Segue a luta pela liberdade do Povo Mapuche

Integrantes do Povo Mapuche, em luta por terra e autonomia, são presos com base na Lei Antiterrorista, criada na época de Pinochet. A mídia não mostra, mas a luta pela libertação continua. Hoje, diversos presos políticos fazem greve de fome. Querem liberdade. Não são terrositas nem criminosos. São lutadores sociais.


Na terra do Minotauro











Era manhã cedinho quando chegamos a Heraklion, capital da famosa ilha de Creta, espaço bendito do deus Taurus. Tudo ali evoca o sagrado. Desde o mar, azul demais, morada de Posseidon, até os corredores labirínticos do palácio de Knossos. Mas, foi difícil a tarefa de conectar com toda esta história antiga, repleta de mitos e lendas, devido ao burburinho dos turistas que mal escutam a fala das gentes locais, preocupados em tirar fotos. Depois de certo desconforto com tanta gente, tivemos sorte. A guia, que falava um fluente espanhol, era uma senhora de quase 70 anos, de nome Catarina. Experiente na profissão, ela levou o pequeno grupo do qual eu fazia parte pelo caminho inverso. Assim, enquanto todos os barulhentos turistas começavam o passeio pela porta de entrada principal, nós começamos pelo final, no anfiteatro.

A ilha de Creta é a maior ilha da Grécia e a quinta maior do Mediterrâneo. Transformada hoje num Centro Mundial de Turismo, tem 260 quilômetros de comprimento, variando de 12 a 60 na largura, e 650 mil habitantes que se dividem por entre três grandes cordilheiras. Está ao sul do Mar Egeu e tem sua economia baseada no turismo e na cultura da vinha, da oliveira e dos cereais. Segundo a história, ela já foi habitada desde o neolítico, há cinco mil anos antes de Cristo. Mas foi já na Idade do Bronze, no ano de 3000 a.C que na ilha floresceu uma das mais antigas civilizações da Europa: a civilização cretense. Por volta do ano 2000 a.C começa o período minóico, no qual foram construídos palácios gigantescos. Havia um profundo conhecimento da engenharia, da astronomia e o povo cultuava um deus personificado na figura do Touro. Conta-se que no ano de 1.700 a.C aconteceu um terrível terremoto que colocou no chão quase todos os palácios, mas, sob o comando do rei Minos tudo foi reerguido, com maior pompa e riqueza de detalhes, em alabastro, pedra e madeira.

A cultura minóica é reverenciada na Grécia como um dos momentos de grande desenvolvimento dos povos antigos. O povo de Creta dominava os mares e tinha a maior frota da época. Seu declínio começou por volta do ano 1.400 a.C. quando o vulcão de Santorini cuspiu fogo, seguido de um forte terremoto. Naqueles dias, uma onda gigante atingiu a frota e abriu caminho para a ocupação grega, que chegou sem guerra, uma vez que quase tudo estava destruído.

A descoberta dos palácios
O tempo passou e a civilização minóica virou lenda. Entrou para a cosmogonia grega como o território de um mito: o do Minotauro, monstro metade homem, metade touro, que vivia nos labirintos dos palácios do rei Minos e que só era acalmado com o sacrifício de virgens. Conta a lenda que ele – que era filho de Minos - só foi destruído quando Ariadne forneceu a Teseu o segredo para entrar e sair do labirinto. Ele entrou, matou o monstro e saiu seguindo um fio que deixara preso à entrada do palácio. Na verdade, conta Catarina, o mito do Minotauro surgiu por conta de que, na ilha, o Touro era reverenciado como um deus e nas festas de primavera havia celebrações onde os jovens dançavam e brincavam com um touro. Estes afrescos podem ser vistos com detalhes no Palácio de Knossos.

