Governo do Equador recua diante da mobilização indígena





















Ministra do Interior diz que vai analisar o recurso da Conaie para permanecer na casa

Enquanto o presidente Rafael Correa falava de sua "revolução cidadã" em Pequim, buscando parcerias econômicas e comerciais com a China, no Equador, o dia era de luta para os indígenas ameaçados de expulsão da sede da CONAIE, a Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador. Extinguia-se nesse seis de janeiro o prazo dado pelo governo para que a histórica entidade, uma das mais importantes do mundo, deixasse o prédio que ocupa em comodato desde há décadas.

Desde domingo várias entidades indígenas, de diversos lugares do país tinham iniciado uma marcha até a capital visando o cerco ao prédio e a resistência, caso a polícia tentasse desalojar a entidade pela força. Quando o dia amanheceu milhares de pessoas já marchavam em direção a sede da CONAI, na Avenida de los Granados,  dispostos a não arredar pé. Já no início da manhã foi instalada uma Assembleia Extraordinária, a qual virou espaço de manifestações. O presidente da entidade, Jorge Herrera, deixou claro a importância da CONAIE: "A partir dessa casa temos discutido e aprofundado as propostas para a construção de uma sociedade mais justa. Por isso decidimos que se pretendem nos tirar daqui, hão de nos tirar mortos, porque essa casa é do povo".

Também fez uso da palavra o presidente da CONFENIAE, Franco Viteri, que igualmente reiterou: "essa casa é território das nacionalidades e dos povos, aqui aprendeu o mesmo presidente Correa, portanto não vamos abandoná-la. Se o presidente pretende nos tirar daqui, estará contradizendo todo o princípio de plurinacionalidade e indo contra seu próprio discurso.  Outra liderança indígena, Carlos Pérez, assinalou que a casa da CONAIE agora se constituía um símbolo da resistência indígena. "Esse edifício é fruto da luta do movimento indígena, do levantamento dos anos 90 e por isso vamos defender a memória histórica de nosso povo".

E assim foram se sucedendo as falas e o compromisso de lideranças populares de tantas organizações equatorianas na defesa da CONAI e do seu direito de permanecer na casa que foi conquistada ao longo de décadas de luta. Não faltaram também as manifestações cerimoniais de proteção da casa e da luta indígena, como a realizada por um grupo de chasquis que caminhou pelo país desde o dia 29 de dezembro. Eles entregaram oferendas ao presidente da CONAIE e desejaram os melhores augúrios ao seu Conselho de Governo. Foi um momento de profunda emoção.

Durante o desenrolar do encontro e das manifestações foi divulgado que a ministra do Interior, Betty Tola, havia suspendido o desalojo e que iria analisar o recurso interposto pela entidade. Segundo ela, nova decisão deverá sair em dois meses.

O informe saído do ministério do interior foi saudado como um importante ganho ocasionado pela intensa mobilização. Ao se encerrar a assembleia, a resolução final foi a decisão de permanecer na sede da entidade e começar a partir daquele momento mais uma processo de fortalecimento das entidades de base, que sustentam esse gigante que é a CONAIE. O objetivo é manter toda a gente em movimento durante esse dois meses nos quais o governo deverá discutir o recurso.

Depois de encerrada a assembleia, em meio a cerimônias e cantorias, os delegados e apoiadores realizaram uma caminhada pelas ruas de Quito até o Palácio da República, mostrando que as nacionalidades indígenas do Equador está de pé, em luta e não desistirão de manter sua sede histórica.  

Foi mais um dia de batalha pela consolidação daquilo que está na Constituição, mas que segue sendo esquecido pelo mandatário equatoriano: a plurinacionalidade e o bem viver. Nos cartazes e nas falas dos indígenas, a consigna que deverá seguir ecoando pelos meses afora que se configurarão em novas lutas: "Por nossa história, por nossa luta, da nossa casa, ninguém nos tira".


Com informações da CONAIE Comunicación.

Os índios estão de pé!


















por elaine tavares

A nova ministra da Agricultura, Kátia Abreu, que é representante máxima do agronegócio no Brasil,  em entrevista ao jornal Folha de São Paulo disse, reportando-se a uma pergunta sobre os conflitos fundiários com os indígenas brasileiros, que isso só tem acontecido porque os "índios saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção".

Essa frase singela mostra o quanto a fazendeira desconhece a história do país da qual hoje está ministra. Para Kátia, lugar de índio parece ser apenas a profundeza da floresta amazônica, reforçando assim o estereótipo do "selvagem" que, ou se integra no mundo branco como base da pirâmide, ou que fique "no seu lugar", que é, obviamente, o recôndito da selva. Nada poderia ser mais patético, embora outra coisa não se pudesse esperar de alguém que certamente apenas conhece as fronteiras do seu latifúndio e o dos seus iguais.

