O drama das populações indígenas na Guatemala


19 de julho de 2020

Há poucos dias um caso brutal de tortura e assassinato de um sacerdote maya na Guatemala levantou o debate sobre a “selvageria” da população daquele pequeno país da América Central. Moradores de uma comunidade sequestraram o sacerdote, torturaram e depois o queimaram vivo, acusando-o de ter causado uma doença em um familiar. A antropóloga e professora Irma Velasquez Nimatuj, que é da etnia maya k´ichee´, mostra todo o contexto histórico de violência, opressão e genocídio contra as populações indígenas, desde a invasão até os dias atuais. Ela observa que as políticas de extermínio, a presença das igrejas católica e neopentecostais e o completo abandono do Estado são as raízes quase nunca expostas de casos como esse. Antes então de chamar de bárbaros aos moradores da comunidade, cumpre entender a realidade da Guatemala e a situação de violência sistemática a que estão submetidas populações indígenas e empobrecidas. Uma conversa larga, mas necessária.

Entrevista: Elaine Tavares

Guatemala: un asesinato espantoso en una sociedad enferma


16 de julho de 2020

Texto de Rafael Cuevas Molina

Guatemala es un país desgarrado, una sociedad castigada sin clemencia, un cuerpo que ha sido vapuleado casi hasta el exterminio a través de toda su historia. Un lugar en el que se han experimentado los métodos más crueles para reprimir los reclamos justos de la población.

En Guatemala ha sucedido algo espantoso: don Domingo Choc Che, guía espiritual maya, ha sido asesinado por una turba enardecida. Le prendieron fuego ante una multitud que celebró con gritos su transformación en pira humana. Le vieron correr, ardiendo, unos con las manos en los bolsillos, como si de observar un espectáculo deportivo se tratara, otros alertando que el linchado no alcanzara un grifo que le permitiera apagarse.

¿Cómo ha llegado este país a ese nivel de salvajismo, un país heredero de una de las más ricas y refinadas culturas precolombinas; lleno de hermosas expresiones de cultura popular; con un legado literario que se remonta hasta antes de la llegada de las huestes europeas? 

Guatemala es un país desgarrado, una sociedad castigada sin clemencia, un cuerpo que ha sido vapuleado casi hasta el exterminio a través de toda su historia. Un lugar en el que se han experimentado los métodos más crueles para reprimir los reclamos justos de la población. Y todo esto, sobre una estructura fracturada por una herencia colonial terriblemente racista en el que una minoría desprecia, e incluso niega su humanidad, al resto. Una minoría que no vacila en utilizar la violencia indiscriminadamente.

En Guatemala pudimos enrumbarnos en otra dirección, pero la posibilidad nos fue cercenada de cuajo. Entre 1944 y 1954 se experimentó una apertura democrática que no fue tolerada por la oligarquía local, obtusa y atrasada, y los Estados Unidos de América. Dieron un cruento golpe de Estado que instauró una larga historia de gobiernos militares represivos que tuvieron como norte fundamental reprimir la protesta.

El culmen de este autoritarismo militar fue el genocidio perpetrado a inicios de la década de 1980. Esa fue la expresión más acabada de más de 30 años de salvaje represión. Salvaje porque quien conozca en detalle los crímenes ahí cometidos podría no dar crédito a tantos horrores. 

La población guatemalteca es muy religiosa. El cristianismo utilizado como arma de dominación ideológica por los conquistadores caló profundamente. En los años 70 y 80, la Teología de a Liberación dio un giro a la secular interpretación de tal religión, que hasta entonces orientaba a la sumisión, y se constituyó en poderosa herramienta contestación y permitió la organización popular.

La respuesta fue la promoción de un cristianismo de nuevo cuño, el de las iglesias protestantes pentecostales y neopentecostales, que fue erigido como contraofensiva ideológica. El principal gestor de esta estrategia contrainsurgente de largo aliento fue, nuevamente, los Estados Unidos de América. El primer documento que da cuenta de ello es el Informe Rockefeller, en fecha tan temprana como 1966.

