Anotações sobre a ideia de desenvolvimento e a perspectiva indígena











Marcha do povo Shuar, contra as mineradoras








Por elaine tavares

A forma de conhecer o mundo é uma influência cabal na vida do ser humano. Vou contar uma história para ilustrar isso. Passei boa parte dos meus primeiros anos na casa do meu avô. Ele era agricultor. Arrendava terras, não era dono.  O lugar onde ele morava tinha um rio, de onde saia a água para o arroz e também uma pequena sanga, onde minha avó e minha mãe lavavam a roupa. Aquela água era coisa sagrada. Sem ela, o mundo ruía, daí a preocupação do meu avô em não usar agrotóxicos ou venenos. Na comunidade onde ele vivia as coisas eram sempre feitas em mutirão. Se fosse necessário abrir uma estrada ou fazer uma cerca, vinha alguém, à cavalo, convocar toda a vizinhança para o trabalho no fim de semana.  Um ajudava o outro, sem pestanejar. Matava-se um porco ou uma novilha, e tudo acabava em churrasco e jogo de pife. Mesmo que os agricultores vivessem a léguas de distância uns dos outros, eles se encontravam nesses domingos de trabalho e festa. Ou seja, ninguém pensava em contratar alguém, pagar pelo trabalho. Era uma comunidade. O que era hoje para um, amanhã seria para o outro. Na epistemologia indígena isso se chama equidade e redistribuição. Quando uma pessoa cresce praticando esses valores, dificilmente poderá entender a forma de vida de uma criança que nasce num condomínio, no qual as pessoas não se conhecem, que fecham as portas em desconfiança e onde cada um faz por si. E vice versa. São duas formas radicalmente diferentes de conhecer a realidade e, ou são reconhecidas como reais, como diz Enrique Dussel, ou provocam a confusão, in-compreensão, o não-diálogo.

Esse foi o ponto crucial no tempo da invasão dessas terras. Os brancos que aqui chegaram vinham em busca do ouro, riqueza, coisa que se transformaria em poder. Os que aqui viviam não davam ao ouro a mesma conotação. Era só um metal luzidio que servia para fazer adornos ou para seus apetrechos cerimoniais. Duas maneiras diferentes de conhecer as coisas. Nas comunidades indígenas se praticava a redistribuição, a equidade, o trabalho coletivo. Protegiam-se as viúvas, as crianças, os velhos, os incapacitados.   Para eles, naqueles dias, a palavra "produção" não andava, não tinha sentido. Pelo menos não o sentido que era dado pelas sociedades coloniais. O trabalho produzido nas sociedades de Abya Yala tinha valor de uso. E quando havia excedente eram organizadas feiras para trocas. Com a chegada dos invasores, tudo muda. Eles iniciam um processo de rapinagem das riquezas, principalmente as minerais, o trabalho passa a ser de exploração ou escravo. Os conceitos indígenas são negados. É importada uma fé e um sistema de vida totalmente alheios e incompreensíveis. Mais tarde, já consolidado o "epistemicídio" no que diz respeito ao modo de conhecer indígena, consolida-se o modo de produção capitalista.

Com o capitalismo, Abya Yala fica subordinada às potências centrais. Passa a ser a periferia. Mesmo assim, ao longo dos séculos, as elites e os governantes locais acreditaram na possibilidade de introduzir o "desenvolvimento", sempre dentro dos marcos da modernidade. Progresso, submissão da natureza, aumento da produção.

Durante muito tempo as comunidades indígenas viveram oprimidas, algumas tentando se integrar ao mundo moderno, outras, procurando vivenciar seus valores em pequenas comunidades esquecidas e outras vivendo uma cisão epistêmica na tentativa de equilíbrio entre os seus valores e conhecimento e os dos homens brancos. Mas, aos poucos, quando parecia que tudo já estava liquidado, com os índios restantes limitados às reservas, teve início uma retomada do modo de ser indígena. Desde os anos 60 do século XX, organizações começaram a se constituir e realizar encontros de indígenas, estabelecendo algumas metas e definindo algumas estratégias de recuperação da cultura. O ano de 1990 foi paradigmático, quando indígenas equatorianos ocupam as igrejas de Quito exigindo direitos. Logo em seguida, em 1994, os indígenas da região de Chiapas, no México, se levantam em armas, na defesa de seu modo de vida e, a partir daí, o movimento indígena não para de crescer. Hoje, países como Bolívia e Equador, de maioria indígena, já conseguiram incorporar na própria Constituição os elementos da cultura originária. No Equador, os pressupostos do Sumak Causai (o bem-viver), e na Bolívia, o estado-plurinacional. E, tanto um como o outro passam a questionar a proposta de "desenvolvimento" que sempre esteve em voga, sendo defendida inclusive pela esquerda.

O desenvolvimento no contexto indígena 

Falar de desenvolvimento nas comunidades indígenas exige de quem fala a utilização de uma outra episteme já que esse é um conceito que advém da ideia moderna de progresso, nascida no iluminismo. É uma proposta europeia, portanto, completamente ligada a uma filosofia que buscava sair do controle da palavra revelada (deus), para uma explicação etnocêntrica do mundo. A razão humana como medida de tudo, o "ego cogito" cartesiano, que inaugurou na Europa recém saída da Idade Média, a ideia de indivíduo.

Nas comunidades originárias de Abya Yala, a forma de conhecer nunca chegou nem perto da maneira moderna. Se para a Europa, a máxima era "penso, logo existo", para as comunidades que aqui vicejavam, a filosofia suleadora era "existo, logo sou comunidade". Sendo assim, a diferença entre os dois mundos é radical e não é sem razão que aparecia incognoscível para os europeus o jeito de viver indígena, bem como a maneira europeia não podia ser compreendida pelos locais. Não houve um encontro entre  duas alteridades que se conhecem e se entendem. Houve uma conquista, na qual uma  forma particular (europeia) de entender o mundo foi imposta a ferro e fogo.

O mundo colonial trouxe para Abya Yala os conceitos filosóficos da Europa. Como afirma o economista equatoriano Pablo Dávalos, a chamada "liberdade" moderna está sustentada na produção e o desenvolvimento aparece então como uma proposta de fim da escassez. Esse conceito se solidificou de tal maneira que ao longo dos tempos os países foram divididos entre os que eram desenvolvidos, os subdesenvolvidos e os em desenvolvimento. Por muito tempo, o sistema capitalista, que cresceu e se fortaleceu, incutiu a ideia de que só era subdesenvolvido aquele que não se esforçasse o suficiente. Assim, o subdesenvolvimento aparecia quase como uma maldição, principalmente nos países da América Latina e África que, no entendimento dos pensadores, abrigava uma gente preguiçosa e inútil. Eram pobres por incapacidade de pensar a produção.

