Chora o mundo indígena por Marcondes Nambla
11.01.2018 - Quando se vai uma vida, vai-se um mundo inteiro. Porque cada pessoa carrega em si o universo. É por isso que a morte, nossa única certeza, é tão dolorosa. Mais do que perdermos alguém que amamos é um mundo inteiro que se desmancha. Agora imaginem quando esse mundo é destruído por uma mão violenta. Um assassinato: que corta a existência na brutalidade, no preconceito, na intolerância.
Foi assim que a vida de Marcondes Nambla se interrompeu. Um homem, um pedaço de madeira e a gana insana de exterminar o que é diferente. Um homem contaminado por uma pedagogia que o mundo não-índio vem fortalecendo desde que as caravelas aportaram no Porto Seguro. Aquele que é diferente, o que não fala minha língua, o que não caminha por onde ando, o que se veste estranho, o que tem pele escura, o “outro”, esse tem de ser eliminado.
Foi assim que os portugueses foram exterminando todos aqueles que não faziam parte do seu mundo. E depois, mais tarde, seguiram fazendo a mesma coisa os nascidos nessa terra e os imigrantes. Matavam os índios para sua “segurança”. Afinal, roubavam suas terras, e eles revidavam. E eles eram os “maus”. O tempo passou, as terras foram tomadas e os poucos povos que sobraram andam por aí a mendigar seu próprio território. E continuam sendo expulsos, roubados e assassinados.
“Ah, o cara é louco. Não matou porque era índio. Mataria qualquer um”, diz um leitor em mensagem fechada, tentando me fazer crer que foi uma fatalidade. Mas a questão é: Marcondes era um índio. E estava na rua àquela hora porque teve de sair de sua aldeia para trabalhar. Porque a vida de sua gente e de sua cultura não pode se fazer no espaço parco que lhe foi dado. Tivesse terra, tivesse condição de viver como um Xokleng, não precisaria migrar para o litoral buscando conseguir uns trocados.
O mesmo se pode dizer dos jovens negros que tombam todos os dias nas favelas, nas periferias. Não estão ali por maus. Estão porque há uma sociedade que lhes tirou tudo. Que trouxe seus antepassados à força, que os escravizou, que lhes deu “liberdade” mas não garantiu terra, lhes jogou no limbo. Agora, seguem matando porque são “frutas podres” do sistema. Os matam por medo, porque sabem que eles estão lutando para garantir sua vida bonita, como todo ser humano quer.
Nessa semana os indígenas de Santa Catarina se juntaram em Penha para celebrar a vida de Marcondes, para cantar suas rezas, para incensar sua alma imortal. Guarani, Kaingang e Xokleng enfrentaram a chuva e foram fincar uma lança bem no lugar onde Marcondes caiu, atingido por Gilmar, possivelmente outro pária desse mundo erguido sobre a violência do capital.
Nada trará Marcondes de volta. Mas era preciso marcar o chão. Para que ninguém esqueça que ali foi assassinado mais um filho dessa terra. Morto por nada. Caído por ser quem é. Um índio, desgarrado de sua gente, na dura missão de sobreviver.
Mas, se para o homem que matou o Xokleng, Marcondes era nada, para sua comunidade ele sempre foi exemplo. Um professor dedicado, um pesquisador disciplinado, um cuidador de sua gente. Por isso os anciãos fizeram o sacrifício de sair de suas casas, e as gentes de todas as aldeias vieram para o litoral cantar seus cantos e honrar a memória.
Nos anos 60 do século passado até mesmos os estudiosos mais engajados na luta indígena vaticinavam que esse mundo estava acabado. Premidos pela sociedade não-índia, racista e violenta, as populações diminuíam, e iam desaparecendo. A “integração” era o que lhes restava, ou seja, sumirem nas periferias das cidades, engrossando o exército de miseráveis e famintos. Mas, nada disso se cumpriu. Os povos originários resistiram e cresceram. De 168 mil que eram em 1968, passaram a quase um milhão nesse 2018.