Guatemala ha sido un país en el que se han experimentado estrategias de dominación que luego, con sus variantes, han sido aplicadas en el resto del continente. El golpe de Estado de 1954 lo fue. Lo fue también la guerra contrainsurgente que abarcó toda la segunda mitad del siglo XX. Y lo fue el experimento de inoculación social de iglesias del tipo antes descrito. Susanne Jonas habla de Guatemala como “plan piloto” para el continente.

El resultado: una sociedad fracturada, con sus lazos sociales destramados, fanatizada por núcleos de irracionalidad religiosa, que ve “brujería” y “cosas del diablo” en las expresiones de sabiduría ancestral como las que practicaba don Domingo Choc Che.

El cóctel es explosivo: pobreza extrema, racismo, fanatismo religioso, violencia institucionalizada, familias divididas por la masiva migración hacia el norte, cruenta explotación laboral. Don Domingo Choc es una víctima de un sistema inoperante, corrupto y cínico que se expresó a través de una comunidad que también es, a su vez, víctima.

Solo un cambio radical que barra con tanta podredumbre, y que no se avizora en el horizonte, puede poner fin al horror que prevalece.

Aldevan Baniwa, a vítima da Covid-19 que ensinava pesquisadores a ver


5 de maio de 2020

Texto de Maria Fernanda Ribeiro

Agente de saúde morreu no dia 18, em Manaus, em luta contra a doença e contra a desigualdade; um dos autores do livro “Brilhos na Floresta”, ele ensinou cientistas estrangeiros a observar cogumelos e fungos na escuridão da mata

O indígena Aldevan Baniwa caminhava pela mata na companhia de um professor japonês que nada entendia da língua portuguesa ou tampouco nutria conhecimento sobre aquele espaço de floresta, nos arredores de Manaus. O cientista do outro lado do mundo estava na companhia do guia certo e sabia que com ele a jornada não seria em vão: o aprendizado viria. A pesquisadora Noemia Kazue Ishikawa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), era o laço que unia os dois. E a tradutora necessária para que os diálogos fluíssem. Ou ao menos achava que era. Ela, que não estava num bom dia, precisou descansar após a caminhada e dormiu na rede por algumas horas.

Ao despertar, perguntou a si mesma como é que os dois amigos se viravam sem a sua presença e foi quando percebeu que ambos encontraram na língua inglesa uma maneira para se comunicarem e, juntos, preparavam um almoço que unia a alta tecnologia de arroz pré-cozido e esterilizado, uma contribuição do professor Keisuke Tokimoto, e peixe jaraqui na brasa, preparado pelo Aldevan. Uma verdadeira junção de saberes tradicionais e científicos em um almoço só.

Aldevan tinha esse dom, de unir a ciência aos saberes tradicionais onde quer que estivesse, fosse em português, inglês ou nheengatu. Era sempre um encontro de saberes, uma parceria mágica. Mas, no dia 18 de abril, o indígena de 46 anos nascido na comunidade Tapuruquara, em Santa Isabel do Rio Negro, foi mais uma vítima da Covid-19 no país e morreu, mas não sem antes denunciar em suas redes sociais o descaso com os profissionais que atuavam na linha de frente no combate à pandemia em meio ao caos no Amazonas.

ELE PASSOU MAL DUAS SEMANAS SEM SER TESTADO

Ele também era um deles. Funcionário da Fundação Vigilância em Saúde (FVS), o Baniwa — uma etnia com cerca de 15 mil indivíduos na fronteira com Colômbia e Venezuela — divulgou um texto sobre a falta de testes. Ele passava mal havia duas semanas e não conseguiu acesso ao recurso.