Toda essa forma de conhecer o mundo criou, ao longo tempo, uma ciência específica para aprofundar a proposta de progresso. Muitas eram as receitas que chegavam dos países "desenvolvidos" para ajudar os subdesenvolvidos a avançarem  e produzirem coisas capazes de serem vendidas e compradas, girando a roda do capital. Como lembra Pablo Dávalos, o sustentáculo dessa receitas sinistras é a insistência desesperada de crescimento do PIB, como se isso, por si só, desse conta de todos os problemas.

Desde a invasão até hoje, poucos foram os autores que se importaram em conhecer   as propostas de bem viver dos povos indígenas. Mesmo Marx, que inaugura uma crítica radical do capitalismo segue apostando na ideia de que a visão de desenvolvimento se insere na totalidade do capitalismo e que as relações de produção se dão em nível mundial, logo, incluindo o mundo indígena. Em nenhum momento Marx abandona a ideia de progresso  e desenvolvimento, embora admita que o modelo capitalista é, por natureza, responsável não só pela exploração do homem, mas também da natureza circundante.   De qualquer sorte, Marx seguirá aceitando o conceito de que a natureza é algo fora do homem, que existe para ser transformada, modificada. O homem como senhor da natureza, dominando-a. Uma teoria que está quilômetros de distância da filosofia indígena.

Nos anos 60 pensadores de esquerda começam a apontar novas abordagens para a compreensão da realidade. Segundo eles, o chamado subdesenvolvimento não é uma maldição, pelo contrário, é a outra face da moeda do sistema capitalista. Só existem os subdesenvolvidos porque os desenvolvidos estão a sugar todas as riquezas. Assim, seria da natureza do capitalismo a existência da desigualdade. Mas, todos esses pensadores, Gunder Frank, Wallerstein, Braudel, Rui Mauro Marini, Samir Amin, Theotonio dos Santos, entre outros, ainda que apontassem para algum tipo de nova sociedade, com a superação da exploração, seguiam pensando desde os pressupostos da modernidade, insistindo em usar os mesmos supostos civilizatórios do desenvolvimento. Mesmo eles não abrem espaço na sua epistemologia para a alteridade, para o outro, diferente, mas real, que segue existindo em todos os espaços de Abya Yala, na África ou em outros espaços do mundo.

É muito comum na esquerda latino-americana a desqualificação dos discurso indígena, o qual chamam depreciativamente de "pachamamismo", em referência a Pacha Mama, divindade indígena que congrega a totalidade da terra. Nomes importantes como Atílio Borón se manifestam sobre isso, dizendo que os pachamamistas querem voltar ao passado, viver no atraso. Ou seja, mesmo os pensadores mais críticos do capitalismo não são capazes de pensar o mundo desde o olhar do outro. Não se dispõem a reconhecer que há outra forma de pensar a vida para além dos conceitos modernos, eurocêntricos. E, assim, seguem apostando no desenvolvimento, sem perceber que a alternativa ao subdesenvolvimento não pode ser o desenvolvimento, pois sendo assim seguiram na mesma lógica da modernidade e do capital. "O desenvolvimento é uma patologia da modernidade", diz Pablo Dávalos.  É certo que existem alguns movimentos indígenas muito particularistas que até apontam uma volta ao passado e a não mistura com o homem branco, mas são muito poucos. A maioria sabe que 500 anos de encontro, ainda que forçado, com um modo de conhecer exógeno, não pode passar incólume. Como se pode ver, os indígenas não estão dispostos a um "epistemicídio", ao assassinato do modo de pensar branco. Eles aceitam que há outra forma de conhecer e pensar o mundo, e esperam verdadeiramente dialogar.

Outro elemento da luta indígena que é ridicularizado é a sua preocupação com o ambiente. Quando uma comunidade insiste em defender seu território de "obras de progresso", como a usina de Belo Monte, por exemplo, sempre surgem os comentários burlescos, piadistas, insistindo que os índios estão querendo impedir o "desenvolvimento", apenas para salvar alguns quatis. E isso se vê na esquerda também. Ora, há que entender profundamente  o conceito de natureza para uma comunidade antiga. Não se trata de proteger o mico-leão dourado para o deleite do humano. É que a natureza é parte da vida , está simbioticamente ligada ao modo de ser do índio. Um não-índio compra um terreno de 360 metros quadrados e pode ali fazer sua casa, comprar suas comodidades e até se dar ao luxo de plantar algumas árvores, uns vasos de especiarias. E aí está dada sua relação com a natureza. Para o indígena não. O território é o espaço da vida mesma, da comunidade, não pode se reduzir a 360 metros quadrados. No território estão todas as coisas que ele precisa para viver.

Um trabalho realizado por um jovem Kaigang do Rio Grande do Sul, Josué Candido Fotunato, sobre o uso de plantas medicinais na comunidade, mostra claramente como o território e a natureza que o compõe, são vitais à vida. Das 24 espécies de plantas que servem para curar, 16 são árvores. Árvores, não plantinhas. Árvores de anos e anos de existência. Sem elas, o modo de vida kaigang se perde. Esse é o entendimento que se precisa ter. No mundo branco, o homem domina a natureza, no mundo indígena não há relação de dominação, um depende do outro, é equilíbrio.
Por isso quando uma comunidade indígena se opõe ao "desenvolvimento", como foi o caso das comunidades do TIPNIS, na Bolívia, o dos Shuar, no Equador ou os Guarani, no Morro dos Cavalos, há que mirar a realidade desde o ponto de vista indígena. Uma estrada de alta velocidade passar por dentro de um parque nacional sagrado aos bolivianos impacta de maneira absurda a vida dessas comunidades. Ou a mineração a céu aberto na região Shuar, poluindo os rios onde nascem os deuses. Ou a BR 101 no meio da aldeia Guarani, desmontando todo um modo de ser. Não compreender isso é não ser capaz de viver na alteridade. Se com os filósofos da modernidade a natureza é retirada da história, os povos indígenas a reintroduzem outra vez, mas não como força produtiva, e sim como um elemento que é inerente ao social.