Os indígenas brasileiros não são exclusividade da floresta amazônica, embora aquela região abrigue a maior parte das etnias. Eles estão em todos os estados do país, em regiões que em nada pode lembrar a "floresta". Ocupam áreas - muitas delas ainda não demarcadas - que muito mais parecem prisões insalubres do que território digno de vida. Raros são os grupos que já conseguiram demarcar territórios capazes de conter toda sua cosmovisão e de garantir o livre acesso a sua cultura. Outros tantos aguardam nas margens das rodovias, morrendo como moscas, que o governo demarque as terras que lhes são de direito.

Os indígenas brasileiros ocupam a imensidão do que hoje é o Brasil muito antes que os  mais remotos ascendentes de Kátia Abreu tivessem aberto seus olhos para o mundo e, quando aqui chegaram os invasores portugueses roubando-lhes as terras, eles  circulavam livremente pelo território que, então, tinha as fronteiras étnicas muito bem demarcadas. Logo, não são eles que estão "descendo para as áreas de produção", como entende a ministra, com sua mente de colonizadora do século XVI. É o contrário. São os grandes e médios  fazendeiros  que estão cada dia mais invadindo as terras indígenas, com o discurso de "garantir o aumento da produção agrícola". Um discurso furado também, porque os grandes latifúndios não produzem comida. Produzem grãos par alimentar gado nos Estados Unidos, ou cana para girar a indústria do biocombustível.

Também é importante dizer que ao longo de cinco séculos, enquanto os invasores assentavam suas bases, esses povos vêm lutando para garantir sua existência. Muitas etnias foram dizimadas mas ainda restam  outras tantas que, atualmente, vivem um crescendo, retomando seu território e reavivando sua cultura. Para os fazendeiros que Kátia Abreu representa, essas população são, de fato, um atrapalho, e nem mesmo seu grito mais doloroso - como foi o caso dos Guarani Kaiwá, do Mato Grosso do Sul - encontra eco em suas mentes. Essa comunidade chegou a decidir imolar-se em uma luta sem quartel por suas terras e ainda assim segue sem a definição de seu território. No entender dos grandes proprietários de terra da região, bem melhor que morram, para que o estado fique livre do "obstáculo".

O que choca não é a opinião de uma mulher que, todos sabem, representa o latifúndio. Seria estranho se ela não pensasse assim. O que realmente nos atinge, de maneira cabal, é o fato de que esse pensamento expressado por ela encontra morada no coração e nas mentes de um número gigantesco de brasileiros, tomados pelo preconceito e pelas ideias racistas. Índio bom é o que fica na floresta, o que aguenta sua desdita em silêncio, o que não incomoda. Já aqueles que clamam por justiça, que enfrentam o latifúndio, que exigem do governo o seu território, esses são vagabundos, bêbados, terroristas, ou seja lá mais o que for de ruim e perverso. A ministra não está sozinha no seu discurso egocêntrico e racista. Isso é o que choca.

Tanto a mídia comercial, como os livros de história e as conversas em família - os longos braços  da ideologia colonialista e racista - aprofundam todos os dias esse sentimento de rechaço pela luta indígena. Fazem parecer que toda a cosmovisão originária, de cuidado com o ambiente, de relações equilibradas com a natureza, de colaboração e equidade, seja uma coisa atrasada, anti-progressita, ligada a  um remoto passado que nunca mais vai voltar. Exigem que os indígenas se "integrem" na civilização branca, mas, quando eles o fazem, são discriminados. Bem como se desejam ficar nos seus territórios originais, são tachados de anti-históricos.  Exigem dos índios a sua desaparição, não querem se ver matizados com o que consideram uma "raça inferior".

O bom é que o atual movimento indígena brasileiro está cada dia mais forte. Tem lideranças jovens, aguerridas e persistentes. Uma gente que não se rende aos estereótipos e não faz concessões. Essas comunidades que o "mundo da produção" está invadindo, estão de pé e lutam. Saberão responder à altura toda a ignorância que insiste em se disseminar em declarações como essa, vindas da boca de uma ministra de estado. Os índios não estão descendo para a áreas de produção. Estão subindo as rampas dos palácios, entrando nas terras que lhes pertencem,  exigindo seus direitos. E, à despeito de todos os que insistem em lhes esconder nas "florestas", eles assomam, coloridos, alegres e guerreiros, na direção da terra sem males.