Para quem o conhecia, era óbvio que ele não ficaria calado. Aldevan era, acima de tudo, um ser humano combativo, que lutava contra as injustiças e as desigualdades, em defesa do seu povo e da sociedade. “Ele era um crítico do sistema”, diz o irmão André Brazão. Segundo ele, Aldevan era aquele que brigava pelo descaso da categoria e sempre estava à frente das reivindicações. “E deixou um legado de que é possível a gente mudar o mundo”.

O resultado positivo para a Covid-19 saiu no sábado, dia 25 de abril, uma semana após a sua morte. Como morava na cidade, Aldevan não fará parte das estatísticas de óbitos entre indígenas computados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão do Ministério da Saúde responsável pelos dados, mas que considera em sua base apenas os que vivem nas comunidades. Até o momento, de acordo com levantamento do De Olho nos Ruralistas, já são 15 óbitos. Para a Sesai, são cinco.

Aldevan foi o terceiro indígena a morrer por coronavírus na cidade. No mesmo dia em que faleceu, outros três agentes de endemia tiveram o mesmo destino. Ele foi enterrado no cemitério Tarumã, em Manaus, quando foram feitos mais 130 sepultamentos, uma média três vezes maior que antes da pandemia.

‘VOCÊ NUNCA VIU ANTES PORQUE NÃO APAGAVA A LANTERNA’

Poucos meses antes de sua morte, nascia o Aldevan escritor, que revelou ao mundo a existência dos cogumelos bioluminescentes e que marcou a entrada dele na literatura, não somente na indígena, mas também na científica. “Brilhos na Floresta” é uma novela gráfica que mostra como se encontram os cogumelos e fungos luminosos na escuridão da mata.

Em uma das passagens mais emblemáticas, narrada pelo o antropólogo José Bessa, ele guia pela noite os pesquisadores ávidos para verem de perto aquilo que o indígena há muito já conhecia. Em determinado momento Aldevan pede que todos apaguem suas lanternas.

E se faz a mágica. Os cogumelos coloridos e luminosos surgem, num espetáculo jamais imaginado de cores e luzes. O biólogo Takehide Ikeda faz a pergunta que transformaria a resposta de Aldevan numa espécie de manual prático para a vida.

— Já andei muito por florestas. Por que será que nunca vi isso antes?

— Porque você nunca apagou a lanterna. Os cientistas deviam saber que nem tudo que a gente procura, pode ser encontrado iluminando. Às vezes, para ver, é preciso desiluminar.

Naquele momento se apresentava a sabedoria milenar de quem nasceu na floresta, filho de um pai Baniwa e mãe Tukano, povo com uma população de cerca de 11 mil pessoas, na mesma região dos Baniwa.

“Ele matou a charada com essa frase, de que é preciso apagar a luz para enxergar certas coisas”, avalia Bessa. “Aldevan apresenta a possibilidade de trazer esse conhecimento indígena em diálogo com a ciência. Ele tinha acabado de nascer como escritor e é como se tivesse morrido logo após o parto”.

“Às vezes, para ver, é preciso desiluminar”

O livro “Brilhos da Floresta” foi escrito em quatro línguas: nheengatu, português, japonês e inglês, e se trata de uma contribuição para o conhecimento da biodiversidade na Amazônia. Aldevan e a ex-mulher Ana Carla Bruno são dois dos autores, junto com os pesquisadores Noemia e Takehide, além da ilustradora Hadna Abreu. A obra foi lançada no fim do ano passado pela Editora Valer, em parceria com a editora Inpa.

A noite de autógrafos aconteceu na tradicional Banca do Largo, em Manaus, do icônico Joaquim Melo, que reúne em um pequeno espaço os livros mais interessantes — e raros — de toda a Amazônia. Aldevan estava feliz. E Joaquim não escondia o orgulho de lançar ali aquela obra. Ele sabe reconhecer grandes autores.