Estão aí, estão vivos e seguem em luta. Retomam terras, insistem na preservação de sua cultura. Não estão cristalizados no tempo. Tiveram mais de 500 anos de contato. Suas vidas estão marcadas pela ação dos não-índios, mas muita coisa ainda permanece intocada. É uma batalha cotidiana pelo direito de ser. Marcondes era um desses lutadores, na luta pela preservação da língua Xogleng.
Aos não-índios se apresentam dois caminhos: ou seguem o massacre, aceitando como normal que alguém morra porque é índio e que os originários vivam sem terra por aí, perdidos de todos os seus direitos, ou começam a compreender o que foi que aconteceu nesse espaço, a invasão, o roubo, o genocídio, a destruição e passa a defender o direito daqueles que sobreviveram ao massacre de ter o seu território e a sua cultura.
Os originários ocuparão pouco menos de 15% do território nacional caso suas terras sejam reconhecidas. Isso é praticamente nada no universo dos mais de oito milhões de quilômetros quadrados. Eles têm esse direito. Por isso a luta segue.
Marcondes não está mais. Mas, no seu caminho segue uma fileira de outros Xoklengs. E enquanto houver uma única alma Xokleng, ela resistirá. E assim se dará, com todos os demais povos originários que seguem lutando. Há vida, há luta.
Professor indígena é assassinado em Penha/SC
03.01.2018 - Penha é uma cidade no litoral de Santa Catarina, que tem apenas 21 mil habitantes. É um lugar tranquilo para umas boas férias e é por isso que no verão ganha novas cores, com a presença de turistas. Pois esse lugar bucólico acabou sendo túmulo para mais um jovem indígena desse estado que abriga hoje apenas três etnias: a Guarani, a La Klanô Xogleng e Kaingang.
Para lá tinha ido o professor Marcondes Nambla aproveitar o verão para um trabalho temporário, vendendo picolé na praia. Vivendo na aldeia e atuando como educador, foi buscar uma renda a mais, visto que esse é o destino de grande parte dos indígenas. Não têm terra para viver sua vida e vivenciar a cultura e precisar sair para o mundo, em busca da sobrevivência. É uma triste realidade para os indígenas, sempre divididos entre o que são e o que o mundo que dominou a vida originária quer que sejam: integrados.
Mas, um índio nunca será integrado. Assim como o negro, ele carrega uma marca. A marca da exclusão, a não aceitação de sua pele, sua cor, de seu modo de vida, de sua existência, como se esse mundão de terras que conforma nosso país não fosse deles também. Os índios, por originários e os negros por terem sido trazidos à força e terem garantido a riqueza da nação.
Assim que, nesse movimento por viver, a virada do ano em Penha acabou sendo o fim da linha para o professor Xokleng. Ele foi encontrado no centro da cidade, caído na rua, com visíveis sinais de espancamento. Sua cabeça foi fortemente atingida, o crânio afundado, e os parentes - da Comissão Nhamonguetá - dizem que havia sinais de que um carro tivesse passado por cima do seu corpo. Era um jovem simples, nada tinha para ser roubado. Pode ter sido um atropelamento, não se sabe se intencional ou não. Os bombeiros que fizeram a ocorrência disseram que pode ter sido espancamento. Foi levado para o hospital, mas não resistiu.
Marcondes até pouco tempo circulava pelo Campus da UFSC onde se formou no Curso de Licenciatura Indígena. Tinha uma vida inteira pela frente, na batalha pela educação do seu povo e pela preservação da língua Xokleng.
Não pisará mais na aldeia, nem ensinará os pequenos Xoklengs. Lutou pela vida no hospital, para onde foi levado. Mas, não venceu essa batalha. Morreu no final do segundo dia de 2018.
