas logo perceberam que Aldevan era habilidoso no computador e ele passou, então, a cuidar dos programas de mapeamento. Morreu como agente de combate à malária nas comunidades rurais, quase dez anos depois.

Se tinha medo? “Preocupação é com meus velhinhos”.

Observador e perspicaz. Silencioso, mas sarcástico. Provocativo e astuto. O bravo-manso. Era o jeito “aldevaniano” de ser, como nominou Ana Carla, com quem teve duas filhas. E nesse perfil cai bem lembrar que ele reinava absoluto também quando o assunto era um bom tambaqui na brasa. Ou um jaraqui, é claro.

O Baniwa era um poliglota. Ou quase. O inglês ele aprendeu quando acompanhou Ana Carla aos Estados Unidos. Chegou sem nem saber falar “goodbye” ou “good morning”, mas quando o casal voltou ao Brasil, cinco anos depois, desempregado, com as duas filhas que nasceram lá, ao menos a língua já fazia parte do seu dia-a-dia.

O nheengatu, que um dia foi a língua indígena mais falada no Brasil, é a herança da infância que ele e o irmão André preservaram mesmo após terem se mudado com os pais ainda crianças para Manaus, onde desenvolveram a língua portuguesa. “Espanhol ele também falava um pouco”, conta o irmão.

Ele e Ana Carla estavam separados há quatro anos, mas a ligação com as “meninas” e os sonhos que mantinham para elas, como viagens ao Rio Negro e uma volta aos Estados Unidos, os mantiveram conectados até o último dia de vida. Os amigos e Ana Carla revelavam preocupação com aquela febre que não passava e o mal-estar contínuo.

Aldevan respondia que estava tudo bem. Os mais próximos desconfiam que talvez ele soubesse que a sua vida já era uma dança mortal.

No último fim de semana antes de sua morte ainda colheu muitos cogumelos.

Há quem diga que a morte de Aldevan é uma luz que se apaga. Outros, que é só desligar as lanternas para perceber que ele ainda está lá. Ou aqui. Ou aí.

Reportagem publicada originalmente em "De olho nos ruralistas"