Mas, não é só a natureza que tem outro papel na vida dos povos indígenas, o tempo indígena também difere radicalmente do branco, é circular, não linear. O ser é comunitário e a economia está visceralmente ligada com a política. Não compreender isso pode até ser admitido. Mas, o que não se pode é querer destruir o outro só porque sua forma de ver o mundo e de conhecer é diferente. Desde 1492, as potências coloniais e imperialistas tem cometido sistematicamente o "epistemicídio". Negando outras maneiras de conhecer.

Por exemplo. Para um teórico do desenvolvimento, ainda que de esquerda, a experiência zapatista, no México, pode ser vista como uma experiência fracassada. Mesmo tendo se alçado em armas e mantido uma paz armada por mais de 20 anos, os índios de Chiapas seguem sua vida como sempre viveram. Pobres, pés descalços, enfrentando a polícia. Mas, eles não abriram mão de suas formas de organizar a vida. Criaram seus municípios autônomos, têm sua própria justiça. Não querem entrar na cidade do México e tomar a cadeira presidencial. Querem seguir vivendo comunitariamente. Não estão  preocupados com a produção, com o lucro ou o PIB. Fracassados? Não. Apenas querem viver do seu jeito. Têm direito à isso. Estão conectados a outra forma de conhecer e de produzir. O que não significa estarem no atraso ou não usufruírem das melhorias tecnológicas criadas com o sacrifício de todos nós.

Outro exemplo, não-índio, mas de caráter socialista, é o MST. Mesmo tendo como base uma população rural, que carrega em si valores como aqueles descritos no início desse texto, de cooperação, de redistribuição, não tem sido fácil para o movimento garantir a produção coletiva e a proposta de outra forma de organizar a vida. Para muitos, senão a maioria, apesar de toda a proposta de ocupar o latifúndio e acabar com a concentração de terra, socializando as riquezas, o desejo segue sendo o de estar conectado na disputa de mercado. Ou seja, a manutenção da lógica moderna e eurocêntrica de progresso e desenvolvimento. Ainda que o discurso seja de avançar para o socialismo, esses movimentos ainda não conseguiram pensar uma forma de atuar que fuja do modelo desenvolvimentista, típico da modernidade europeia. É certo que não é fácil estar no capitalismo e encontrar brechas dentro dele. Mas, o mínimo que podemos fazer é procurar discutir os conceitos que nos movem.

No âmbito urbano temos aqui próximo de nós, agora na cidade de Águas Mornas, o exemplo da Comuna Amarildo, que também busca um espaço de produção, ainda que consiga agregar elementos de uma proposta mais integradora, de autogestão, de equilíbrio e de autossustentação. E por quê? Porque boa parte dos seus integrantes vem do campo, onde a lógica de organização é diferente e o processo de conhecer a realidade também. Mesmo pensando na proposta de agro vilas, também disputando o espaço da produção, eles estão mais preocupados em se autossustentar. Já é um avanço e pode vir a ser uma proposta inovadora.

O discurso moderno de desenvolvimento não dá espaço para a alteridade. Sabemos que muitas experiências indígenas e outras não-indígenas de caráter socialista são propostas que coexistem dentro do capitalismo, mas é inegável que se assentam em outra epistemologia.  Por que tripudiar disso? Por que não aceitar que existem outras formas de conhecer? Esse é o desafio que está colocado para todos nós.

O fato é que o tempo passa, as lutas se sucedem, mas a sociedade latino-americana que tem como herança esse colonialismo mental, parece incapaz de conviver com o diferente. Tanto que são capazes de criar novos conceitos - dúbios e mentirosos - para manter o barco do estado no rumo do "desenvolvimento" capitalista. Um exemplo concreto disso pode-se perceber nos chamados novos governos progressistas da América Latina. No Equador, o presidente Rafael Correa cunhou o que chama de "neoextrativismo social", que nada mais é do que usar a velha lógica de rapinar riquezas naturais,  só que com a argumentação de que isso vai servir para a melhoria da vida dos pobres. Assim, tem insistido em ocupar territórios indígenas para a extração de petróleo e também para a mineração. Os protestos das comunidades indígenas são tripudiados e o governo acaba colocando a população não-índia contra eles, porque estariam impedindo o progresso e a melhoria nas políticas públicas.

Uma pesquisa realizada pelo economista Pablo Dávalos revela que no chamado neoextrativismo de Rafael Correa realmente houve um maior controle do Estado sobre as riquezas naturais e muito mais recurso foi repassado para a política social. Mas, observando os números, ele comprovou que os recursos utilizados pelo governo nas políticas sociais não vêm do extrativismo e sim dos impostos gerais. A renda do extrativismo tem sido usada para o bem do próprio negócio, em estradas, construção de portos e aeroportos. E o que sobra, vai para os bancos. Ou seja, as comunidades estão sendo despojadas de seus territórios, os movimentos estão sendo criminalizados e quem está lucrando mesmo são os empresários. Logo, não são os índios que estão travando o progresso e o desenvolvimento. É o povo, através dos impostos, que custeia as políticas públicas e não há qualquer confronto com o capitalismo. Assim, mesmo num país onde a maioria é indígena, não há efetivo respeito ao mundo cultural, simbólico e epistêmico dessas comunidades.

Para finalizar o que se pode dizer é que seria necessário um longo processo de estudos que levasse a compreensão básica sobre o fato de que há várias formas de se pensar o mundo e que o mínimo que se pode fazer é entendê-las e respeitá-las. Garantir que essas formas alterativas existam é um começo.


Primeira defesa de trabalho no curso de Licenciatura Indígena




















O dia 18 de novembro de 2014 foi espaço de um momento histórico para as comunidades Xokleng, Kaigang e Guarani e também para os valorosos professores da universidade. A apresentação do primeiro trabalho final do curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, que iniciou há quatro anos na UFSC. Josué Cândido Fortunato, um Kaigang, apresentou seu TCC: "Plantas Medicinais, práticas de autoatenção e os conflitos com a Biomedicina entre os Kaigang do setor bananeira, Terra Indígena da Guarita, Rio Grande do Sul." Um momento de profunda alegria e de efetiva troca de saberes.

O massacre dos estudantes de Ayotzinapa: ação coordenada do terrorismo de Estado mexicano


















Por Diógenes Breda

O dia 26 de setembro de 2014 já está gravado na história do México como símbolo da dura realidade em que vive seu povo atualmente, tal como o massacre de Tlatelolco em 68 – lembrado a cada ano nas manifestações de 2 de outubro – simboliza o início de um período de repressão aos movimentos populares da década de 70.