OBSERVADOR, PERSPICAZ, SILENCIOSO, SARCÁSTICO, ASTUTO

Para Noemia, parecia impossível que o homem que cuidava de todos pelas incursões pela floresta pudesse ser abatido. Ele, um agente de endemias experiente, era quem deixava as expedições com jeitão de que tudo daria certo. Antes mesmo de entrar na Fundação Vigilância em Saúde já tinha aprendido a ler lâminas com resultados para malária quando trabalhou de “faz-tudo” com os indígenas Waimiri-Atroari, isso lá pelos idos da década de 90.

Entrou na fundação após passar no concurso para agente de endemias. O trabalho era na rua, no trabalho de combate à dengue. Mas logo perceberam que Aldevan era habilidoso no computador e ele passou, então, a cuidar dos programas de mapeamento. Morreu como agente de combate à malária nas comunidades rurais, quase dez anos depois.

Se tinha medo? “Preocupação é com meus velhinhos”.

Observador e perspicaz. Silencioso, mas sarcástico. Provocativo e astuto. O bravo-manso. Era o jeito “aldevaniano” de ser, como nominou Ana Carla, com quem teve duas filhas. E nesse perfil cai bem lembrar que ele reinava absoluto também quando o assunto era um bom tambaqui na brasa. Ou um jaraqui, é claro.

O Baniwa era um poliglota. Ou quase. O inglês ele aprendeu quando acompanhou Ana Carla aos Estados Unidos. Chegou sem nem saber falar “goodbye” ou “good morning”, mas quando o casal voltou ao Brasil, cinco anos depois, desempregado, com as duas filhas que nasceram lá, ao menos a língua já fazia parte do seu dia-a-dia.

O nheengatu, que um dia foi a língua indígena mais falada no Brasil, é a herança da infância que ele e o irmão André preservaram mesmo após terem se mudado com os pais ainda crianças para Manaus, onde desenvolveram a língua portuguesa. “Espanhol ele também falava um pouco”, conta o irmão.

Ele e Ana Carla estavam separados há quatro anos, mas a ligação com as “meninas” e os sonhos que mantinham para elas, como viagens ao Rio Negro e uma volta aos Estados Unidos, os mantiveram conectados até o último dia de vida. Os amigos e Ana Carla revelavam preocupação com aquela febre que não passava e o mal-estar contínuo.

Aldevan respondia que estava tudo bem. Os mais próximos desconfiam que talvez ele soubesse que a sua vida já era uma dança mortal.

No último fim de semana antes de sua morte ainda colheu muitos cogumelos.

Há quem diga que a morte de Aldevan é uma luz que se apaga. Outros, que é só desligar as lanternas para perceber que ele ainda está lá. Ou aqui. Ou aí.

Reportagem publicada originalmente em "De olho nos ruralistas"

Governo brasileiro quer entregar terras indígenas à exploração


7 de fevereiro de 2020

O governo do Brasil encaminhou um projeto ao Congresso Nacional buscando liberar as áreas indígenas para mineração, geração de energia, agricultura e pecuária. Essa é uma promessa de campanha do atual presidente que finalmente foi colocada em andamento. Durante o primeiro ano de mandato, o presidente foi pródigo em declarações bombásticas contra os povos indígenas. Para ele, os indígenas ainda não são humanos e só o serão quando puderem produzir mercadorias. Daí esse projeto que visa tornar “produtivas” as terras que hoje conformam apenas 12% do território nacional, garantidos com muita luta pelas comunidades.

A decisão do governo vem no sentido de fortalecer o grupo de latifundiários, mineradores e empresas estrangeiras que desde há muito estão de olho nas riquezas das terras que os povos originários têm conseguido manter vivas e cheias de biodiversidade. Esse grupo de latifundiários, que representa apenas 1% da população brasileira, detém atualmente - conforme o Atlas do Agronegócio - mais de 51% das terras no Brasil. Não satisfeitos com isso eles querem as terras indígenas onde pretendem ampliar a fronteira agrícola e extrair petróleo, gás e outros minérios importantes.