 Eko porã!

A luta dos indígenas contra a PEC 215


















por elaine tavares

Tivéssemos nós apenas o acesso à mídia comercial, saberíamos que, ontem, um pequeno grupo de indígenas provocou grandes tumultos na Câmara de Deputados, inclusive ferindo um policial no pé, com uma flechada. Eles protestavam contra a votação da PEC 215, que leva para o legislativo a prerrogativa de demarcar terras indígenas.

Essas cenas de empurra-empurra entre índios e policiais foram as que tomaram os noticiários no dia de ontem (16), em curtos minutos, ressaltando apenas a "bagunça" e a falta de "civilidade" dos indígenas. A maior parte dos telejornais, é claro, esteve voltada para a Petrobras e as denúncias de corrupção. É que entre o achincalhe da Petrobras - que serve inclusive para que a ações baixem e sejam vendidas a grupos estrangeiros - e os problemas dos índios, é óbvio que o primeiro tema é mais interessante.

A nota triste nisso tudo é que grande parte da população brasileira só tem acesso a isso mesmo: canais de televisão comercial que divulgam inverdades ou meias verdades, buscando desinformar e formar uma opinião pública desfavorável com relação aos povos indígenas. Segundo dados de uma pesquisa do Ministério das Comunicações, a TV está em 97% dos lares brasileiros, logo se constitui num poder.

Os fatos

Em primeiro lugar a "bagunça" que aconteceu no Congresso Nacional não foi provocada pelos índios. Eles foram lá fazer o que qualquer cidadão tem o direitos: acompanhar o debate numa comissão da Câmara. Como o tema em questão era quente e os deputados não queriam a presença "incômoda" dos interessados, procuraram impedir o acesso dos indígenas ao Congresso. Uma ilegalidade, uma ruptura no pacto do direito.  Feridos no direito de entrar na chamada "casa do povo", os indígenas deram batalha ao que lhes impedia,  no caso, os soldados, fortemente armados.

Em segundo lugar, não era um grupo "pequeno" e sem importância como fizeram parecer os locutores das notícias. Ali, no Congresso Nacional, estavam as mais representativas lideranças indígenas do país, o equivalente ao conjunto dos  governadores de estado, por exemplo, já que os/as caciques são os cargos de maior responsabilidade dentro de uma aldeia. Alguém imagina os governadores dos estados sendo tratados assim? Polícia na porta, impedimento da entrada, empurrões e safanões? Praticamente impossível. Mas, os índios ainda são vistos como pessoas de "segunda categoria", quando não um atrapalho ao progresso da nação.

Terceiro. Se hoje os indígenas brasileiros conformam um grupo pequeno (900 mil almas) a responsabilidade sobre isso é do processo histórico levado a cabo pelos não-índios. Primeiro, com a invasão das terras, houve um extermínio indiscriminado, depois, na contemporaneidade, os que restaram do genocídio, ou foram confinados em reservas, ou foram obrigados a "civilizarem-se", incluindo-se na sociedade como se homens e mulheres brancos fossem. Todas as tentativas só prejudicaram os indígenas. A primeira, levou-os a morte, a segunda os tutelou e abandonou em poucos espaços de terras, no geral inférteis e insuficientes. E a terceira os tornou um misto de branco/índio, desgarrado de suas culturas e não aceitos pela cultura ocidental. Um limbo.   
  
O quarto ponto a considerar é a reivindicação que não fica clara nos ideológicos textos de reportagem. O que é a PEC 215 e que impactos terá na vida dos indígenas e quilombolas (negros remanescentes dos quilombos)? A mudança mais significativa da mudança que essa lei pode causar é a que define quem demarca as terras. Hoje, a função é do executivo, responsabilidade da presidência da República. Com a PEC 215, quem vai definir é o Congresso Nacional.

Ora, os indígenas sabem quem são os integrantes do Congresso Nacional. Na sua maioria, os deputados e senadores representam interesses de empresas e de grupos bem específicos. Um deles, em particular, acaba de eleger para a próxima temporada, a maior bancada de representantes do agronegócio, praticamente a metade das cadeiras. Isso sem contar aqueles que não sendo representantes diretos, são marionetes de empresas ligadas ao setor e que, fatalmente, numa decisão relacionada a terras indígenas, acabarão votando com o agronegócio.

Por que essa PEC é importante para o agronegócio?