O massacre de Iguala

Naquele 26 de setembro, em Iguala, uma pequena cidade do estado de Guerrero, estudantes da Escuela Rural Normal de Ayotzinapa regressavam de um boteo, atividade de arrecadação de fundos com o objetivo de financiar seu translado à cidade do México para a manifestação de 2 de outubro, em memória ao massacre de Tlatelolco. Após o fim da atividade, como de praxe, haviam conversado com motoristas de ônibus para que os levassem de graça de volta à sua escola, que fica na zona rural. No momento em que saíam da cidade em 3 ônibus, por volta das 20h30, efetivos da polícia municipal lhes fecharam o caminho. Dois estudantes desceram do primeiro ônibus para tentar conversar e explicar a situação. Foram baleados tão logo apareceram na mira dos policiais. Iniciou-se, então, um ataque de meia-hora aos ônibus em que os estudantes, todos desarmados, tentavam se proteger dentro do que pouco a pouco se convertia em uma peneira, tantos eram os buracos causados pelas balas dos fuzis AR-15 dos policiais. Percebendo que dentro daquele espaço não teriam chances de sobreviver, decidiram sair dos ônibus e correr a qualquer direção, pelas ruas de uma cidade que sequer conheciam. Aproveitavam o momento em que os policiais recarregavam suas armas. Enquanto estudantes dos dois primeiros ônibus corriam para salvar suas vidas, os que vinham no terceiro, por último, foram obrigados pelos policiais a descer do ônibus e a subir nas camionetes oficiais. Foram levados não se sabe pra onde, estão até este momento desaparecidos.

Algumas horas depois do ataque dos policiais, os estudantes começam a sair das casas onde tinham sido escondidos solidariamente pela população de Iguala. Caminham até o local do ataque para resgatar os corpos de seus companheiros e registrar os rastros de balas e de sangue. Convocam outras organizações e chamam meios de comunicação. Após a conferencia de prensa – em que dão a conhecer os fatos ocorridos, o número de feridos, mortos e desaparecidos – por volta da 00h30, madrugada do dia 27, chegam ao local da conferencia camionetes com civis armados e iniciam o segundo ataque. Novamente, cada estudante buscou desesperadamente se esconder pela cidade, dando início a uma caça a “qualquer um que parecesse estudante” que durou várias horas daquela madrugada. Dos dois ataques resultaram 6 mortos – um dos quais brutalmente torturado: lhe arrancaram os olhos e a pele da face ainda em vida –, cerca de 20 feridos e 43 estudantes desaparecidos.

O relato desse episódio brutal não saiu de nenhum jornal sensacionalista, mas da boca dos próprios estudantes sobreviventes. Suas vozes de denúncia se espalharam por todo o país e correram o mundo. Uma mescla de raiva e impotência toma conta dos mexicanos nestes dias posteriores aos massacre. O sentimento, no entanto, não é “contra o poder e a impunidade do narcotráfico, que penetra em todos os poros da política mexicana”, tal como replicam os grandes meios de comunicação. Não, o que o ocorre no México é algo pior: é o funcionamento pleno de um Estado terrorista que se utiliza de métodos legais e ilegais - onde o narcotráfico é apenas mais um “sócio” – com igual naturalidade para reprimir qualquer voz questionadora do povo organizado e semear o medo na população ainda desorganizada, para que saibam dos riscos de questionar o modelo econômico e político vigente no país. É nesse sentido que o massacre dos estudantes de Iguala não pode ser entendido como um fato isolado, mas como um crime de Estado, expressão de uma guerra de contra-insurgência de caráter preventivo cujo objetivo é garantir o funcionamento de um modelo de exploração do povo e do território mexicano sem paralelo na história moderna do país.

A interminável noite neoliberal mexicana

Os ventos de transformação que varreram a América Latina nos últimos 20 anos não sopraram por aqui. As classes dominantes e o imperialismo gringo trataram de impedi-lo. As tentativas eleitorais do candidato mais à esquerda, Andrés Manuel Lopez Obrador, foram bloqueadas por duas fraudes, em 2006 e 2012, e as organizações populares mais radicais foram duramente reprimidas – como a APPO, a Asamblea Popular de los Pueblos de Oaxaca, em 2006 – ou se encontram sob duro cerco, a exemplo do EZLN. O México, portanto, está longe de ser “um país zapatista” e a luta de Pancho Villa e Emiliano Zapata há muito não guia a construção desta nação. A “longa noite neoliberal” segue plena e o amanhecer ainda não aponta no horizonte. Enquanto, em 1994, Chávez saía da prisão para ganhar as eleições venezuelanas 3 anos depois, o México assinava o TLCAN, Tratado de Livre Comércio da América do Norte. Antes, em 1988, outra fraude eleitoral impediu a eleição de Cuauhtémoc Cárdenas, filho de Lázaro Cárdenas, e dá a presidência a Carlos Salinas de Gortari, considerados por muitos como o primeiro presidente neoliberal do país. Desde então, pôs-se em marcha um projeto de subordinação completa aos interesses do imperialismo estadunidense, que se concretiza na assinatura do TLCAN, com a participação das classes dominantes, políticos de alto escalão, sindicatos vinculados ao Estado, alguns setores empresariais beneficiados pelas políticas de privatização e, claro, os empresários do narcotráfico.



















Fonte: http://www.masde131.com

Podemos resumir o projeto neoliberal mexicano que se inicia naquele momento em torno a três eixos: a intensificação da superexploração dos trabalhadores por parte do capital estrangeiro e associado com a generalização das indústrias maquiladoras; o despojo territorial das comunidades camponesas e indígenas para exploração de recursos naturais; e privatização de um patrimônio estatal nada desprezível construído durante os governos nacionalistas. O narcotráfico, neste esquema, não é um setor à margem da economia, mas participa dela tanto na produção – e portanto na exploração dos trabalhadores, inclusive em setores como a mineração – como no despojo das comunidades para a produção de drogas ou para abrir passo a entrada de empresas estrangeiras. Sem falar na “economia formal” que este setor movimenta por meio da lavagem de dinheiro na construção civil, nos bancos, etc. Seja como for, o projeto neoliberal dilacerou o país nos últimos 20 anos. México ostenta atualmente salários menores que os praticados na China e um dos menores da América Latina. O poder aquisitivo real do salario mínimo caiu 78% desde 1987, segundo dados do Centro de Análise Multidisciplinar da Faculdade de Economia da UNAM, e 60% dos trabalhadores está na informalidade. As cifras sobre a pobreza também assustam: 50% dos mexicanos estão abaixo da linha da pobreza, segundo a CEPAL, número que tem crescido nos últimos anos (se reconhecemos os limites dos critérios de medição da ONU, podemos afirmar que, na realidade, a pobreza é ainda maior). Poderíamos seguir com a crise alimentar que conjuga os maiores índices mundiais de obesidade adulta e infantil com a desnutrição crônica, e faz do país o maior importador mundial de milho – triste destino dos povos que criaram o milho, las civilizaciones del maíz, e têm neste grão a base de sua alimentação e cultura – ; com a violência contra mulheres e jovens gerada por tamanha decomposição social; com a crise migratória mexicana e centro-americana...