Ainda não se sabe quem matou Marcondes Nambla numa noite que seria para celebrar a vida. Nem o que aconteceu de fato. Na delegacia de Piçarras, que é responsável pela comarca, o policial Elisandro informou que esse é um tempo complicado para a polícia, pois o sistema todo está em recesso. Segundo ele, os investigadores da cidade de Penha certamente estarão acompanhando o caso, mas uma informação oficial sobre o assassinato só poderá ser dada depois do recesso, que encerra dia 8 de janeiro. Em Penha a delegacia está fechada, ainda que agentes estejam de plantão. Elisandro diz que a investigação está andando, mas ainda assim há que esperar.
Enquanto isso, a comunidade Xokleng chora seu filho. Um a mais que é arrancado da vida, esse dura vida de povo originário, perdido de direitos.
O eclipse
14.11.2017 - Um magnífico conto do escritor hondurenho, Augusto Monterroso Bonilla, nascido em Tegucigalpa, naturalizado guatemalteco, conhecido pelas suas coleções de relatos breves e hiperbreves. Militante popular participou da luta que derrubou o ditador Jorge Ubico em 1944. Nesse pequeno texto, Augusto reafirma o profundo conhecimento do povo maya sobre a natureza. Um riqueza!
El eclipse
Cuando fray Bartolomé Arrazola se sintió perdido aceptó que ya nada podría salvarlo. La selva poderosa de Guatemala lo había apresado, implacable y definitiva. Ante su ignorancia topográfica se sentó con tranquilidad a esperar la muerte. Quiso morir allí, sin ninguna esperanza, aislado, con el pensamiento fijo en la España distante, particularmente en el convento de los Abrojos, donde Carlos Quinto condescendiera una vez a bajar de su eminencia para decirle que confiaba en el celo religioso de su labor redentora.
Al despertar se encontró rodeado por un grupo de indígenas de rostro impasible que se disponían a sacrificarlo ante un altar, un altar que a Bartolomé le pareció como el lecho en que descansaría, al fin, de sus temores, de su destino, de sí mismo.
Tres años en el país le habían conferido un mediano dominio de las lenguas nativas. Intentó algo. Dijo algunas palabras que fueron comprendidas.
Entonces floreció en él una idea que tuvo por digna de su talento y de su cultura universal y de su arduo conocimiento de Aristóteles. Recordó que para ese día se esperaba un eclipse total de sol. Y dispuso, en lo más íntimo, valerse de aquel conocimiento para engañar a sus opresores y salvar la vida.
-Si me matáis -les dijo- puedo hacer que el sol se oscurezca en su altura.
Los indígenas lo miraron fijamente y Bartolomé sorprendió la incredulidad en sus ojos. Vio que se produjo un pequeño consejo, y esperó confiado, no sin cierto desdén.
Dos horas después el corazón de fray Bartolomé Arrazola chorreaba su sangre vehemente sobre la piedra de los sacrificios (brillante bajo la opaca luz de un sol eclipsado), mientras uno de los indígenas recitaba sin ninguna inflexión de voz, sin prisa, una por una, las infinitas fechas en que se producirían eclipses solares y lunares, que los astrónomos de la comunidad maya habían previsto y anotado en sus códices sin la valiosa ayuda de Aristóteles.
Enfrentando os caminhos: desde baixo e em rebeldia
09.11.2017 - Conferência realizada pela jornalista Elaine Tavares, do IELA, durante o encerramento do Singa (Simpósio Internacional de Geografia Agrária), em Curitiba, no dia 05 de novembro.
Todo o debate realizado aqui mostrou que a terra é hoje, e sempre foi, o ponto central das disputas no mundo. Mas queria colocar uma questão para a gente pensar: por que, nesse momento histórico nós somos os “de abajo”. Responder esse ponto nos leva a refletir sobre nossa realidade. Somos os “de baixo” porque nos tocou viver dentro do sistema capitalista de produção em que para que um viva, outro tenha de morrer. Essa é a lógica e a natureza desse modo de produção. E é assim que se constitui um em cima e um embaixo.