O Brasil vive já há algum tempo uma nova onde de monocultura, aliada a grandes obras de infraestrutura (as hidrelétricas) e a mineração. Tudo isso é domínio dos latifundiários. A maioria deles faz o discursos de que há muita terra para pouco índio e que eles atrapalham a caminhada da nação rumo ao progresso. Para eles, entre se apropriar das terras públicas para o plantio do açúcar ou da soja é muito mais lucrativo que deixá-las na mãos de uma gente preguiçosa e improdutiva, no caso, os índios.  Esse discurso ganha corpo e se fortalece por todo o país. Mas, ao contrário do que dizem os ruralistas, há pouco índio (900 mil) e pouca terra para eles, que ocupam apenas 12,5% do território nacional, pouco mais do que um milhão de metros quadrados.

Já os latifundiários, esses são pouquíssimos. Representam apenas 3% das famílias rurais. Mas, por outro lado detém perto de 60% das terras agricultáveis, o que equivaleria juntar os estados de São Paulo e Paraná. E. ainda segundo o IBGE, existem fazendas que, sozinhas, ocupam um milhão de hectares - o total de todas as 503 terras indígenas já demarcadas.

Então, na verdade, a frase certa seria: há terra demais para pouco latifundiário.

Mas, esses 3% de donos de terra não estão satisfeitos com seus latifúndios. Querem mais. Não apenas para plantar a monocultura de exportação, mas para extrair minerais ou preservar para si os mananciais de água. Isso sem falar no processo de valorização das terras - mesmo paradas, sem produção. Por isso mesmo que, para eles, se configura um atrapalho essa coisa de demarcar terras para índios. Incapazes de compreenderem a dívida histórica que se tem com as comunidades indígenas, eles fazem questão de formar a opinião pública contra o que chamam de "vagabundos".

Esse é então o pano de fundo da disputa que se trava hoje no Congresso Nacional.  Entregar aos deputados a decisão sobre as demarcações, tanto indígenas como quilombolas, é colocar a vida dessas populações novamente em risco. Foi necessário um longo período para que os indígenas brasileiros aumentassem sua população, garantissem terras e direitos e, agora, tudo isso pode ir por água abaixo. Não que ficar na mão do executivo seja muito diferente, uma vez que se a presidência quiser favorecer os grandes fazendeiros também pode demorar com as demarcações. Mas, pelo menos, a luta fica mais dirigida. Na mãos dos deputados, a morte é certa, seja física ou cultural.

O que os povos indígenas querem, através de suas mais importantes lideranças em visita ao Congresso Nacional é que esse projeto seja retirado, arquivado, suprimido. E que as demarcações sigam sendo prerrogativa do executivo. Essa é a batalha que eles estão travando essa semana, uma vez que na medida em que o projeto vai passando pelas comissões, bem mais difícil fica de barrá-lo. Por várias vezes, os deputados representantes do latifúndio e do agronegócio tentaram manobras para aprovar a PEC, mas não conseguiram. Ontem, mais uma vez a votação foi adiada.

Só que essa é uma batalha de gigantes. São concepções de país que se enfrentam naquela porta de entrada. De um lado, um projeto de justiça, ancorado na necessidade de reparação de uma dívida histórica - terra suficiente e fértil para os povos originários - e de outro, a rapinagem, a lógica da destruição do ambiente em nome do lucro e do acúmulo das terras nas mãos de poucos para o desfrute de uma minoria.

Compreender o que se esconde por trás dos escudos da repressão do Estado é fundamental para formar uma opinião. A indignação de um William Bonner com a flechada no pé de um policial fortemente armado representa um lado muito claro: o do agronegócio, do sinhozinho Malta, do rei do gado, que quer fazer parecer que os indígenas são selvagens desqualificados. E essa á visão que se massifica. Cabe a nós fazermos os papel do passarinho no incêndio. Difundir os outros lados desse drama, para que as pessoas possam entender o que realmente acontece nesses fundões do Brasil.
   