O projeto encaminhado à Câmara dos Deputados autoriza a exploração e ainda define que serão permitidos estudos técnicos sobre as regiões pretendidas, sem que seja necessária a presença de estudiosos na área. Tudo poderá ser feito à distância com “dados e elementos disponíveis” (seja lá o que isso for). Na verdade, isso significa que com base em um laudo qualquer, de um amigo qualquer, sem qualquer contato com as populações envolvidas, a autorização poderá ser efetivada. Mais uma vez o governo ignora e tripudia o conhecimento construído ao longo dos anos, fruto do incansável trabalho de campo de inúmeros cientistas em parceria com as comunidades.

Esse conhecimento sobre a realidade brasileira também foi ironizado na fala do mandatário do país, quando declarou que os ambientalistas só atrapalham e que se fosse por ele seriam todos confinados na Amazônia. “Se um dia eu puder, confino eles lá, já que gostam tanto de meio ambiente”. Na verdade, o que ele chama de ambientalistas são estudiosos, pesquisadores, lutadores sociais que têm um conhecimento técnico, prático e acumulado sobre os ecossistemas e sabem muito bem o que pode acontecer se continuar a devastação desenfreada que tanto querem os latifundiários e outros empresários rurais.

Os representantes do governo dizem que os povos indígenas serão consultados sobre os projetos e terão poder de veto sobre ações de garimpo. Mas, a considerar o que já acontece atualmente, com o aumento da violência nas regiões de terras indígenas, com a ação desinibida de jagunços e pistoleiros, não resta dúvida de que essa “consulta” está sob suspeita, visto que poderá ser feita a ponta de bala.
Também não se deve descartar a possibilidade de persuasão de algumas comunidades já bastante enredadas no modo de produção capitalista. A possibilidade de ganhar dinheiro arrendando as terras ao garimpo ou à agricultura poderá levar muitas comunidades a aceitar a transação, justamente porque vivem em situação de abandono por parte do poder público. A sedução do mundo capitalista é grande e o governo vai apostar muitas fichas nisso. É o que já afirma o presidente quando diz que os indígenas não têm hoje autonomia e que com esse projeto poderão de “libertar”, podendo servir ao capital sem qualquer amarra. Ele busca dividir para reinar com eficácia.

Mas, dentre as mais de 300 etnias que vivem hoje no Brasil, a maioria tem se colocado contra a proposta, porque sabe que essa é a porta aberta para a destruição do seu modo de vida e também do ambiente, com o qual consegue estabelecer uma relação harmônica. Para a população indígena, não há desconexão entre a terra e o ser humano. Tudo está ligado e precisa ser trabalhado de forma a manter o equilíbrio. Explorar a terra, exauri-la em projetos como a mineração ou a agricultura extensiva é matar também o seu próprio modo de ser. Por isso a reação a esse projeto será à altura.

Desde o início do atual governo, em janeiro do ano passado, que as entidades indígenas e as comunidades têm atuado em consequência. Atos em Brasília, marchas, recorridos internacionais, muita luta têm acontecido para denunciar a proposta e para conseguir apoio tanto dentro quanto fora do Brasil. As comunidades sabem que a proposta visa unicamente destruir qualquer forma de resistência da vida originária. Incluir os povos indígenas no modo de produção capitalista é condená-los à exploração, à miséria, à morte. Perder o controle sobre o território é perder tudo.

A ganância dos latifundiários, o ódio aos índios, e o desejo do capital em incorporar mais de um milhão de seres ao seu exército de escravidão serão elementos poderosos nessa batalha. Mas, para quem resiste desde há mais de 500 anos, isso não é novidade. Está duro, está mais escrachado, mas nunca foi muito diferente. Os indígenas lutarão e com eles muitos apoiadores. E como diz o ditado popular, “enquanto houver bambu, vai flecha”. Nada está perdido.