Vivemos na América Latina, esse é o nosso espaço geográfico. Lugar que o sistema elegeu como periferia. Como já apontou o teórico Günder Frank nosso capitalismo é e sempre será dependente, uma forma específica de capitalismo, o outro lado da moeda. Não somos um espaço “em desenvolvimento”, ou passível de desenvolvimento. Por aqui, já dizia Frank, só pode se desenvolver o subdesenvolvimento.
Então, sendo periferia do sistema capitalista, na ordem das coisas o que nos cabe é ser exportador de matérias primas. Então, para o sistema, precisamos apenas plantar grandes extensões de terra, monocultura, e deixar que os grandes tirem do solo todas as demais riquezas. Não nos cabe, na divisão internacional do trabalho, produzir ciência, conhecimento, manufaturas, nada.
Dentro das nossas fronteiras contamos com uma elite que atua como sócia menor do grande capital, sem qualquer sentido de amor pela pátria/mátria ou pelo povo do lugar. A pátria dessa gente é o dinheiro. Por isso mesmo, como afirma Ruy Mauro Marini, vive também um processo de cooperação antagônica com o imperialismo, servindo a ele nos seus interesses, se comportando como um exportador de matérias primas, e por outro lado, buscando constituir também uma periferia que lhe sirva, atuando como subimperialista na América Latina. O que não lhe tira a função de periferia do capital.
Sendo assim, nesse sistema, nós, os trabalhadores, estamos fadados à superexploração, também um conceito de Marini, ou seja: trabalhamos mais tempo, com mais intensidade e o salário que recebemos, a maioria de nós, está abaixo do que seria necessário apenas para manter a vida. Essa é a condição da superexploração. Ou seja, o capital mete a mão no nosso fundo de vida. Não satisfeito com isso agora procura estender a vida dos trabalhadores, a partir da indústria farmacêutica, e ao mesmo tempo tirar deles a possibilidade da aposentadoria. Mais tempo de exploração. Isso acontece aqui no Brasil e em todo o mundo onde esse direito foi conquistado.
Na geografia do capital somos um território de saque. De recursos naturais e humanos. Desde 1492, quando a Europa – notadamente Portugal e Espanha – mundializam a realidade e, com suas navegações e invasões globalizam a economia, não tivemos mais as condições materiais de garantir soberania.
Antes da chegada dos europeus tínhamos nosso próprio modo de organizar a vida, que não era como o feudalismo europeu, que não era o capitalismo. Nos grandes estados que se conformavam aqui a lógica era tributária e as relações sociais marcadas por outra lógica. Na maioria dos povos imperavam outros elementos e formas de ver o mundo. Cito aqui quatro princípios que aparecem em praticamente todas as culturas viventes nesses espaço antes da conquista.
1 - Princípio da Correspondência – Tudo se corresponde, o pequeno com o grande, o interno com o externo, a terra com o cosmo. Por isso os fenômenos de transição como as nuvens, os montes, os solstícios, as fases da lua são coisas sagradas. Tudo liga o hapaq pacha(espaço de cima) ao kay pacha (o aqui, agora) e ao ukhuy pacha (mundo dos ancestrais).
2 - Princípio da complementariedade – Todas as coisas têm uma contraparte, um ser sozinho é incompleto, a oposição não serve para paralisar, mas para dinamizar a realidade. Há uma relação nas oposições, um equilíbrio dialógico.
3 - Princípio da reciprocidade - A cada ato deve corresponder um ato recíproco, seja entre humanos, humanos e natureza, humanos e divindades. A ética, portanto, não está limitada ao humano apenas. Há uma ética cósmica. Para eles a reciprocidade não é um ato de vontade individual, mas um dever cósmico que reflete a ordem universal da qual o ser humano é parte. Isso é o que determina o senso de justiça.