Anotações sobre a ideia de desenvolvimento e a perspectiva indígena











Marcha do povo Shuar, contra as mineradoras








Por elaine tavares

A forma de conhecer o mundo é uma influência cabal na vida do ser humano. Vou contar uma história para ilustrar isso. Passei boa parte dos meus primeiros anos na casa do meu avô. Ele era agricultor. Arrendava terras, não era dono.  O lugar onde ele morava tinha um rio, de onde saia a água para o arroz e também uma pequena sanga, onde minha avó e minha mãe lavavam a roupa. Aquela água era coisa sagrada. Sem ela, o mundo ruía, daí a preocupação do meu avô em não usar agrotóxicos ou venenos. Na comunidade onde ele vivia as coisas eram sempre feitas em mutirão. Se fosse necessário abrir uma estrada ou fazer uma cerca, vinha alguém, à cavalo, convocar toda a vizinhança para o trabalho no fim de semana.  Um ajudava o outro, sem pestanejar. Matava-se um porco ou uma novilha, e tudo acabava em churrasco e jogo de pife. Mesmo que os agricultores vivessem a léguas de distância uns dos outros, eles se encontravam nesses domingos de trabalho e festa. Ou seja, ninguém pensava em contratar alguém, pagar pelo trabalho. Era uma comunidade. O que era hoje para um, amanhã seria para o outro. Na epistemologia indígena isso se chama equidade e redistribuição. Quando uma pessoa cresce praticando esses valores, dificilmente poderá entender a forma de vida de uma criança que nasce num condomínio, no qual as pessoas não se conhecem, que fecham as portas em desconfiança e onde cada um faz por si. E vice versa. São duas formas radicalmente diferentes de conhecer a realidade e, ou são reconhecidas como reais, como diz Enrique Dussel, ou provocam a confusão, in-compreensão, o não-diálogo.

Esse foi o ponto crucial no tempo da invasão dessas terras. Os brancos que aqui chegaram vinham em busca do ouro, riqueza, coisa que se transformaria em poder. Os que aqui viviam não davam ao ouro a mesma conotação. Era só um metal luzidio que servia para fazer adornos ou para seus apetrechos cerimoniais. Duas maneiras diferentes de conhecer as coisas. Nas comunidades indígenas se praticava a redistribuição, a equidade, o trabalho coletivo. Protegiam-se as viúvas, as crianças, os velhos, os incapacitados.   Para eles, naqueles dias, a palavra "produção" não andava, não tinha sentido. Pelo menos não o sentido que era dado pelas sociedades coloniais. O trabalho produzido nas sociedades de Abya Yala tinha valor de uso. E quando havia excedente eram organizadas feiras para trocas. Com a chegada dos invasores, tudo muda. Eles iniciam um processo de rapinagem das riquezas, principalmente as minerais, o trabalho passa a ser de exploração ou escravo. Os conceitos indígenas são negados. É importada uma fé e um sistema de vida totalmente alheios e incompreensíveis. Mais tarde, já consolidado o "epistemicídio" no que diz respeito ao modo de conhecer indígena, consolida-se o modo de produção capitalista.

Com o capitalismo, Abya Yala fica subordinada às potências centrais. Passa a ser a periferia. Mesmo assim, ao longo dos séculos, as elites e os governantes locais acreditaram na possibilidade de introduzir o "desenvolvimento", sempre dentro dos marcos da modernidade. Progresso, submissão da natureza, aumento da produção.

Durante muito tempo as comunidades indígenas viveram oprimidas, algumas tentando se integrar ao mundo moderno, outras, procurando vivenciar seus valores em pequenas comunidades esquecidas e outras vivendo uma cisão epistêmica na tentativa de equilíbrio entre os seus valores e conhecimento e os dos homens brancos. Mas, aos poucos, quando parecia que tudo já estava liquidado, com os índios restantes limitados às reservas, teve início uma retomada do modo de ser indígena. Desde os anos 60 do século XX, organizações começaram a se constituir e realizar encontros de indígenas, estabelecendo algumas metas e definindo algumas estratégias de recuperação da cultura. O ano de 1990 foi paradigmático, quando indígenas equatorianos ocupam as igrejas de Quito exigindo direitos. Logo em seguida, em 1994, os indígenas da região de Chiapas, no México, se levantam em armas, na defesa de seu modo de vida e, a partir daí, o movimento indígena não para de crescer. Hoje, países como Bolívia e Equador, de maioria indígena, já conseguiram incorporar na própria Constituição os elementos da cultura originária. No Equador, os pressupostos do Sumak Causai (o bem-viver), e na Bolívia, o estado-plurinacional. E, tanto um como o outro passam a questionar a proposta de "desenvolvimento" que sempre esteve em voga, sendo defendida inclusive pela esquerda.

O desenvolvimento no contexto indígena 

Falar de desenvolvimento nas comunidades indígenas exige de quem fala a utilização de uma outra episteme já que esse é um conceito que advém da ideia moderna de progresso, nascida no iluminismo. É uma proposta europeia, portanto, completamente ligada a uma filosofia que buscava sair do controle da palavra revelada (deus), para uma explicação etnocêntrica do mundo. A razão humana como medida de tudo, o "ego cogito" cartesiano, que inaugurou na Europa recém saída da Idade Média, a ideia de indivíduo.