Até 1890, os palácios do rei Minos eram considerados frutos da imaginação dos contadores de história. Foi nesta época que um morador da ilha, coincidentemente chamado Minos, encontrou algumas cerâmicas com inscrições e percebeu que ali poderia estar um tesouro. Ele tentou levar adiante a escavação, mas, naqueles dias, o território estava ocupado pelos turcos, que não permitiram a busca. Foi em 1900 que um inglês chamado Sir Artur Evans, atraído pelas histórias dos palácios veio para Creta e comprou a colina onde Minos havia encontrado as cerâmicas. Não demorou muito e os palácios estavam descobertos, tudo sob a tutela do Museu Britânico. Hoje, o palácio de Knossos é parada obrigatória de quem vai à ilha e uma caminhada por ele torna bastante óbvia a origem da lenda do labirinto. O lugar é gigante e suas edificações são cheias de labirintos de salas e corredores.

A civilização minóica, que floresceu sob o comando do rei Minos era festiva e alegre. Tanto os homens como as mulheres passavam grande parte do tempo em atividades lúdicas, ao ar livre. Gostavam de dança, canto e touradas. Tinham uma escrita própria que demorou muito a ser decifrada. Na verdade, boa parte permanece inacessível, apenas se decifrou uma que trazia dados sobre o palácio, tais como detalhes da construção e controle dos armazéns. As diferenças de classe eram quase inexistentes e havia um equilíbrio muito grande. Minos era considerado um rei muito justo e no seu trono de pedra – o mais antigo da Europa – está estampado um glifo que representa um animal com cabeça de águia, corpo de leão e serpente, representando os três elementos da cosmogonia cretense: o céu, a terra e submundo.

Andando no labirinto
Sob o sol de quase 40 graus o palácio de Knossos adquire uma luminosidade impar e fica difícil imaginar um monstro meio homem, meio touro andando por ali em busca de virgens. Mais fácil pensar numa comunidade simples e prosaica, vivendo feliz à beira do mar. A estrutura tem um grande pátio central e um outro na parte oriental, próximo aos aposentos da rainha. Há grandes buracos com vasos gigantes, sobras de rituais e cerimônias sagradas. A sala do trono é pequena e muito singela. Há um pequeno trono de pedra e uma cabaça ritual, onde Minos fazia suas oferendas. Nela eram colocados óleos sagrados que fluíam para debaixo da terra, onde reinava a serpente, deusa do submundo, controladora dos terremotos. O teto é baixo e com pouca luz, para deixar mais profundo o ar de mistério. Já os aposentos pessoais, tanto do rei quanto da rainha são altos, arejados e cheios de luz, com pátios internos por onde crescem plantas.

Há dezenas de corredores de armazéns onde se guardavam o óleo, o ouro, a prata e os mantimentos. As paredes são pintadas com afrescos cheios de delicadeza e graça. Os homens são representados em marrom e as mulheres em branco, sempre com roupas frescas e vaporosas. Também aparecem com muitas jóias e em cenas de brincadeiras com o touro, danças e jogos.

O touro era sagrado porque a comunidade acreditava na antiga lenda de que o principal deus daquelas terras, Zeus, disfarçado de touro, havia raptado Europa e com ela gerara um filho. Este filho seria o rei Minos, daí a sua fama de homem sábio e justo, uma vez que era um semideus. Por conta desta lenda, todos os anos, acontecia a “taurocatapsia”, uma espécie de brincadeira com o touro, que reunia os jovens em jogos, acrobacias e festas, tendo nascido daí a lenda do Minotauro.

O palácio de Knossos também tem um sistema hidráulico muito sofisticado. Pode-se perceber que os cretenses tinham vários banheiros e cultivavam o hábito do banho diário. Há um sistema de canais que dividiam as águas negras da água da chuva, esta última sempre seguindo o rumo do rio, para que fosse renovado o ciclo da água. É bom lembrar que os construtores de Knossos também estão imortalizados pela história grega: são os arquitetos Dédalo e Ícaro. Para quem não se lembra, foi de cima de uma das torres do palácio que, Ícaro – sonhando em voar como pássaro - alçou vôo com suas asas coladas com cera. Diz a lenda que tanto chegou perto do sol que a cera foi derretendo e ele caiu no lindo mar Egeu.

A saída do palácio fez-se pela entrada norte, que dá caminho para o mar. Era por aquele portão que entravam e saiam os trabalhadores que tornaram famosa a frota cretense. Não é sem razão que bem ali está um enorme afresco com a figura de um touro. É Taurus, o deus, guardando e vigiando a vida de seus súditos.