4 - Princípio da ciclicidade - o tempo e o espaço são coisas que se repetem, há um movimento circular ou espiral interminável. Cada círculo é um ciclo, uma estação. Não há nada de novo, tudo volta. O tempo é uma relacionalidade cósmica, como o bater de um coração. Para eles o tempo se divide entre o antes e o depois e tem densidade, tempo forte, tempo fraco. Cada lapso no tempo tem o seu propósito e não é dado ao homem pressionar o tempo. Tudo é feito na hora que tem de ser feito.
Claro que não era o paraíso, havia guerras, havia formas de escravidão, enfim... Mas, as culturas se moviam e avançavam.
Pois bem, tudo isso foi destruído violentamente pela conquista. Arrasadas as cidades, os estados, as culturas, o pensamento.
O resultado disso tudo foi a colonização violenta: do território, do pensamento, da política, da economia, da cultura e da arte, de tudo. As grandes extensões do território, que tinham um caráter comunitário, viraram propriedade privada, um modo de vida deixa de existir para nascer outro fundado na exploração das terras e das pessoas.
O hoje
No mundo globalizado a vida é comandada desde fora. Nesse tempo que Lenin chama de imperialismo, os monopólios ditam as regras, que são internacionais, ou seja, valem em todo o planeta. Consolida-se a ideia de que o capitalismo é uma ordem que melhora a vida das pessoas no geral, basta que a gente se esforce.
Com isso, passa-se a inviabilizar os grupos e classes que lutam/resistem em nível local. Os interesses dos monopólios capitalistas transnacionais aparecem como os interesses gerais, contando para isso com a parceria dos meios de comunicação que universalizam interesses particularistas.
Sendo assim, se tudo está globalizado, eles perguntam: importância tem a luta de um milhão de índios, quando está em jogo a melhoria de vida de bilhões de pessoas? Por que preservar um parque, um rio, se milhões podem ser beneficiados com a produção de energia? Essas são verdades que a mídia corporativa – braço armado do capital – reproduz. O controle do espaço sempre serve aos interesses do capital. Por isso há que inventar um consenso de que há muita terra para pouco índio, que os sem terra destroem as matas (o agro negócio sim é pop, é tec, é vida). Há que dizer que os quilombolas são inúteis e que não pode meia dúzia de negros querer discutir um tempo que já passou. Por isso, o sistema capitalista, com o apoio das mídias comerciais procura destruir conceitos como comuna, soviets, ejido, ayllu, terras comunais, porque eles implicam em outra forma de organizar a vida: comunitária, coletiva. Tudo que implica local, nacional, comunitário é completamente rechaçado pelos gestores do capital.
É nessa “vibe” que nós estamos, entrando inclusive numa nova era, com a aparição e o lento consolidar de outro império: o chinês, que é a grande nova locomotiva do mundo capitalista globalizado. Se vocês prestarem a atenção verão o quanto a China está entrando com força na América latina, não apenas vendendo bugigangas, mas abocanhando territórios, comprando terras, financiando negócios gigantescos, como a obra do canal na Nicarágua, por exemplo, ajudando a destruir e a reprimir as lutas locais. A China tem sido desde 2009, o principal parceiro da América Latina – em alimentos e matérias primas – tanto que os portos do Pacífico já ultrapassam os do Atlântico em negócios.
Bueno, resumidamente é essa realidade que nos coloca no campo dos “de baixo”.
E, sendo os de baixo, oprimidos com tanta violência, nada mais nos resta senão a rebeldia. E isso não é coisa de agora. Na nossa Abya Yala essa rebeldia começa poucos meses depois da chegada da frota de Colombo, quando o cacique taíno Hatuey percebe que aqueles homens que ali estão não vieram em paz. Ele então rema de Dominica até a ilha de Cuba para organizar a rebelião...
E desde aí, é a história... Estamos, então, desde o final do 1400 em contínuo processo de luta contra a dominação. Por vezes temos alguma vitória, mas no geral, perdemos.