Nas comunidades originárias de Abya Yala, a forma de conhecer nunca chegou nem perto da maneira moderna. Se para a Europa, a máxima era "penso, logo existo", para as comunidades que aqui vicejavam, a filosofia suleadora era "existo, logo sou comunidade". Sendo assim, a diferença entre os dois mundos é radical e não é sem razão que aparecia incognoscível para os europeus o jeito de viver indígena, bem como a maneira europeia não podia ser compreendida pelos locais. Não houve um encontro entre  duas alteridades que se conhecem e se entendem. Houve uma conquista, na qual uma  forma particular (europeia) de entender o mundo foi imposta a ferro e fogo.

O mundo colonial trouxe para Abya Yala os conceitos filosóficos da Europa. Como afirma o economista equatoriano Pablo Dávalos, a chamada "liberdade" moderna está sustentada na produção e o desenvolvimento aparece então como uma proposta de fim da escassez. Esse conceito se solidificou de tal maneira que ao longo dos tempos os países foram divididos entre os que eram desenvolvidos, os subdesenvolvidos e os em desenvolvimento. Por muito tempo, o sistema capitalista, que cresceu e se fortaleceu, incutiu a ideia de que só era subdesenvolvido aquele que não se esforçasse o suficiente. Assim, o subdesenvolvimento aparecia quase como uma maldição, principalmente nos países da América Latina e África que, no entendimento dos pensadores, abrigava uma gente preguiçosa e inútil. Eram pobres por incapacidade de pensar a produção.

Toda essa forma de conhecer o mundo criou, ao longo tempo, uma ciência específica para aprofundar a proposta de progresso. Muitas eram as receitas que chegavam dos países "desenvolvidos" para ajudar os subdesenvolvidos a avançarem  e produzirem coisas capazes de serem vendidas e compradas, girando a roda do capital. Como lembra Pablo Dávalos, o sustentáculo dessa receitas sinistras é a insistência desesperada de crescimento do PIB, como se isso, por si só, desse conta de todos os problemas.

Desde a invasão até hoje, poucos foram os autores que se importaram em conhecer   as propostas de bem viver dos povos indígenas. Mesmo Marx, que inaugura uma crítica radical do capitalismo segue apostando na ideia de que a visão de desenvolvimento se insere na totalidade do capitalismo e que as relações de produção se dão em nível mundial, logo, incluindo o mundo indígena. Em nenhum momento Marx abandona a ideia de progresso  e desenvolvimento, embora admita que o modelo capitalista é, por natureza, responsável não só pela exploração do homem, mas também da natureza circundante.   De qualquer sorte, Marx seguirá aceitando o conceito de que a natureza é algo fora do homem, que existe para ser transformada, modificada. O homem como senhor da natureza, dominando-a. Uma teoria que está quilômetros de distância da filosofia indígena.

Nos anos 60 pensadores de esquerda começam a apontar novas abordagens para a compreensão da realidade. Segundo eles, o chamado subdesenvolvimento não é uma maldição, pelo contrário, é a outra face da moeda do sistema capitalista. Só existem os subdesenvolvidos porque os desenvolvidos estão a sugar todas as riquezas. Assim, seria da natureza do capitalismo a existência da desigualdade. Mas, todos esses pensadores, Gunder Frank, Wallerstein, Braudel, Rui Mauro Marini, Samir Amin, Theotonio dos Santos, entre outros, ainda que apontassem para algum tipo de nova sociedade, com a superação da exploração, seguiam pensando desde os pressupostos da modernidade, insistindo em usar os mesmos supostos civilizatórios do desenvolvimento. Mesmo eles não abrem espaço na sua epistemologia para a alteridade, para o outro, diferente, mas real, que segue existindo em todos os espaços de Abya Yala, na África ou em outros espaços do mundo.

É muito comum na esquerda latino-americana a desqualificação dos discurso indígena, o qual chamam depreciativamente de "pachamamismo", em referência a Pacha Mama, divindade indígena que congrega a totalidade da terra. Nomes importantes como Atílio Borón se manifestam sobre isso, dizendo que os pachamamistas querem voltar ao passado, viver no atraso. Ou seja, mesmo os pensadores mais críticos do capitalismo não são capazes de pensar o mundo desde o olhar do outro. Não se dispõem a reconhecer que há outra forma de pensar a vida para além dos conceitos modernos, eurocêntricos. E, assim, seguem apostando no desenvolvimento, sem perceber que a alternativa ao subdesenvolvimento não pode ser o desenvolvimento, pois sendo assim seguiram na mesma lógica da modernidade e do capital. "O desenvolvimento é uma patologia da modernidade", diz Pablo Dávalos.  É certo que existem alguns movimentos indígenas muito particularistas que até apontam uma volta ao passado e a não mistura com o homem branco, mas são muito poucos. A maioria sabe que 500 anos de encontro, ainda que forçado, com um modo de conhecer exógeno, não pode passar incólume. Como se pode ver, os indígenas não estão dispostos a um "epistemicídio", ao assassinato do modo de pensar branco. Eles aceitam que há outra forma de conhecer e pensar o mundo, e esperam verdadeiramente dialogar.