O rescaldo das lutas no Equador


16 de outubro de 2019

O Equador voltou a viver certa normalidade depois das jornadas de luta protagonizadas pelos povos originários, com a participação também da Frente Unitária de Trabalhadores, estudantes e outros movimentos sociais, contra o que chamaram de pacotaço, uma medida do governo que cortava o subsídio à gasolina (que já existe há 40 anos), elevando o preço do galão de 1,85 dólares para 2,39. Além disso, o decreto também atingia direitos já conquistados pelos trabalhadores e implicaria em novas medidas de ajustes com incidência na vida geral. Definia ainda uma redução de salários de até 20% para os trabalhadores contratados temporariamente pelo setor público, reduzia as férias dos trabalhadores públicos de 30 para 15 dias e exigia deles o valor de um dia de salário por mês para o fisco. Por outro lado dava vantagens aos empresários para compra de maquinaria e eliminava impostos da importação de tecnologia.

O argumento do governo para a assinatura do tal decreto é de que o Equador se encontra numa tremenda crise fiscal, com o acúmulo de déficit de 39 bilhões de dólares desde 2007. Só com o corte dos subsídios, Moreno esperava economizar dois bilhões e 273 mil dólares, e com as demais medidas pretendia chegar a cobrir 57% do total. E, com esse decreto, cumpria ordens do FMI, que prometia novo empréstimo de pouco mais de quatro (04) bilhões de dólares. Ou seja, nem resolveria o problema, e ainda projetava mais dívida e mais ajuste para chegar aos 100% do suposto rombo. Como os movimentos sociais sabem muito bem fazer contas, também souberam o que fazer: levantar os protestos.

Foram 11 dias de mobilização intensa nos quais os indígenas promoveram cortes de estradas, protestos nas comunidades, declararam estado de exceção e realizaram uma marcha até a capital, Quito, a qual foi tomada por mais de 20 mil originários vindos de diversas partes do país. Nesse dia, conclamado como greve geral, ao se unirem também trabalhadores urbanos e estudantes, a população em luta colocou o presidente Lenín Moreno em fuga, e ele instalou o governo na cidade de Guayaquil, bem como desatou uma violenta repressão contra os manifestantes. O saldo da jornada é de sete vidas perdidas, centenas de feridos e mais de 1.500 presos.

Mas, como já é tradição na luta indígena equatoriana, a repressão brutal não esmoreceu a luta e a saída do presidente foi convocar uma mesa de diálogo, finalmente aceita pelos movimentos, ainda que com o firme propósito de só avançar na conversa se houvesse a anulação do decreto 883. Do ponto de vista dos povos originários, a intenção não era derrubar o governo, tal como anunciara Lenín, inclusive acusando a Venezuela de estar ajudando nos conflitos, o que é uma total bobagem, pois a Venezuela está ela mesma vivendo um ataque sistemático por parte do império estadunidense. Os conflitos e o levante originário só aconteceram porque o decreto imposto pelo FMI e aceito por Lenín Moreno colocaria o Equador num atoleiro bem maior do que já está.

A batalha com as comunidades indígenas vem de longe. Mesmo durante o governo de Rafael Correa, que foi apoiado pelo movimento, os conflitos foram intensos, pois os originários não aceitam a lógica extrativista predatória implementada pelo governo. Quando Moreno se colocou como candidato fez muitas promessas às comunidades e chegou a chamar lideranças importantes do movimento indígena para seus ministérios. Só que apesar da aparente cooptação, a relação dos povos originários com o poder do estado sempre esteve relacionada com a forma como o estado responde às suas demandas.