Como pátria grande tivemos agora, na contemporaneidade, um momento único, quando Hugo Chávez vence na Venezuela e traz com ele a espada e as ideias de Bolívar. Pela primeira vez desde a conquista, vários países da AL encontram um caminho conjunto de resistência e pela primeira conseguem impor uma estrondosa derrota ao império, impedindo a consolidação da Alca. Importante lembrar que esse processo começa em 1994, quando os zapatistas no México se levantam em armas, num momento em que o mundo globalizado alardeava o fim das grandes narrativas, o fim das utopias. E esses índios esquecidos de Chiapas incendeiam o mundo com suas armas e sua palavra. Hugo Chávez vem logo depois e a América Latina começa a viver um período no qual palavras como soberania, pátria grande, cooperação passam a ter sentido real.
Depois, vêm as grandes mobilizações indígenas no Equador, na Bolívia. Vem a virada na Argentina, no Uruguai, na Nicarágua, Brasil, Paraguai, enfim, uma configuração jamais vista. No nosso território a ilha de Cuba resistira sozinha por muito tempo, e agora tinha parceiros. Foi um momento estelar. Telesur, Banco do Sul, Unasul, fraternidade com o Caribe, essa região esquecida e desconhecida.
Mas, esse ascenso popular não ficou barato. O império respondeu com força. Tentativa de golpe na Venezuela (2002), Invasão do Haiti (2004), golpe em Honduras (2009), golpe no Paraguai (2012), permanente ataque a Venezuela, golpe no Brasil (2016) e em meio a tudo isso, violento rechaço às lutas que, ao fim e ao cabo, são lutas pelo território. O capital, querendo abocanhar tudo e os indígenas, quilombolas e empobrecidos na batalha por terra e moradia. Nessa guerra contra os trabalhadores e os empobrecidos vale tudo: assassinatos, desaparições, aplastamento. Nada muito diferente do que sempre foi.
No Brasil, vivemos nosso drama também. Um governo que por 13 anos teve a possibilidade de fazer reformas estruturais, e que não as fez. Teve a chance de organizar os trabalhadores, e não o fez. Ao contrário, cooptou e domesticou. O resultado foi o que vimos em 2016. Um golpe judiciário/parlamentar dado, e a completa incapacidade de reação. A classe trabalhadora, mesmo aquela fatia que saiu às ruas em grande número num primeiro momento, como bem avalia o Plínio Sampaio Jr, estava desarmada, e não tem conseguido ainda dar a devida resposta ao golpe. Tudo acontecendo numa sequência vertiginosa.
E com o golpe, vamos vivendo também uma regressão igualmente vertiginosa. Perda de direitos, fascistização da vida, fortalecimento da oligarquia rural, regressão ambiental, a legalização da escravidão, fundamentalismo religioso. A treva total.
Os monopólios, que são o governo mundial, seguem firmes reordenando o espaço geográfico conforme seus interesses, e a modernização conservadora segue a passos largos, aparentemente sem encontrar adversários à altura. Vivemos perdas e perdas.
Diante disso a questão que se coloca é: que fazer?
Temos dois caminhos: ou seguimos acreditando que o capitalismo pode ser humanizado e centramos as baterias na disputa de espaços dentro do sistema, na disputa das políticas públicas para melhorar aqui e ali, ou pegamos o touro à unha, direto nos cornos. Conspiro da segunda opção. A conciliação de classe e a tentativa de “negociação” com o capital já mostraram definitivamente que não é possível caminhar em união com o sistema: não há possibilidade de vida melhor para a maioria, não há desenvolvimento sustentável. No capitalismo, não há.
O capitalismo já mostrou que não está preocupado com as pessoas. Não tem piedade, nem compaixão. Não está preocupado com o comunitário, com o bom viver. Seu destino é crescer e acumular. É um metabolismo sem controle como diz Mèszaros.