Outro elemento da luta indígena que é ridicularizado é a sua preocupação com o ambiente. Quando uma comunidade insiste em defender seu território de "obras de progresso", como a usina de Belo Monte, por exemplo, sempre surgem os comentários burlescos, piadistas, insistindo que os índios estão querendo impedir o "desenvolvimento", apenas para salvar alguns quatis. E isso se vê na esquerda também. Ora, há que entender profundamente  o conceito de natureza para uma comunidade antiga. Não se trata de proteger o mico-leão dourado para o deleite do humano. É que a natureza é parte da vida , está simbioticamente ligada ao modo de ser do índio. Um não-índio compra um terreno de 360 metros quadrados e pode ali fazer sua casa, comprar suas comodidades e até se dar ao luxo de plantar algumas árvores, uns vasos de especiarias. E aí está dada sua relação com a natureza. Para o indígena não. O território é o espaço da vida mesma, da comunidade, não pode se reduzir a 360 metros quadrados. No território estão todas as coisas que ele precisa para viver.

Um trabalho realizado por um jovem Kaigang do Rio Grande do Sul, Josué Candido Fotunato, sobre o uso de plantas medicinais na comunidade, mostra claramente como o território e a natureza que o compõe, são vitais à vida. Das 24 espécies de plantas que servem para curar, 16 são árvores. Árvores, não plantinhas. Árvores de anos e anos de existência. Sem elas, o modo de vida kaigang se perde. Esse é o entendimento que se precisa ter. No mundo branco, o homem domina a natureza, no mundo indígena não há relação de dominação, um depende do outro, é equilíbrio.
Por isso quando uma comunidade indígena se opõe ao "desenvolvimento", como foi o caso das comunidades do TIPNIS, na Bolívia, o dos Shuar, no Equador ou os Guarani, no Morro dos Cavalos, há que mirar a realidade desde o ponto de vista indígena. Uma estrada de alta velocidade passar por dentro de um parque nacional sagrado aos bolivianos impacta de maneira absurda a vida dessas comunidades. Ou a mineração a céu aberto na região Shuar, poluindo os rios onde nascem os deuses. Ou a BR 101 no meio da aldeia Guarani, desmontando todo um modo de ser. Não compreender isso é não ser capaz de viver na alteridade. Se com os filósofos da modernidade a natureza é retirada da história, os povos indígenas a reintroduzem outra vez, mas não como força produtiva, e sim como um elemento que é inerente ao social.

Mas, não é só a natureza que tem outro papel na vida dos povos indígenas, o tempo indígena também difere radicalmente do branco, é circular, não linear. O ser é comunitário e a economia está visceralmente ligada com a política. Não compreender isso pode até ser admitido. Mas, o que não se pode é querer destruir o outro só porque sua forma de ver o mundo e de conhecer é diferente. Desde 1492, as potências coloniais e imperialistas tem cometido sistematicamente o "epistemicídio". Negando outras maneiras de conhecer.

Por exemplo. Para um teórico do desenvolvimento, ainda que de esquerda, a experiência zapatista, no México, pode ser vista como uma experiência fracassada. Mesmo tendo se alçado em armas e mantido uma paz armada por mais de 20 anos, os índios de Chiapas seguem sua vida como sempre viveram. Pobres, pés descalços, enfrentando a polícia. Mas, eles não abriram mão de suas formas de organizar a vida. Criaram seus municípios autônomos, têm sua própria justiça. Não querem entrar na cidade do México e tomar a cadeira presidencial. Querem seguir vivendo comunitariamente. Não estão  preocupados com a produção, com o lucro ou o PIB. Fracassados? Não. Apenas querem viver do seu jeito. Têm direito à isso. Estão conectados a outra forma de conhecer e de produzir. O que não significa estarem no atraso ou não usufruírem das melhorias tecnológicas criadas com o sacrifício de todos nós.