 “Pienso, luego me desaparecen” 

Não é difícil perceber que tamanha violação da vida das maiorias só poderia ter sido imposta por meio da violência. Ainda mais no México, país onde a capacidade combativa do povo remete à luta contra o invasor espanhol e ao projeto de construção nacional, popular e democrática da Revolução Mexicana. E assim ocorreu. A cada impugnação popular ao avanços do projeto neoliberal, repressão e massacre. Em 1995, o massacre de Aguas Blancas, Guerrero. Em 1997, o massacre de Acteal, Chiapas. Em 2006, o massacre de Atenco, Estado de México. Em 26 de setembro de 2014, massacre de Iguala, Guerrero. E, entre esses massacres que circularam amplamente nos meios de comunicação por sua dimensão, estão as mortes e as desaparições silenciosas de milhares de líderes comunitários, trabalhadores, estudantes, jornalistas ou, simplesmente, de pessoas que levantam sua voz contra a opressão que sofriam cotidianamente. A dimensão da violência e a regularidade com que foi e segue sendo cometida não permite afirmar que se tratam de fatos isolados, de abuso de poder das autoridades policiais, prefeitos e governadores. Pelo contrário, há uma estratégia, pelo menos desde a década de 80, que emana do Palácio Presidencial e conta com a participação material e intelectual do Departamento de Estado estadunidense, cujo objetivo é evitar a ascensão de qualquer movimento que questione as bases da economia mexicana e o papel do imperialismo dos Estados Unidos na região, ao mesmo tempo que abre o país para os investimentos estrangeiros e o roubo dos recursos do país, tão importantes para elevar a taxa de lucro dos monopólios internacionais em tempos de crise capitalista mundial. Pouco a pouco, cada massacre tinha como complemento o aprofundamento da dependência e do subdesenvolvimento do país. Foi assim que na década de 90 se pode colocar em marcha o saqueio quase completo do patrimônio estatal mexicano: privatizou-se praticamente todo o setor bancário, siderúrgico, químico, de telecomunicações e de transportes.
Fonte: http://www.masde131.com

A “Guerra contra o narcotráfico” iniciada em 2006 com Felipe Calderón e aplicada cabalmente pelo atual presidente Enrique Peña Nieto é a culminação desta estratégia – já bem conhecida na Colômbia – em que a repressão aberta, as mortes, as torturas e as desaparições são mecanismos habituais para garantir a “paz social”, que neste caso não significa outra coisa que a acumulação de capital sem travas. Sob o argumento de combater a “delinquência organizada” – que, na verdade, foi um reordenamento de poder entre os principais cartéis, em favor daqueles apoiados pelo governo – , somam-se nos últimos seis anos 80 mil mortes e 20 mil desaparições. Praticamente todos os crimes permanecem impunes. É por isso que não podemos falar senão de um terrorismo de Estado que articula governos federal, estaduais e municipais, as Forças Armadas, grupos paramilitares e cartéis de drogas.

O mais triste, porém, é reconhecer que o projeto das classes dominantes foi e segue sendo bem sucedido. Não se pode explicar a facilidade com que se aprovaram em 2013 as Reformas Trabalhista e Educativa, nem como se aprovou a privatização de todo setor energético – que envolve eletricidade, petróleo e gás – neste ano sem levar em consideração a eficácia da estratégia repressiva do Estado mexicano sobre os movimentos e organizações populares na última década.

 O massacre dos estudantes rurais de Ayotzinapa não escapa a este panorama de violência estatal conscientemente aplicada. Eles, como a maioria dos estudantes das Escolas Normais Rurais do país, fazem parte dos que nunca se calaram frente ao avanço do capital sobre os direitos do povo mexicano, dos que nunca se curvaram aos poderosos. As Escolas Normais Rurais, criadas na década de 1920, na esteira das conquistas da Revolução Mexicana pela universalização da educação, são um semillero histórico de lutadores sociais. Da própria Normal Rural de Ayotzinapa surgiu Lucio Cabañas, um dos mais destacados líderes guerrilheiros dos anos 70. Aqueles estudantes eram, pois, uma ameaça ao modelo econômico excludente que vigora no país. Lutavam contra a precarização da educação rural, sabiam da importância destas escolas como a única possibilidade de educação para a juventude mais pobre do país. Como filhos de agricultores, eram também solidários e marchavam juntos com os movimentos camponeses e indígenas de sua região contra o despojo de suas terras. Por esses motivos foram, assim como milhares de outros lutadores sociais, alvos do terrorismo de Estado mexicano.




















Fonte: observadorglobal.com

A participação direta da polícia municipal de Iguala juntamente com o grupo paramilitar Guerreros Unidos está comprovada. O exército e marinha, que têm bases de operação no município, e as policiais estaduais e federais, em nenhum momento apareceram para proteger os estudantes. Foram coniventes com o crime. O prefeito de Iguala, do PRD, fugiu. O governador do Estado, também daquele partido, e o presidente Peña Nieto, do PRI, afirmam que o ataque foi um ato isolado e sequer responsabilizam seus altos mandos militares. Enfim, o povo sabe que todos são culpados, que se trata de um crime de Estado. No entanto, há uma impressão generalizada de que, uma vez mais, as investigações não levarão a lugar algum.

Solidariedade aos estudantes: uma nova ascensão das lutas populares?

O massacre aos estudantes normalistas despertou imediatamente a solidariedade de todos os movimentos e organizações da esquerda mexicana. No dia 8 de outubro uma manifestação de 20 mil pessoas lotou as ruas do centro de cidade do México, e dezenas de atos ocorreram em outras cidades importantes do país exigindo a punição dos culpados e a aparição com vida dos 43 estudantes desaparecidos. A semana do dia 13 de outubro esteve marcada pela paralização de 30 das maiores universidades mexicanas e vários atos estão marcados para as próximas semanas. A exigência imediata é o aparecimento com vida dos 43 estudantes desaparecidos e a punição dos responsáveis materiais e intelectuais da matança. “Vivos se los llevaron, vivos los queremos”, gritam os mexicanos em todo país.

