A única saída para os de baixo é destruir o capitalismo, criar nova forma de organizar a vida. Com um detalhe: na América Latina, precisa levar em conta a nossa herança originária. Nenhuma proposta pode ser construída sem a participação efetiva do mundo originário. Até porque é esse mundo que hoje faz a luta de resistência mais importante. A luta real pelo território. A luta pela natureza, que não é pastiche nem ritualizada em firulas pós-modernas. A proposta do mundo originário é o bem viver. Temos que dar ouvidos a isso. Incorporar essa cosmovisão à nossa velha ideia de socialismo. No caso do Brasil, onde a maioria da população é negra, esse povo também tem de ser ouvido. Suas memórias de África, sua cosmovisão, sua forma de organizar a vida. Esse é o desafio... Incorporar as formas de viver daqueles que conformam nossa matriz como povo, e que já dispunham de mecanismos para o bem viver no passado.
Não se trata de voltar no tempo, mas de tirar desse passado o que foi bom e constituir outro tecido, no qual esses elementos sejam reinventados. Um encontro real entre o mundo originário deste nosso espaço geográfico, com o dos negros que foram trazidos à força e com o socialismo, que foi a resposta europeia ao capital. Tudo isso pode nos levar a uma proposta nova de vida.
Então, a desalambrar, como diria Daniel Viglietti, ou os sem terra... A desalambrar. Romper as cercas do capital e caminhar para a felicidade.
México: começa a campanha zapatista
22.10.2017 - No ano de 2006, quando de eleições presidenciais no México, os zapatistas escolheram o Delegado Zero para sair pelo país, visitando os 32 estados, realizando o que chamaram de “outra Campanha”. Eles queriam andar pelos caminhos discutindo a grande política, os verdadeiros problemas do México, sem disputar nenhum cargo. Naqueles dias foram bastante criticados e acusados de atrapalhar a campanha de Lopez Obrador, então candidato da ala mais progressista. Mas, os zapatistas não se importaram e realizam o trabalho, juntando milhares e milhares de pessoas por onde passava o Delegado Zero. Sua proposta, plasmada no lema: abaixo e à esquerda, era refletir com os mexicanos a necessidade de superar o capitalismo, governar obedecendo, na horizontalidade e na igualdade.
Nesse ano de 2017 os zapatistas aprovaram outra estratégia e, depois de muitas discussões, apresentaram uma candidatura para disputar as eleições. Essa candidatura representa os princípios do Conselho Indígena de Governo e atua mais como uma porta-voz de todo o processo zapatista de bom governo. O nome escolhido foi o de Marichuy, uma mulher indígena.
A proposta de campanha do CIG segue o rastro daquela outra levada pelo Delegado Zero anos atrás. Circular pelo país juntado as gentes e discutindo os grandes temas nacionais. Esse recorrido já começou e a cada pouco Marichuy aparece em alguma região para massivas rodas de conversas. Outra vez, a forma de fazer política dos zapatistas recebe críticas. E outra vez são acusados de atrapalhar uma possibilidade progressista. Mas, os zapatistas seguem, lentamente, procurando fazer debates em profundidade, capazes de realmente tocar as mentes e os corações naquilo que é estrutural no México. O propósito eleitoral é secundário. O principal é levar informação e formação.
A caminhada de Marichuy pelo México segue entre percalços. No dia 15 de outubro, quando ela chegava à região de Altamirano y Ocosingo, os sinais de celular e de internet foram cortados, para atrapalhar a comunicação. Os poderosos sabem que a comunicação é um dos elementos mais importantes no processo zapatista. Mas, apesar das sabotagens a vida segue e a caminhada também. “Nem a porta-voz do Conselho Indígena de Governo, nem os zapatistas são a solução: a solução são vocês, é cada um de nós”. Essa é a palavra que ecoa nos caminhos.