Pelo caminho de mais de dois mil anos, ainda bastante bem conservado, seguimos em direção ao porto com a profunda sensação de ter estado num lugar mágico. Apesar do buliço das gentes, as colunas pretas imitando o alabastro, os afrescos cheios de vigor e a figura do deus em todo o lugar, dão a oportunidade de um encontro único com um povo antigo que, há mais de cinco mil anos, ali viveu de maneira tão alegre e pacífica. A brisa fresca das árvores que margeiam a saída do palácio murmura bênçãos, o touro nos mira e nos despedimos com a certeza de que os deuses ainda guardam o lugar.

Na ilha de Patmos


Caverna onde São João escreveu o Apocalipse


Minha mãe era uma cristã devota e desde pequena estive mergulhada no mundo jesuânico. Por outro lado, meu pai era um compulsivo comprador de livros e aprendi a ler num desses que tratavam dos deuses e mitos gregos. Depois, mais crescida, me apaixonei pelos deuses originários aqui de Abya Yala. O resultado é que vivo submersa nestes mundos todos, cheios de deuses pagãos, mitos e santos cristãos. Nem perguntem como, mas consigo conviver com todos de forma muito harmônica. Creio que é porque, ao final, tudo é muito parecido. Os deuses, sejam lá quais forem, são as redes onde descansamos nossos corpos despedaçados.

Pois foi cheia de reverência que cheguei à ilha de Patmos, na Grécia. Lá eu encontraria duas figuras que tinham muito importância para mim. A primeira delas era a grande Ártemis, a esplendorosa deusa da caça, adoradora da lua. E a outra era a do mais amado apóstolo de Jesus, João, que naquele lugar recebeu a revelação do livro sagrado do Apocalipse.

Patmos é uma das muitas ilhas do belíssimo mar Egeu. Tem pouco mais de 36 quilômetros quadrados e uma população que não passa das três mil almas. Ali, o ponto onde acorrem os turistas é a famosa caverna onde João teria escutado a voz de Jeová. E ali está ela, no alto da formação rochosa, com uma deslumbrante vista para o mar. Mas, o que era no ano 95 D.C. apenas uma cova no alto da montanha, agora é um lugar de peregrinação dos cristãos. A caverna se mantém, mas lá dentro há um belíssimo altar, com os famosos afrescos bizantinos.

Envolto em prata está o buraco onde João descansava a cabeça e também o outro onde ele colocava a mão para erguer o corpo já envelhecido. Também se vê uma espécie de púlpito, entranhado na rocha, lugar que teria servido de apoio para o escrivão do apóstolo, o jovem Próforo. No alto da caverna pode-se ver a rocha fendida, dizem, pela voz troante do próprio deus pai. Lá dentro são proibidas as fotos e as gentes entram e saem em profusão. Praticamente não há tempo para um encontro místico com aquele que foi o amado do Senhor.
A caverna de João agora está protegida por uma imensa fortaleza, dentro de cujos muros está um enorme mosteiro, construído por Alexandre I em 1.088, logo depois do cisma da igreja que resultou na divisão entre a Igreja Católica Romana e a Ortodoxa.

Ali, durante muito tempo, esteve guardada uma grande biblioteca, considerada a mais rica dos países balcânicos. Hoje, no museu que fica dentro do mosteiro, é possível se ver coisas como parte do evangelho original de São Marcos, escrito em pele de cabra, a carta do imperador Alexandre I autorizando a construção do mosteiro, o Livro de Jó, e um livro pintado à mão de Gregório da Capadocia, além de outras relíquias da igreja ortodoxa. Também no mosteiro é possível observar a diferença radical que existe entre a arte católica, baseada em temas, e a bizantina (oriental), que se concentra nas figuras humanas, sempre retratadas de forma muito simples, mais voltada à espiritualidade.