Cidade do México. Manifestação em repúdio ao massacre de Iguala, 8 de outubro de 2014 
Fonte: http://www.masde131.com

Mas em espaços menores já se fala em aproveitar o momento para reconstruir a unidade entre as organizações populares – tão numerosas quanto dispersas – e  partir para uma ofensiva contra o governo. Os principais disseminadores deste discurso são os próprios companheiros de aula e familiares dos estudantes desaparecidos. Eles sabem da importância de encontrá-los com vida, mas também sabem que, se não avançarem na construção de outro projeto de país, outros massacres seguirão ocorrendo impunemente. No curto prazo, porém, parece remota a possibilidade de uma nova ascensão de lutas populares generalizadas. Outras “explosões sociais” ocorrerão, certamente, devido à própria natureza perversa do capitalismo dependente mexicano, mas as tarefa que a conjuntura mexicana impõe à esquerda é uma das mais difíceis de todo o continente e requer muito mais do que denúncias aos atos terroristas dos governos em turno. Mesmo as resistências locais se mostraram incapazes de impedir a privatização e o roubo dos recursos estratégicos do povo mexicano.

Só resta, portanto, a saída mais difícil, porém a única efetiva: a construção de um projeto nacional de maiorias que logre acumular força para combater as classes dominantes – nas quais se inclui o narcotráfico – e bloquear a penetração do imperialismo estadunidense, que faz de tudo para que México siga sendo seu quintal. O PRD, partido que há alguns anos aparecia como alternativa, já está imerso no projeto dominante e não será um aliado nesta tarefa. Tampouco o novo partido criado por Andrés Manuel Lopez Obrador, o MORENA, aparenta uma saída pela esquerda, dada sua fixação pela via eleitoral e seu desdém pelo trabalho de base. O povo só tem a si mesmo, e só das suas mãos humildes pode nascer um projeto de otro México posible. Que em suas veias volte a pulsar o sangue de Villa e Zapata.

Veja o depoimento de um dos estudantes que sobreviveram ao ataque:

https://www.youtube.com/watch?list=PLfk71Rp386qjb5A38Bpatldih9vuX-EpE&v=W2yBb-4B5FI

Quando Bento Gonçalves se encontra com os Guarani














 Imagens do Parque Histórico General Bento Gonçalves












 Rio Grande do Sul. Beira do Rio Camaquã. 1600. Já ia um século da ocupação de Pindorama, mas ainda viviam pelas imediações do rio e da Lagoa dos Patos, os índios Guarani, chamados pelos brancos de Carijós, bem como os chamados Patos. Eles tinham avistado os primeiros homens brancos em 1532 quando uma nau portuguesa entrou pelo sangradouro da Lagoa dos Patos. Receberam os estranhos com hospitalidade. Durante muito tempo os interesses dos brancos se voltaram para regiões mais ricas e essas etnias seguiram vivendo em relativa paz. Quando raiou o século XVIII começaram a chegar algumas famílias propondo-se fixar no sul do novo mundo e os indígenas começaram a se mover. Muitos foram mortos, outros escravizados, e uma boa parte fugiu. No começo do 1800 a região já tinha vários agrupamentos de famílias dispostas a desbravar o que chamavam erradamente de “terra de ninguém”.

A chegada de Dom João VI ao Brasil em 1806 deu novo ímpeto para a ocupação de terras consideradas “vazias”, e muitos de seus apadrinhados conseguiram grandes fatias. Um deles foi o alferes Joaquim Gonçalves da Silva, que recebeu a Sesmaria do Cordeiro, na beira do mesmo rio onde se banhavam desde há séculos, os índios Guarani. Joaquim passou a ser dono de terras que a vista humana nem podia alcançar. As 400 braças de terra viraram quatro grandes fazendas: da Barra, do Brejo, Paraíso e Cristal. E foi ali, nas suas terras, que nasceu a cidade de Camaquã. O senhor das terras da beira do rio dos Guarani, mais tarde veio a ser o pai de um dos nomes mais cultuados no estado gaúcho: Bento Gonçalves, líder da revolução farroupilha (1835).

Por aqueles descampados, no que hoje é a cidade de Triunfo, nasceu Bento e foi na estância Cristal que ele iniciou sua trajetória de homem do campo e da guerra. Diz a sua biografia que seu amor era pelo campo, mas uma briga que acabou com a morte do oponente levou o jovem Bento a se alistar no exército. Peleou nas campanhas cisplatinas (1811-1812 e 1816-1821) e também na Guerra de 1825. Foi soldado obediente da coroa até 1834 quando foi denunciado como rebelde. Deputado eleito em 1835, ele lidera a Revolução Farroupilha que começa em 20 de setembro do mesmo ano e dura 10 anos, inaugurando a primeira república em terras portuguesas: a República Rio-grandense.

O tempo passou, a revolução passou, e a família de Bento seguiu dominando toda a região. A cidade de Camaquã cresceu e dela desmembrou-se outro município, em 1988: Cristal, que leva o nome da famosa sesmaria. A cidade é hoje conhecida por abrigar o Parque Histórico General Bento Gonçalves, criado em 1972, um espaço de 280 hectares de mata nativa, açudes, campos e banhados. Região de fundamental importância na revolução farroupilha o parque ainda revela as trincheira cavadas pelos rebeldes e guarda a réplica da casa original do general, na qual ele viveu os últimos anos de vida, hoje transformada em museu.

Pois é justamente esse parque que agora é alvo de uma outra batalha. Ali, surgiu a ideia de criar um espaço temático indígena, em honra dos povos que habitaram o lugar bem antes do homem branco chegar.

O espaço Mbyá Guarani

O projeto foi desenhado por Pedro Eginio Leites de Alexandre, hoje diretor do Parque, que é vinculado à Secretaria de Estado da Cultura. Como a região abriga atualmente duas Tekoas Mbyá Guarani, pareceu natural que o parque pudesse conter elementos culturais dessa etnia. Pedro lembra que em 2012 o museu do Parque Bento Gonçalves realizou uma exposição fotográfica em parceria com o Museu do índio, do Rio de Janeiro, chamada "Os índios de Darcy Ribeiro". Nesse evento, além da exposição, foi criada uma programação muito rica de ações educativas sobre a questão indígena. Por conta disso, foi realizado um seminário na cidade de Camaquã, que é a cidade polo na região, buscando disseminar o conhecimento sobre a etnia. Naquele oportunidade as comunidades Mbyá Guarani foram convidadas para participar do seminário e para expor sua arte e cultura. E foi a partir desse momento fecundo, de rodas de conversas, que foi se desenhando a ideia de criar um núcleo de preservação da cultura e de apoio aos povos indígenas.