Nos chamados Caracois, espaços de governo zapatista, a recepção da caravana de Marichuy tem sido quente e massiva. Milhares de pessoas se movimentam pelas veredas até os locais de encontro que são sempre acompanhados de bandas locais, festas e outras atividades culturais. E ninguém se importa de esperar horas ao sol. Ao contrário dos comícios de outros candidatos, eles não estão ali para receber brindes ou migalhas em troca de votos. Não. Eles estão ali para ouvir a palavra que lhes representa. A palavra do movimento que tem garantido terra e bom governo. Eles ouvem e se enchem de esperanças: “Nossos avós sonharam com isso. Eles não puderam ver uma mulher indígena disputando a presidência, isso nos toca a nós”.
Nessas andanças zapatistas, a mulher é a figura mais destacada. E as comandantas que fazem uso da palavra lembram sobre como era a vida de todas elas antes do levantamento armado de 1994, quando assomou o exército zapatista desde a Selva Lacandona. “Era trabalho duro, humilhações, violações, nossos filhos forçados a trabalhar desde muito cedo, castigados sem dó, dívidas jamais pagas, opressão”. Isso acabou depois que assumiram a rebelião, deram sentido à raiva, adentraram à selva e começaram a construir uma nova forma de viver.
As mulheres sabem o quanto avançaram e hoje são comandantas, conselheiras, membros das juntas de bom governo. Por isso são elas que abrem as caravanas, junto com Marichuy. Ela sempre chega ladeada por meninas e anciãs, representando o caminho percorrido e o que ainda tem para andar. Tudo é cheio do simbolismo das gentes originárias. E elas cantam, enquanto cobrem com flores a porta-voz do movimento: "Maria de Jesus, não te vendas! Maria de Jesus, não te rendas! Maria de Jesus, não claudiques! Maria de Jesus, não estás só! Com quem estás? Com o povo!” É de arrepiar.
O Conselho Indígena de Governo, na figura de Marichuy, não traz promessas. A proposta é um chamado à organização. Até agora o CIG tem 141 conselheiros representando 35 povos de 62 regiões do país e a ideia é estar organizado nas 93 regiões do país. Sempre na lógica do mandar obedecendo, o jeito chiapaneco de ser.
O recorrido de Marichuy apenas começou, mas já está mobilizando os lugares. O Caracol de Oventic chegou a reunir mais de 10 mil pessoas no dia 19 de outubro para ouvir a palavra que anda: "Embaixo, desde o fundo da terra, a dignidade está nascendo num novo mundo em meio à destruição, à dor e à raiva de nossos povos, dos campos e das cidades. Do povo trabalhador que é explorado até a morte, despojado de tudo o que tem, reprimido por pensar e rebelar-se, depreciado por ser diferente, por ser pobre, por ser mulher, por falar na nossa própria língua, por dizer a verdade, por olhar para baixo e não para cima, por voltar a ver a companheira e o companheiro em vez do amo, o cacique, o patrão, o mau governo. Por isso dizemos novamente que no relógio disso que chamamos humanidade, agora se marca a hora do que somos, do que fomos e do que seremos”. É a palavra de Marichuy.
E assim vai seguindo a caravana zapatista por dentro do México profundo, acompanhada pelo vento forte da presença e do exemplo de Emiliano Zapata e sua gente. “É a primeira vez na história do México que uma mulher indígena vai dizer que temos a capacidade de governar um país. E quando ela diz que pode, com ela também o dizemos todas”.
Os zapatistas sabem que não será fácil esse caminho. Precisam recolher assinaturas para formalizar a candidatura de Marichuy e já enfrentam muitas formas de sabotagem. Mas, isso não é novidade na vida desse povo que está em luta desde a invasão em 1492. Assim que a caravana seguirá pela estrada, construindo uma agenda nacional, formando grupos de trabalho sobre terra e território, autonomia, mulheres, jovens, crianças, pessoas com deficiência, migrantes, diversidade sexual, justiça, trabalho e exploração. Hoje, nas áreas zapatistas já se pratica o bom governo. E o México um dia poderá viver essa beleza também.
Por isso, a campanha segue: abaixo e à esquerda!
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