Já houve o caso de esse mesmo movimento indígena ter colocado um presidente para correr, definitivamente, como aconteceu no ano de 2005 com a derrubada de Lúcio Gutiérrez, dirigente de direita, de ascendência indígena, que também defraudou o movimento, não cumprindo com os acordos e aprofundando medidas de corte neoliberal. Naquele ano, com mais de 50 mil pessoas (com protagonismo indígena) ocupando a capital, Quito, a população logrou garantir a renúncia de Gutiérrez e tão logo ela foi anunciada, o “paro” foi levantado e os comunheiros retornaram para suas vidas, deixando suas demandas com os novos dirigentes. Até então nunca fora cogitado tomar o palácio e instituir um governo indígena.

Durante o governo de Rafael Correa as relações estiveram bem por algum tempo e logo que os conflitos começaram, principalmente por conta da defesa da água contaminadas pela mineração, o próprio governo começou a atacar movimentos, em especial os reunidos na CONAIE (Confederação das Nacionalidades Indígenas no Equador), acusando-os de estarem aliados com a direita e com a proposta de retorno de Gutiérrez. Outra bobagem imensa. Os dirigentes indígenas são claros: não estão colados a esses conceitos de direita e esquerda. Querem respaldo para suas demandas, proteção ao território, à água, condições de existirem dentro dos seus supostos culturais, econômicos e políticos. Isso não significa que não compreendam estar mergulhados dentro do sistema capitalista, no qual esses conceitos de direita e esquerda tem mais sentido. Ocorre que trabalham numa outra sincronia. Isso também não significa romantizar o movimento indígena como um espaço de pureza, até porque existem algumas nacionalidades muito bem integradas no sistema capitalista de produção e bastante interessadas em que tudo fique como está. O que se tem de compreender é que são as condições materiais da vida da maioria que determinam os levantes.

Agora, com a instalação da mesa e o fechamento de mais um acordo, de novo surgem as críticas ao movimento, alegando de que está se aliando a Moreno outra vez. E de novo, os indígenas observam essas acusações com sua atávica paciência.  Sabem que foi a força originária que derrotou esse decreto. Conhecem sua capacidade de mobilização e apresentarão suas propostas. Eles querem que o tal déficit anunciado pelo governo seja atacado não com mais empréstimos que gerarão mais déficits e apresentam ideias simples como a eliminação do pagamento aos ex-presidentes, a recuperação do que tem sido roubado pela corrupção, a suspensão do perdão de dívidas do empresariado, a renegociação dos contratos, a focalização dos subsídios.

Por outro lado, como sempre acontece depois de manifestações tão intensas de força por parte das organizações populares, o governo joga diferentemente com cada mão. Com uma oferece a mesa e a possibilidade de os indígenas e trabalhadores urbanos participarem da formulação de propostas, e com a outra vai atuando na lógica do terrorismo de estado, atacando lideranças isoladamente, como a prefeita de Pichincha, por exemplo, que está com prisão preventiva por ter apoiado os protestos. E nada garante que nos próximos dias não apareçam notícias de assassinatos aqui e ali, nas comunidades que estiveram em levante. Todos sabem disso, se protegem como dá e avançam.

É fato de que se há incompreensão por parte dos trabalhadores urbanos não-índios sobre a luta indígena, também parece necessário aos movimentos indígenas avançarem na discussão sobre até onde podem ir sozinhos. Na luta contra o capital, que é global e internacional, as batalhas precisariam ser travadas em conjunto, por todos os explorados, índios e não-índios, tendo consciência de que o inimigo é justamente esse sistema de produção que afeta a existência material de todos os que não estão na bolha do 1%. Ao capitalismo não interessa nem a natureza, nem o humano. Tudo é visto como “recurso” para geração de lucro. Se um humano cai, outro é reposto. Se um lugar se esgota, partem para outro. E assim vai o capital, feito uma nuvem de gafanhotos, arrasando tudo o que toca. E essa é essa nuvem que precisa ser destruída. Sem essa vitória geral, as vitórias particulares serão só resistência e o massacre continuará. O bem viver não tem como existir no capitalismo.