A movimentação seguiu devagar e, mais tarde, foi criada uma ala indígena dentro do próprio museu Bento Gonçalves, para onde foi levado um acervo de cestaria que estava subaproveitado no Museu de Camaquã.  "Eu estava no museu de Camaquã montando uma exposição sobre Luiz Carlos Barbosa Lessa e vi o material. Me disseram que o material não tinha nada a ver com a instituição. Não me contive e pedi que cedessem os cestos para o nosso museus. Imediatamente me entregaram tudo", conta Pedro Alexandre. A partir desse material foi criada a ala Guarani dentro do Parque Bento, onde também foram realizadas outras ações educativas.

Pouco tempo depois, o governo do Estado trouxe uma família Guarani para conhecer o Parque, sem sequer saber que ali havia um trabalho de recuperação da cultura daquela etnia. Eles conheceram o museu e ainda deixaram alguns presentes que aumentaram o acervo da ala. Mais tarde, o diretor do parque, Pedro Alexandre, foi comunicado de que havia a intenção de alocar, dentro do território do parque, algumas famílias Guarani. Segundo os representantes do governo estadual, havia uma dívida com essa etnia, por conta de obras realizadas e desalojamentos e o espaço da velha sesmaria Cristal parecia um bom lugar para a comunidade.

Os dias se passaram e a comunidade chegou. Hoje são cinco famílias fixas e outras flutuantes, pois é da tradição Guarani o caminhar pelo território. Muitas ideias fervilharam na cabeça de Pedro Alexandre, mas foi no contato cotidiano com as famílias e as lideranças que começou a se delinear uma ideia que contemplasse a história do Rio Grande Farroupilha - representada pelo donos das terras, Bento Gonçalves, e um Rio Grande indígena. Foi um momento muito rico de construção de uma nova narrativa sobre a história do Rio Grande do Sul. Aquele espaço geográfico não começara com os "gaúchos". Era ocupado desde há dois mil anos por um povo que tinha uma organização política e uma rica cultura.

O espaço temático

Pedro conta como tudo pareceu se encaixar: "Se Bento Gonçalves conseguiu carimbar este chão com apenas 57 anos de vida, o povo Guarani poderia contribuir muito mais com sua história de dois mil anos. Era hora de dividir aquele espaço". Segundo ele, estava nas mãos dessa ação conjunta - Parque e Guarani - garantir a compreensão dessa história através de ações educativas e da organização de um acervo cultural.

Mas, enquanto no espaço do parque, os administradores e a comunidade Guarani sonhavam e arregaçavam as mangas para dar início a esse processo de recontagem da história, na cidade de Cristal começaram a aparecer os obstáculos. A prefeita da cidade moveu céus e terra para impedir a criação de um espaço temático Guarani dentro do Parque Bento Gonçalves. Houve até audiência pública, liderada por ela e com a presença de pastores de igrejas pentecostais, para discutir o tema. Jornais, rádios, meios de comunicação, tudo estava contra. Era como se misturar Bento com os Guarani fosse uma heresia. Foram dias difíceis, mais a proposta se manteve em pé e agora já está esboçado o projeto. "O povo Guarani é muito querido no trato com as pessoas. Assim, eles foram visitando a cidade, conversando com os moradores, e acabaram desarmando os espíritos. Hoje, boa parte daquele preconceito já se dissipou".

A ideia agora, que a foi apresentado para as Secretarias de Estado da Cultura, de Turismo, de Desenvolvimento Rural e de Educação, é criar essa ala temática Guarani bem no cerro do Cristal, espaço que guarda lendas do povo ancestral e que se destaca na paisagem de planície. É justamente no seu entorno que todo o espaço será articulado. Na proposta, construída em parceria com os Guarani e representantes de outras etnias indígenas, bem como com indigenistas, deverá ser erguido um pórtico de madeira bruta, servindo como portal de entrada de um mundo ancestral, mas que segue vivo na cultura. Haverá também uma cerca de madeira roliça, feita de eucalipto, conforme desejo dos Guarani, que envolverá o lugar, onde estarão as árvores sagradas, as plantas medicinais e os elementos que guardam as antigas lendas.

Também serão construídas algumas roças, ao estilo Guarani, mostrando o modo de vida comunitário e suas formas de produção. Haverá a demonstração da culinária indígena, a reprodução de uma casa tradicional para que se possa compreender a cultura que se expressa também na construção. Será construída também uma opy (casa de reza), o espaço sagrado da comunidade, onde tudo se cura e ilumina, onde o criador encontra as criaturas.

Ainda será construído um museu específico para a guarda dos elementos culturais e artísticos, um espaço para a mostra do artesanato e um centro de eventos que servirá para encontros, seminários, formação e tudo o mais que a comunidade definir. Esse museu deverá ter a forma de uma casa de joão-de-barro, pássaro típico da região. Haverá ainda espaço para as representações de divindades, dos anciãos, e do fogo da paz. Será erguida uma obra representando o guerreiro Guarani e serão incentivados os grupos de canto e dança.

Tudo isso já está no papel e em processo de preparação. É um grande desafio numa cidade conservadora que tem vivido esse tempo todo da lembrança do grande general farroupilha. Não é coisa fácil para os idealizadores do espaço temático convencer autoridades e comunidade de que as duas memórias podem caminhar juntos. É fato que Bento Gonçalves foi um grande líder, mas também é fato que aquela terra - antes da invasão portuguesas - já abrigou uma vicejante e bela cultura. Toda essa história pode hoje se cruzar e conviver. Isso torna a história um elemento crítico, capaz de alicerçar novos tempos. Compreender a cultura indígena, entender o que se passou e aceitar a presença dessas etnias nos seus espaços tradicionais é construir uma possibilidade concreta de paz. O que aconteceu a mais de 1500 anos atrás não pode ser apagado, mas é possível conviver em harmonia.