Outro exemplo, não-índio, mas de caráter socialista, é o MST. Mesmo tendo como base uma população rural, que carrega em si valores como aqueles descritos no início desse texto, de cooperação, de redistribuição, não tem sido fácil para o movimento garantir a produção coletiva e a proposta de outra forma de organizar a vida. Para muitos, senão a maioria, apesar de toda a proposta de ocupar o latifúndio e acabar com a concentração de terra, socializando as riquezas, o desejo segue sendo o de estar conectado na disputa de mercado. Ou seja, a manutenção da lógica moderna e eurocêntrica de progresso e desenvolvimento. Ainda que o discurso seja de avançar para o socialismo, esses movimentos ainda não conseguiram pensar uma forma de atuar que fuja do modelo desenvolvimentista, típico da modernidade europeia. É certo que não é fácil estar no capitalismo e encontrar brechas dentro dele. Mas, o mínimo que podemos fazer é procurar discutir os conceitos que nos movem.

No âmbito urbano temos aqui próximo de nós, agora na cidade de Águas Mornas, o exemplo da Comuna Amarildo, que também busca um espaço de produção, ainda que consiga agregar elementos de uma proposta mais integradora, de autogestão, de equilíbrio e de autossustentação. E por quê? Porque boa parte dos seus integrantes vem do campo, onde a lógica de organização é diferente e o processo de conhecer a realidade também. Mesmo pensando na proposta de agro vilas, também disputando o espaço da produção, eles estão mais preocupados em se autossustentar. Já é um avanço e pode vir a ser uma proposta inovadora.

O discurso moderno de desenvolvimento não dá espaço para a alteridade. Sabemos que muitas experiências indígenas e outras não-indígenas de caráter socialista são propostas que coexistem dentro do capitalismo, mas é inegável que se assentam em outra epistemologia.  Por que tripudiar disso? Por que não aceitar que existem outras formas de conhecer? Esse é o desafio que está colocado para todos nós.

O fato é que o tempo passa, as lutas se sucedem, mas a sociedade latino-americana que tem como herança esse colonialismo mental, parece incapaz de conviver com o diferente. Tanto que são capazes de criar novos conceitos - dúbios e mentirosos - para manter o barco do estado no rumo do "desenvolvimento" capitalista. Um exemplo concreto disso pode-se perceber nos chamados novos governos progressistas da América Latina. No Equador, o presidente Rafael Correa cunhou o que chama de "neoextrativismo social", que nada mais é do que usar a velha lógica de rapinar riquezas naturais,  só que com a argumentação de que isso vai servir para a melhoria da vida dos pobres. Assim, tem insistido em ocupar territórios indígenas para a extração de petróleo e também para a mineração. Os protestos das comunidades indígenas são tripudiados e o governo acaba colocando a população não-índia contra eles, porque estariam impedindo o progresso e a melhoria nas políticas públicas.

Uma pesquisa realizada pelo economista Pablo Dávalos revela que no chamado neoextrativismo de Rafael Correa realmente houve um maior controle do Estado sobre as riquezas naturais e muito mais recurso foi repassado para a política social. Mas, observando os números, ele comprovou que os recursos utilizados pelo governo nas políticas sociais não vêm do extrativismo e sim dos impostos gerais. A renda do extrativismo tem sido usada para o bem do próprio negócio, em estradas, construção de portos e aeroportos. E o que sobra, vai para os bancos. Ou seja, as comunidades estão sendo despojadas de seus territórios, os movimentos estão sendo criminalizados e quem está lucrando mesmo são os empresários. Logo, não são os índios que estão travando o progresso e o desenvolvimento. É o povo, através dos impostos, que custeia as políticas públicas e não há qualquer confronto com o capitalismo. Assim, mesmo num país onde a maioria é indígena, não há efetivo respeito ao mundo cultural, simbólico e epistêmico dessas comunidades.

Para finalizar o que se pode dizer é que seria necessário um longo processo de estudos que levasse a compreensão básica sobre o fato de que há várias formas de se pensar o mundo e que o mínimo que se pode fazer é entendê-las e respeitá-las. Garantir que essas formas alterativas existam é um começo.


Primeira defesa de trabalho no curso de Licenciatura Indígena




















O dia 18 de novembro de 2014 foi espaço de um momento histórico para as comunidades Xokleng, Kaigang e Guarani e também para os valorosos professores da universidade. A apresentação do primeiro trabalho final do curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, que iniciou há quatro anos na UFSC. Josué Cândido Fortunato, um Kaigang, apresentou seu TCC: "Plantas Medicinais, práticas de autoatenção e os conflitos com a Biomedicina entre os Kaigang do setor bananeira, Terra Indígena da Guarita, Rio Grande do Sul." Um momento de profunda alegria e de efetiva troca de saberes.