Na ilha de Patmos seguramente 100% das pessoas professam a fé cristã. Já quase ninguém se lembra da deusa originária, Ártemis. Por isso, quando, no meio do mosteiro cristão, eu insisti em saber da deusa, a guia mostrou-se hesitante. “Já ninguém mais fala dos deuses antigos”, disse, incomodada. Depois, num átimo, lembrou-se que sua mãe chama-se Artemísia, coisa que deveria ser em memória da deusa. E mais surpreendida ainda contou que se chamava Vera, nome da filha de Glauco, a mais amada sacerdotisa de Ártemis. “Não sei se minha mãe pensou nisso quando me deu este nome”. Eu, já tomada pela energia da deusa, entendi que sim. Ali estava viva, a cultura originária, ainda que subsumida pela cristandade. Vera contou também que o lugar onde pisávamos - o chão de mármore do mosteiro - era herança dos tempos antigos. Bem ali era o templo de Ártemis, que foi destruído para que se fizesse o mosteiro, embora a base permanecesse. Lembrei de nossa América Latina, dos templos maias, astecas e incas, todos derrubados, dando lugar a igrejas, com os deuses sendo solapados pelo deus cristão. Tudo tão igual.

Mas, ainda que soterrada, a cultura antiga encontra seu lugar no museu do mosteiro. Num cantinho, alguns mármores do velho templo da deusa da caça estão expostos. A linda Ártemis vive no seio do mundo ortodoxo cristão. Lá fora, o vento forte anunciava o cair da tarde, o mar Egeu, espaço de Posseidon, se agitava. Saímos impregnados daquela profunda impressão, causada pela mistura de duas culturas tão distintas, que simbioticamente convivem. Ártemis, não mais cultuada, mas não esquecida e João, o apóstolo, com sua visão de fim de mundo. Dois guerreiros, enfim. Ainda em luta no coração dos gregos.

No alto do mosteiro, estas duas culturas pareciam mesmo vivas. De um lado, os austeros monges, com suas sotainas pretas e barbas grandes. Do outro, Vera, a guia, vestida numa túnica branca, vaporosa, a própria imagem da deusa. Em pleno século XXI eu via Ártemis, na porta do mosteiro, a acenar. A caçadora ainda não fora vencida! Lá, como cá, os deuses antigos assomam, ainda que não se queira.

As mulheres originárias


A cidade nos reserva surpresas inauditas. Andando apressada em direção ao almoço, cabeça baixa, cheia de minhocas a minhocar, de repente, eu as vi. Estavam ali, lado a lado, no chão, em meio à algaravia das gentes que passavam rumo ao centro de compras da Trindade. Cada uma delas oferecia, no mercado, o produto que lhes permite seguir tocando a vida. Uma expunha os ecos de sua cultura milenar: cestos, maracás, colares, bichos de madeira. A outra, exposta ao turbilhão do sistema, oferecia lenços da moda. Todas duas tinham ao lado uma criança, a lhes exigir cuidados. Tão perto e tão longe.

As mulheres com as quais me deparei eram uma guarani e uma kichwa, respectivamente do Brasil e do Equador. Duas originárias, filhas legítimas da terra de Abya Yala. A guarani vive no morro dos cavalos, na aldeia, e vem todos os dias tentar ganhar um troquinho que trocará por comida. A kichwa vem de Cotopaxi, com um grupo grande de migrantes que saiu do Equador em busca de vida melhor. Os maridos, filhos e parentes cantam e dançam nas ruas enquanto elas vendem produtos da moda comprados em quantidade.

As duas mulheres originárias estão ali, na esquina da UFSC. Estão perto, mas não se falam. Vivem cada uma no seu mundo particular, sem comunicação. Sem se dar conta, talvez, que são irmãs, iguais na condição de povos primevos, donos desta imensa terra. Estão na rua, sentadas no chão frio, esperando que algum passante apressado se interesse pelos seus produtos. Disputam a calçada de um lugar que lhes pertence.

As mulheres originárias não se conhecem, não se olham, não se falam. Submetidas estão ao modo de ser ocidental, de competição e indiferença. As mulheres originárias precisam se conhecer, e saber... Hoje o dia passou, mas segunda-feira eu vou apresentá-las! Alguma coisa haverá de mudar naquela esquina da UFSC...