É nisso que apostam todos aqueles envolvidos no processo. No parque, tudo parece esperar por isso, as árvores, as flores, os bichos e as gentes. Não resta dúvida de que será uma experiência pedagógica de imenso valor. Não se duvida de que até o espírito do general que, segundo dizem, caminha por ali, já que era fazendeiro por vocação, possa também aprender com os ancestrais Guarani, o valor da vida em comunhão. E que fique claro. Não é uma proposta de  composição de classe, coisa que também nunca aconteceu enquanto Bento vivia. É a celebração de um novo tempo, um passo para a convivência harmoniosa de uma história que ainda está sendo escrita.

Os indígenas e as eleições



















As eleições estão às portas e em todo o Brasil as forças de poder se movimentam para garantir espaços no executivo e legislativo. Como sempre acontece no sistema capitalista, o domínio do processo está no dinheiro. Quem tem mais grana consegue realizar a melhor propaganda, fazer os melhores vídeos e circular pelos espaços com mais rapidez e eficácia. Além disso, é também o dinheiro que compra o trabalho dos “militantes” que se espalham pelas ruas com bandeiras, distribuindo os santinhos. O dinheiro ainda circula na tradicional compra de votos, que se manifesta em uma série de pequenos benefícios, como cestas básicas, tijolos, cimentos e outras coisas do tipo.
No campo dos “grande poderes”, o dinheiro aparece como doações de campanha. Grandes empresas e grandes bancos, por exemplo, despendem vultosas somas para os candidatos. Na dúvida, os mais ricos investem em vários, um pouco mais ou menos, conforme a possibilidade de vitória, mostrando que a eles pouco importa o programa de governo ou o partido ao qual representam, o que vale é ficar bem com o eleito para depois cobrar o apoio em algum favor. É o dinheiro que move a máquina dita "democrática".

Correndo por fora, mas igualmente dentro do processo eleitoral, existem os grupos que tem interesses coletivos e que são minoritários no jogo de poder, tais como os camponeses sem terra, os trabalhadores informais, os indígenas. Esses também se organizam e tentam encontrar algumas brechas na institucionalidade para defender propostas que venham ao encontro de seus interesses. É certo que esses grupos, justamente por sua fragilidade econômica, têm muito menos eficácia e sucesso na abordagem eleitoral. Ainda assim, se movimentam e constituem fundos que garantem campanhas modestas, mas importantes no sentido de que oferecem outras possibilidades ao eleitorado.

No que diz respeito à defesa dos direitos e demandas indígenas, esse ano, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apresentaram-se 85 candidatos ao legislativo, incluindo aí o estadual como o federal. Um número bem pequeno a considerar a população indígena que já contabiliza quase 900 mil almas, mas, ainda assim, capaz de dar alguma visibilidade às demandas dos povos originários, uma vez que ocupam o espaço gratuito de televisão e podem repassar - em escala de massa - as suas reivindicações.

O espectro partidário onde se acomunam os indígenas varia bastante, do PSTU ao DEM. Os partidos que juntam mais candidatos indígenas são os da base governista, PT (16) e PC do B (11) – mas há um número expressivo no PSOL (12) e no PSTU (5), mais à esquerda. Os demais estão distribuídos entre os partidos menores e conservadores, apesar de serem esses partidos os que têm historicamente empreendido toda uma cultura de ódio e preconceito contra o indígena, bem como contra as demarcações de terras tradicionais. Também é digno de nota que os partidos que acumulam maior número de indígenas sejam os da base de governo - um governo que não tem sido muito receptivo com lutas dos povos tradicionais.

Os candidatos indígenas aparecem em praticamente todos os estados da federação, mas os que têm números mais expressivos são Amazonas (9), Bahia (9), São Paulo (7), Mato Grosso do Sul (7), Roraima (6) e Pará (6). Santa Catarina tem apenas um representante dos povos originários, é o cacique Hyral, da etnia Guarani, que está concorrendo a uma vaga no legislativo estadual pelo PV.
Dentre as demandas dos candidatos indígenas estão aquelas que são também comuns aos não-índios: melhoria na saúde, na educação, na estradas que levam às aldeias e a proteção do meio-ambiente. Mas, sem dúvidas, as que mais mobilizam são a batalha pela demarcação das terras, a afirmação de direitos, bem como a luta contra a proposta de lei que quer levar para o Congresso Nacional a decisão sobre as demarcações. Mesmo disputando vaga nesse congresso, os indígenas sabem que ali, são a minoria da minoria, e que contra a bancada ruralista - grande e rica - pouca chance terão naquele campo.

De qualquer forma aí estão as candidaturas que precisam ser acompanhadas e analisadas, caso algum venha a se concretizar. Até agora, em nível nacional, a única experiência de um parlamentar indígena foi a de Mário Juruna, um xavante de Mato Grosso. Ele acabou eleito deputado federal - com 30 mil votos  - pelo Partido Democrático Trabalhista (1983-1987), representando o estado do Rio de Janeiro, na época sob a liderança de Leonel Brizola.

A ação de Juruna foi muito importante para o povo indígena, ele foi o responsável pela criação da Comissão Permanente do Índio no Congresso Nacional, fato que levou a questão indígena ao reconhecimento formal por parte do governo brasileiro. Conhecido por sua desconfiança na palavra do homem branco ( gravava todas as conversas e reuniões que fazia) Juruna foi uma referência ética no congresso, chegando a denunciar publicamente o empresário Calim Eid, que tentou suborná-lo para que votasse em Paulo Maluf, candidato dos militares à presidência da república no colégio eleitoral. Juruna recusou o suborno, denunciou a trama e votou em Tancredo Neves, candidato da oposição democrática.

Apesar de toda a sua ação na defesa da causa indígena, Juruna não conseguiu se reeleger. Voltou para a aldeia onde morreu em 2002, por conta do diabetes. Na verdade, durante todo seu mandato a mídia brasileira buscou transformá-lo num elemento exótico, folclórico e bufão, tratando de ridicularizar sua estratégia de gravar tudo o que acontecia. Com isso, desviavam o foco do "problema" que era a figura e a ação de Juruna no Congresso Nacional, colocando a nu o abandono da causa indígena pelos poderes instituídos. Mas, quer queiram, quer não,   Juruna entrou para a história como aquele que colocou em pauta o tema da luta indígena no Congresso Nacional em pleno estertor da ditadura militar. Falando na tribuna, na língua Xavante, Juruna garantiu que a até então desconhecida voz indígena fosse respeitada, apesar de todas as tentativas de ridicularização e da, essa sim ridícula, tentativa de cassação do mandato por conta de ele não falar o "português" corretamente.